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Política

A história na chapa quente (92)

Procura-se um personagem

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 292, de setembro de 2002)

Há neste ano um produto em falta nas prateleiras do supermercado do voto no Pará: o carisma. Pode-se dar outro nome a esse produto em desabastecimento: personalidade. Ou ainda: marca. É o que pode explicar a falta de entusiasmo do eleitor diante das opções que lhe são oferecidas como candidatos ao governo do Estado e ao Senado da república, os dois principais cargos em disputa.

Apesar das sensíveis diferenças entre eles nas sondagens prévias, nenhum empolgou. Entre os mais lembrados, não há um franco favorito. Nem se pode apresentar uma razão clara e convincente para um estar à frente do outro. Por esse motivo, as poucas pesquisas de opinião até agora divulgadas, sendo uma apenas do Ibope, são contestadas com mais veemência do que em outros anos.

O maior eleitor é mesmo o governador Almir Gabriel. Ele tem atrás de si quase oito anos contínuos à frente de uma administração estadual com saldo positivo e, pela frente, várias obras para inaugurar até a realização do primeiro turno da eleição. Se tivesse apoiado um candidato de maior densidade política, a dúvida neste momento consistiria em saber se o elegeria ou não já em primeiro turno.

Por enquanto, a pendência real é se Simão Jatene, o cabeça da coligação situacionista, irá para o segundo turno; e, indo, se será o primeiro ou o segundo mais votado. E ainda: se, no returno, inverterá a tendência dominante, favorável a Ademir Andrade.

A única pesquisa do Ibope registrada no TRE, sob encomenda do grupo Liberal, não lança luz suficiente para iluminar o futuro. A sondagem estimulada mostra que um balanço sobre a decisão do senador do PSB, de aliar-se ao ex-senador Jader Barbalho, deu saldo positivo, ao menos pelo ângulo da contabilidade eleitoral.

Ademir alcançou nível de preferência bem acima do máximo em que fora registrada até então a sua posição junto ao eleitorado. Obviamente, esse crescimento resulta da migração de votos do PMDB.

Se isso é verdade, é pouco provável que Ademir deixe de ir para o segundo turno. Se não há também inconsistência na pesquisa, essa tendência tornará a candidatura de Ademir mais forte no segundo turno. Nas simulações feitas pelo Ibope, ele tem uma margem confortável de vantagem sobre todos os demais concorrentes.

Certamente porque reagrupará mais gente, sobretudo votos originários do PT, do PMDB e da coligação liderada por Hildegardo Nunes, mas também (embora apenas residualmente) bicando votos mesmo dentro da base tucana. O espectro em favor de Simão Jatene é menos amplo.

A companhia incômoda

O que pode minar essa força? Uma campanha mais clara visando o desgaste de Ademir em função de se ter tornado um aliado de Jader Barbalho, a quem vinha criticando desde 1986, com ênfase crescente, sobretudo quanto ao uso de dinheiro público e enriquecimento ilícito. Outro ponto no alvo dos adversários é a circunstância de Ademir não ser paraense (é baiano) e ter um passado com muitos ziguezagues, fértil para a exploração de contradições.

A vulnerabilidade desse flanco dependerá não apenas da contundência do ataque, mas também da eficácia da resposta. O desempenho do senador não tem sido, até agora, tão satisfatório quanto em campanhas anteriores. Talvez porque ele tenha preferido uma condução mais morna exatamente para evitar situações delicadas.

Não é suficiente, porém, às forças governistas, desgastar os oponentes. Elas precisam reforçar seu próprio candidato. A pesquisa do Ibope mostra que o bom desempenho do nome de Simão Jatene se deve à máquina que o arrasta. Ela tornou conhecido o ex-secretário especial da produção, um homem até então confinado ao gabinete e, em seu reduto tecnocrata, especializado na negação (era o freio de mão do governo contra a pressão dos políticos).

