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Cidades, Polícia, Violência

O povo, esse detalhe

Augusto das Chagas Ferreira Júnior tem 33 anos. Não é casado formalmente, mas tem dois filhos – um menino de cinco anos e uma menina de nove – de uma relação estável e duradoura. Mora no Barreiro, um dos bairros pobres de Belém, com fama de ser violento. Augusto está desempregado. Sobrevive como mototaxista. É considerado pessoa de respeito, afável e de boa aparência.

 

No dia 11 ele foi à casa de uma vizinha e pediu sua autorização para levar a filha, de seis anos, para passear no shopping Parque Grão Pará, no início da tarde. Colocou a menina na garupa da sua moto, protegida por capacete, e saiu.

 

Durante uma hora pagou lanche, brinque e roupa para a criança. Andaram pelo shopping como amigos – ao observador, parecia pai e filha, ou irmãos. A menina estava relaxada, à vontade, inteiramente confiante no seu acompanhante. Segui-a passivamente. Quando ele se distanciava, corria para alcançá-lo e lhe dava a mão, aparentando estar alegre, aproveitando ao máximo o raro programa.

 

Saíram do shopping. Ao invés de seguirem à direita, para onde a motocicleta fora deixada, no estacionamento, rumaram para a esquerda. Augusto inspecionou o local. Era a área de uma construção. Convencido de estar realmente deserta, tirou a roupa da menina e começou a praticar atos libidinosos com ela.

 

Depois a fotografou nua. Voltou a apalpar suas partes íntimas e mostrou-lhe seu próprio órgão sexual. Finalmente a vestiu e voltou com ela para pegar a moto. A sessão durou menos de sete minutos. Caracterizaria o estupro de vulnerável, crime, mesmo sem penetração, que pode resultar em 15 anos de prisão. Pode ter sido também ato de pedofilia, se comprovado que enviou as fotos para outras pessoas. Parece integrar uma rede de pornografia.

 

Uma câmera instalada no prédio registrou todas as cenas. Mas um vigia também viu o que acontecia com seus próprios olhos. Ligou para o 190, da polícia, que alegou nada poder fazer naquele momento. Estava sem “viatura”. O vigia não desistiu. Foi atrás de provas, mas não conseguiu o flagrante. Dezenove dias depois, ontem, o estuprador foi preso, no início da manhã, na casa do sogro, onde morava, após 16 dias de investigação policial indireta.

 

Augusto alegou que não se lembrava de nada. Estava bêbado. O argumento não combina com as imagens, que o mostram tranquilo e resoluto, andando com passos certos. No mesmo ritmo da sua vítima, inteiramente à vontade durante todo percurso.

 

Ao saber do abuso sexual sofrido pela filha, a mãe se assustou – e tratou de se defender. Ela está desempregada, sem dinheiro e sem marido, que expulsou da casa porque ele é drogado (dependente químico, no jargão). Justificou a autorização dizendo que, embora desconhecido, Augusto é seu vizinho e parecia uma pessoa confiável.

 

Além do mais, ele se comprometeu a dar à sua filha a roupa que a mãe não pode comprar, brinquedo e o passeio. De nada desconfiava até a polícia bater à sua porta com a história completa, pronta e acabada para mandar o estuprador para a cadeia, embora sem o flagrante, bloqueado pelo ineficiente e insensível atendente do telefone de urgência e emergência da polícia.

 

Uma história chocante, repulsiva, de indignar – mas cada vez mais comum na periferia das cidades e mesmo na zona rural, flageladas pelo desemprego, a falta de dinheiro, a ausência do poder público, uma educação para inglês ver, um atendimento precário da saúde pública, a insensibilidade para com aqueles que não são os eleitos da elite, distraída pelo saque ao erário.

 

No momento, quero só chamar a atenção do leitor para o fundo humano de notícia horripilantemente medíocre veiculada pela imprensa local. A criança não é um número, sua família não é um acaso, o Barreiro não é uma abstração, estupradores nem sempre têm o rosto de estupradores, a polícia claudica ao policiar e o Estado é sonolento, preguiçoso e acomodado como seu chefe.

 

O povo foi abandonado à própria sorte, à lei da sobrevivência, segundo a qual só os mais fortes sobrevivem. Cada um quer ser mais forte do que o outro, o que alimenta a escalada de violência, praticada sob a capa de um ato de bondade, generosidade e fidalguia, acolhido sob as circunstâncias amortecedoras da necessidade.

 

Vamos, como Pilatos, continuar a lavar as mãos e virar o rosto?

Discussão

Um comentário sobre “O povo, esse detalhe

  1. Triste. Muito triste. Pelo menos Pilatos lavou as mãos antes de virar o rosto. Pelos resultados das eleições nos últimos anos, que coloca sempre os mesmos no poder apesar de todas as mazelas existentes, tudo indica que a nossa sociedade prefere mesmo continuar com a mão suja e, infelizmente, virar o rosto para si mesma.

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    Publicado por Jose Silva | 31 de março de 2017, 17:06

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