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Cultura

A história na chapa quente (91)

Paissandu: campeão

das grandes glórias

(Artigo fora dos padrões do Jornal Pessoal – este, edição 290, de agosto de 2002 – e esquisito para um torcedor do Clube do Remo.)

Os supersticiosos podem anotar: o período de julho a agosto é o mais favorável ao Paissandu, o time que mais honras já deu ao futebol paraense. A maior delas, no início do mês, tornando-se campeão dos campeões e se habilitando como o primeiro clube de todo o norte do país a disputar a Taça Libertadores da América. A maior glória anterior havia sido alcançada em 18 de julho de 1965, quando o Paissandu aplicou goleada de 3 a 0 no Peñarol, campeão uruguaio e futuro campeão do mundo.

Essa história tinha tudo para ser um desastre. O então presidente do Paissandu, o corretor de imóveis Urubatan d’Oliveira, era neófito em matéria de temporadas futebolísticas. Comprometeu-se a pagar mais de 20 mil dólares (quase 50 milhões de cruzeiros, valor da época) por dois jogos do time uruguaio em Belém.

Isso, em plena temporada de férias, sem uma campanha de divulgação e sem um estádio à altura da empreitada. Para que ela se realizasse, a Urubatan precisaram se juntar cartolas bicolores, como Giorgio Falangola, Abílio Couceiro e Nabor Silva, que endossaram a parada.

Financeiramente, a aventura foi mesmo desastrosa. O primeiro jogo só rendeu 12 milhões de cruzeiros. O Paissandu tentou atrair o Remo para uma parceria, mas os azulinos vinham de uma partida com o Nacional, em Manaus, dias antes, e um segundo jogo logo em seguida, pelo campeonato nacional, em campanha vitoriosa. Não iam ceder jogadores para um combinado. Nem iam facilitar as coisas para a segunda partida com o Peñarol se realizar em seu estádio, o único com iluminação para jogos noturnos.

O Paissandu teve então que se aliar à Tuna para formar o combinado, que nem tinha camisa (precisou emprestar o uniforme do clube dos motoristas, o Salevi: camisas tricolores, meias vermelhas e calções brancos), e abriu os portões do acanhado campo da Curuzu, com capacidade para 15 mil pessoas, que recebeu quase 25 mil torcedores, em plena tarde de uma quarta-feira, 21 de julho.

Resultado: o alambrado separando as arquibancadas do gramado ruiu duas vezes, ferindo algumas pessoas (inclusive o técnico Miguel Cecim), embora sem gravidade. Mais prejuízo ainda: o conserto custaria um milhão de cruzeiros.

Mas o Paissandu deixou tonto o Peñarol, com gols de Ércio, Milton Dias (que acabaria contratado pelo time uruguaio) e Fernando. Na segunda partida, com o combinado, houve empate de 1 a 1, gol de Nascimento para os paraenses e de Spencer, aos 43 minutos do segundo tempo, para os uruguaios. Que chegaram a Belém com invencibilidade de 15 partidas e duas vitórias seguidas sobre o Santos de Pelé & Cia., possuindo cinco titulares da seleção uruguaia. Em Belém, como todos os artistas, se acabaram.

O glorioso Paissandu jogou a 18 de julho de 1965 com Castilho;Oliveira, Abel, J. Alves e Carlinhos; Beto e 40; Fernando, Milton Dias (Laércio), Édson Piola (Milton Marabá) e Ércio.

O combinado Paissandu-Tuna formou com Castilho; Oliveira, Abel, Morais (João Tavares) e Carlinhos; Antenor (Beto) e Da Silva; Edilson (Santiago), Mário (Vila), Nascimento (Milton Dias) e Ércio.

É bom não esquecer que exatamente 20 anos antes, em 22 de julho de 1945, o Paissandu aplicou a histórica goleada de 7 a 0 sobre o meu Clube do Remo, dentro do estádio Antônio Baena, jogo apitado pelo juiz Alberto da Gama Malcher.

O primeiro tempo até que foi dentro do figurino: 1 a 0 para o Papão, gol de Hélio. Mas o segundo tempo foi arrasador: Farias, Soiá, novamente Soiá, de novo ele, Hélio e Nascimento colocaram a bola, nessa sequência, dentro do arco do atônito Leão Azul.

O Paissandu jogou com Palmério, Izan e Athê; Mariano, Manuel Pedro e Nascimento; Arleto, Farias, Hélio, Guimarães e Soiá.

O Remo teve em campo Tico-Tico; Jesus e Expedito; Mariozinho, Rubens e Vicente; Monard, Geju, Jango, Capi e Boro.

Por terem trocado sopapos entre si, Arleto, pelo Paissandu, e Vicente, pelo Remo, foram expulsos. O técnico do alvi-azul era o tenente Floriano e o do azulino, Alfredo Gama. Já os presidentes eram Francisco Aguiar Nogueira e Nestor Pinto Bastos, respectivamente.

Para não ficar só Paissandu neste registro, é bom não esquecer a façanha do Remo em 1965: conseguiu fazer o Santos, campeão do mundo, jogar no “Evandro Almeida” (por 40 milhões de cruzeiros, ou 20 mil dólares de então) uma partida encantadora, na qual os dois times pareciam iguais, proporcionando um belo espetáculo a quem esteve no estádio naquela noite (eu, inclusive).

É verdade que Pelé, Coutinho & Cia. fizeram nove gols. Mas o Remo retribuiu com seis, dos quais dois não foram validados. Final: 9 a 4, uma derrota gloriosa, de gosto muito mais doce do que as insossas vitórias que, de vez em quando, o time atual consegue alcançar.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (91)

  1. Que bons tempos! Se depender do time do Paysandu que jogou ontem, estes tempos de vitórias continuarão longe. Eta time ruinzinho! Se os jogadores justificassem apenas um pouco os salários que recebem, eles teriam goleado o time do outro da rua sem fazer muito esforço.

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    Publicado por Jose Silva | 27 de março de 2017, 16:38

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