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Imprensa, Política

A morte do jornalismo

O jornalismo acabou na grande imprensa do Pará.

O Repórter 70, na edição de hoje de O Liberal, dedica quase metade do seu espaço, em seis notas sucessivas, para responder ao editorial de ontem do Diário do Pará. Em apenas uma das notas há alguma preocupação com os fatos e o leitor. Todo resto é uma algaravia de ataques e ofensas aos Barbalhos.

A atual celeuma se originou numa nota da principal coluna do jornal dos Maioranas. Ela dizia que o gerente comercial do Diário procurara o prefeito Zenaldo Coutinho, ou algum dos seus assessores. Cobrou que a prefeitura reservasse, para aplicar em publicidade no jornal, 10% da verba, de 27 milhões de reais, liberada pelo ministro Helder Barbalho, da Integração Nacional, junto com o pai, o senador Jader Barbalho, ambos do PMDB.

O dinheiro foi destinado à recuperação da proteção à orla das praias de Mosqueiro. A prefeitura o aplicará sem precisar fazer contrapartida. Dinheiro sem volta, a fundo perdido.

O Diário reagiu, ontem, dizendo que a história era mentirosa. Anunciou que iria imediatamente processar O Liberal na justiça com ações cíveis e criminais.

Ao invés de apontar fatos e ouvir fontes identificáveis, a partir do próprio prefeito, O Liberal se defende apenas atacando o concorrente e seus donos, que recriaram em Belém uma réplica feroz, grosseira e rústica da rivalidade de Montecchio e Capuletto, imortalizada por Shakespeare em Romeu e Julieta. A versão paraense é ultrajante.

Na única das seis notas aproveitáveis, diz o Repórter 70:

“Esta coluna, que revelou a informação, acredita em sua veracidade, porque veraz é a fonte que a transmitiu. Daí ser resível, ridículo e despropositado ver o papelucho de mentiras diárias dos Barbalhos dizer que a informação é falsa. Que moral têm eles para negar as barbalhices que propagam, já que são ícones da corrupção? Está aí Jader Barbalho, esse provecto espertalhão, cada vez mais esperto e metido em todos os esquemas de corrupção, como Banpará, Sudam e agora Lava Jato, na qual está sendo investigado”.

O jornal pode atacar como quiser seus inimigos, respondendo pelo que dizem deles. Mas ao tratar de matéria de interesse público, seu primeiro compromisso é com a veracidade dos fatos. Se o Pará ainda estivesse afeito ao significado dos fatos, o jornal deveria ter ouvido o prefeito. Zenaldo podia confirmar a história, desmenti-la ou se omitir. Mas teria que ser procurado e teria que ser obrigado a fazer qualquer declaração.

Se não quisessem dar aos seus inimigos mortais o direito de resposta, ouvindo o personagem citado, o gerente comercial Nilton Lobato, os Maioranas também poderiam procurar os tais assessores para um off detalhado: o dia do encontro, sua duração, o teor da conversa e, talvez, até, uma gravação clandestina.

Afinal, em plena época de caça aos corruptos e de defesa dos cofres públicos, um ministro  do governo federal estaria dando oportunidade à prática de extorsão a partir de recursos do erário, em proveito de uma empresa da qual é sócio. Se verdadeira a nota de O Liberal, Helder Barbalho teria que pedir demissão ou ser demitido do cargo que ocupa.

Até agora, nada indica que a informação tenha procedência. A não ser que o prefeito Zenaldo Coutinho seja a fonte secreta de O Liberal, usando o jornal para “plantar” a informação. Se for assim, o prefeito tem que ser chamado à ordem para esclarecer esse fato, que, se verdadeiro, é muito grave.

Como O Liberal preferiu lançar flechas envenenadas na direção dos inimigos, ao invés de esclarecer a opinião pública, incorpora a carapuça de sempre, que partilha com o Diário: de mentir descaradamente para a população e se lixar para o jornalismo. Não há limites para esse ultraje.

Falta apenas mandar rezar o réquiem para que a alma penada dos dois principais grupos de comunicação do Pará tenham uma boa morte. Ao proceder de forma tão leviana e arrogante, eles se suicidam como instituições que mereçam respeito e credibilidade.

Discussão

9 comentários sobre “A morte do jornalismo

  1. Eles apenas espelham os bons costumes. Afinal, na cultura da corrupção isso é jornalismo..

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    Publicado por Luiz Mário | 25 de março de 2017, 17:26
  2. Com a palavra o Zenaldo. A interpelação pode indicar a verdade.

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    Publicado por Deusdedith Brasil | 25 de março de 2017, 18:19
  3. Então? Qual foi a fonte? Existe ou não? É confiável ou não? Enquanto isso não for esclarecido, esse é apenas mais um capítulo da novela maioranabarbalho que assombra o Pará por tanto tempo. Quando a população dará um basta nisso?

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    Publicado por José Silva | 25 de março de 2017, 22:46
  4. José Silva, eu já faço meu protesto deixando de comprar essas duas porcarias. Meu dinheiro não levam mais.

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    Publicado por Paul Nan Bond | 26 de março de 2017, 00:58
  5. Caro Lúcio Flávio

    Seu artigo em uma aula de grande jornalismo.

    Atribuir o grande jornalismo ao que se pauta nos 2 principais grupos de comunicação do Pará é um paradoxo em vossa opinião, haja vista que muito do grande jornalismo do Pará carga suas digitais.

    A bem da verdade muito pouco do grande jornalismo paraense é impresso nesses 2 grandes meio de comunicação do Pará.

    O jornalismo saberá se reinventar nas gerações futuras. Quanto à esses 2 grupos espero que não.

    Cordialmente, João.

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    Publicado por João Paulo Bandeira | 26 de março de 2017, 14:37
  6. Os dois jornais servem apenas para o meu cachorro fazer suas necessidades.Afirmo ainda que não compro e sim ganho dos amigos para o meu cão.

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    Publicado por SERGIO GUSTAVO FIGUEIRA FIALHO | 29 de março de 2017, 10:45

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