O peso do candidato

Mas o fato, surpreendente, de que Jatene já ganha com folga de Ademir na pesquisa espontânea e perde, com diferença bem razoável, na pesquisa estimulada, sugere que a aceitação do delfim de Almir Gabriel junto às bases é difícil.

No mínimo, exigiria um trabalho de – digamos assim – “indução e convencimento” mais demorado, ou, tendo que ser curto mesmo, mais compacto e forte do que por métodos que já se tornaram tradicionais na máquina oficial (convênios em série, por exemplo, mas só com parte dos recursos liberados, a parcela maior condicionada ao pós-eleitoral).

Com essa condicionante, o que tem sido feito é dar a Jatene uma retaguarda de campanha desproporcionalmente maior do que a dos concorrentes. Os programas de televisão do preferido do governador se tornaram o seu maior trunfo, tal a vantagem que eles mantêm sobre os demais.

Por qualidade entenda-se não só o conteúdo intrínseco do programa, mas os recursos formais e a infraestrutura que edulcora a participação do ex-secretário. Por isso, um indicador fundamental de avaliação será o resultado da próxima pesquisa de opinião, com a resposta do eleitor à apresentação dos candidatos pela televisão.

Com todos esses recursos, de David contra Golias, mais o adendo da garantia de neutralismo divino nessa porfia entre o gigante guerreiro e o pequeno atirador de funda, ainda assim a sorte do escolhido do governador depende do desempenho dos seus principais concorrentes, especialmente do vice-governador Hildegardo Nunes.

Sua campanha tem sido decepcionante porque lhe vinha faltando uma marca forte, uma identidade própria. No debate realizado na TV RBA, a timidez e o nervosismo transformaram o candidato numa espécie de intervalo comercial. É provável que o telespectador não se tenha apercebido dele como um concorrente.

A falta de opções

Essa é uma dificuldade natural para quem não tinha encontrado um lugar que pudesse conciliá-lo com suas preocupações éticas sem deixá-lo desconfortável. Hildegardo era um oposicionista tardio com receio de assumir essa condição, cobrado a pagar um preço alto por essa indefinição (imediatamente vem a pecha de traidor ou oportunista).

Ele só conseguiu chegar a uma definição no último domingo, ao abrir, nas páginas de O Liberal (que o apoia discretamente), a série de entrevistas do jornal com os candidatos. Desferiu petardos certeiros contra o reduto tucano e atacou com precisão as chagas abertas da personalidade e do modo de agir do médico Almir Gabriel. Mas não terá sido tarde demais para descolar de Hildegardo a imagem de Hamlet marajoara?

Mais uma pergunta pendente. No entanto, teria sido tão fácil para o vice-governador apresentar todas essas restrições, de forma clara, se não tivesse esperado até a undécima hora pelo chamado do governador para ser seu candidato à sucessão.

Circunstância ainda mais difícil de admitir por terem sido numerosos os sinais de que o vice-governador jamais foi cogitado a sério pelo titular como seu candidato. O governador saiu para o segundo mandato com o nome de Simão Jatene na algibeira e uma estratégia bem clara (e por isso de percepção evidente) de desgaste das outras alternativas dentro da coligação situacionista.

Como seu maior trunfo para esse tipo de manobra, Almir Gabriel tinha o apoio majoritário da população ao seu governo. Não há dúvida que ele foi um dos governadores que mais trabalhou e fez pelo Pará em várias décadas. Não quer dizer, entretanto, que sua administração se distinguiu das mais destacadas nesse período como a mais e melhor. Almir é um competente gestor de recursos, como provou desde o início de sua vida pública, tanto no Hospital Barros Barreto quanto na secretaria de Saúde e na prefeitura de Belém.

Mas não é criativo. Depende de ideias alheias, nascidas no seu verdadeiro apparatchick (o que ficou de suas origens esquerdistas é o centralismo administrativo dos PCs, nome bonito para ditadura) ou “incorporadas”. De um lado, executou tudo o que o secretário Paulo Chaves lhe apresentou. De outro, pôs em prática os projetos que estavam engavetados nas prateleiras oficiais ou nos escaninhos dos grandes projetos, do Tramoeste à Alça Viária.

Obras sem maior mudança

Se Almir Gabriel fez mais do que seus antecessores imediatos, o que fez resultou de um acerto palaciano, entre os membros da corte e seus parceiros. Aí está o calcanhar de Aquiles do seu governo: essas obras não têm efeito multiplicador de renda, nem são condutores adequados do progresso social.

Ao contrário, elas renovam o perfil colonial do Estado, delineado pelos grandes projetos: grandes investimentos que se vão refletir no mercado comprador e que só beneficiam o local de extração de riqueza e as áreas atravessadas pelos corredores de exportação até o litoral, formando os “enclaves”.

Nos oito anos de Almir Gabriel o Pará cresceu, mas o produto desse crescimento foi apropriado por poucos, em doses maiores fora do Estado. Daí os indicadores sociais ruins, dentre os quais se destacam os de saúde, um contraste acusador para quem conseguiu ser um dos raros médicos a chegar ao posto máximo no Pará.

Quem viveu esses oito anos em gabinete, como membro privilegiado da corte tucana, não é capaz de perceber esse paradoxo. Refletindo-o, o ex-secretário Simão Jatene ofereceu sua cabeça aos adversários, no debate na TV RBA, quando disse que o que lhe interessa é promover a expansão da ocupação no Estado, não a do trabalho.

Alguém podia ter-lhe lembrado na hora (e não depois) que prostituição também é ocupação, como o trabalho escravo ou o emprego de crianças nos fornos de carvão, ainda frequentes no interior do Pará. Esse tipo de ocupação está entre as que o delfim tucano pretende estimular? Elas têm sido, pelo menos, aquele tipo de subproduto que se dissemina pelas senzalas sem chegar a perturbar a placidez tecnocrática das casas grandes.

O Pará real, aquele que se viu empobrecido diante de um Estado com quistos de riqueza, gostaria de encontrar esse líder para corrigir os rumos e refazer as engrenagens, sem voltar atrás. Mas não o encontrará. O que apareceu de novo na tela foi um lunático oportunista com suas gags irracionais. Para uma ânsia legítima, respostas tortas. Ao invés de história, ópera bufa. Pará também é isso.

Discussão

5 comentários sobre “A história na chapa quente (92)

  1. Sementes da atual Arena romana: “Alguém podia ter-lhe lembrado na hora (e não depois) que prostituição também é ocupação, como o trabalho escravo ou o emprego de crianças nos fornos de carvão, ainda frequentes no interior do Pará. Esse tipo de ocupação está entre as que o delfim tucano pretende estimular? Elas têm sido, pelo menos, aquele tipo de subproduto que se dissemina pelas senzalas sem chegar a perturbar a placidez tecnocrática das casas grandes.”

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    Publicado por Luiz Mário | 28 de março de 2017, 11:18
  2. Faltava naquela época e ainda falta agora. Qual o politico que temos que combina idéias originais e carisma? Nenhum. Creio que passaremos várias gerações até que apareça alguém bem qualificado para transformar o Pará.

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    Publicado por Jose Silva | 28 de março de 2017, 15:46
  3. Depois dizem que “opovo” não sabe votar…”passaremos” quem, cara pálida?!

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    Publicado por Luiz Mário | 28 de março de 2017, 18:13
    • Votar significa também arriscar e invocar. Quantos candidatos potencialmente transformadores desistiram da política nos últimos anos no Pará porque o povo continuou votando nos mesmos de sempre? O conservadorismo do eleitorado paraense talvez explique a baixa taxa de surgimento de gente inovadora entre os políticos locais.

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      Publicado por José Silva | 28 de março de 2017, 20:01

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