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Imprensa

A história na chapa quente (96)

Triste ineditismo

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 292, de outubro de 2002)

Na edição de 6 de setembro, O Liberal cometeu algo provavelmente inédito na história do jornalismo mundial: deu manchete de primeira página a um editorial. Sob o título “Basa tenta calar O LIBERAL”, o jornal ocupou quase toda uma coluna vertical da capa, de alto abaixo, para acusar o Banco da Amazônia de  retaliá-lo.

Naquele mesmo dia, o Diário do Pará e a Gazeta Mercantil estavam publicando a íntegra do balanço financeiro da instituição, em três páginas, enquanto a O Liberal fora destinado apenas um resumo, de meia página.

O jornal estaria sofrendo represália por haver publicado matéria, um mês antes, sobre a punição que o Tribunal de Contas da União aplicou à diretoria do Basa. Por considerar de “risco elevado e baixa garantia de retorno” um empréstimo de 4,4 milhões de reais concedidos pelo banco para a construção de um hotel de selva em Guajará-Mirim, na fronteira de Rondônia com a Bolívia, o TCU multou os cinco diretores, num total de 52,5 mil reais.

Os argumentos dos punidos não foram aceitos pelo ministro-relator do TCU, Benjamin Zymler, que manteve a caracterização das irregularidades e a multa. Houve recurso administrativo dos diretores do Basa, ainda pendente de decisão.

O editorial de O Liberal diz que o jornal tentou inutilmente ouvir os diretores enquadrados pelo TCU, mas nenhum deles quis se manifestar. O jornal registrou que uma beneficiária do empréstimo, Olgarina Saldanha, sócia no controle do hotel Pakaas Palafitas Lodge, é casada com Paulo Cordeiro Saldanha, que foi diretor do Basa (e não presidente, como afirma o editorial) e hoje está aposentado. O Liberal manteve a cobertura do assunto, mesmo enfrentando o silêncio do banco.

“O tratamento editorial dado ao caso culmina agora com a retaliação do Basa ao O Liberal”, sentenciou o jornal. Por retaliação, entendeu a atitude da diretoria de só programar meia página de anúncio para a folha da família Maiorana, enquanto dava três páginas para outros dois jornais, um local, de menor circulação, e outro nacional. “O princípio da publicidade, que exige a veiculação de peças contábeis e de atos do Poder Público no jornal de maior circulação na área foi desrespeitado”, vociferou O Liberal.

Não exatamente. A lei exige que o material legal de instituições públicas ou sociedades anônimas seja divulgado em publicação de grande circulação, não necessariamente de maior circulação. O Basa pode não ter seguido os melhores padrões de marketing, mas não contrariou nenhum dispositivo legal ao publicar a íntegra do seu balanço no Diário do Pará e não em O Liberal. Essa suposta retaliação também não se caracterizou como um boicote: afinal, mesmo resumido, o balanço também saiu na folha dos Maioranas.

Os veículos do grupo continuaram recebendo outras peças publicitárias. Foi mantido até mesmo o patrocínio do banco ao último telejornal noturno da TV Liberal, no qual, aliás, foi lido o editorial atacando o patrocinador. O Basa foi parceiro da empresa até o fim do projeto Criança Vida, que patrocinou uma UTI neonatal na Santa Casa de Misericórdia (com pagamento integral das veiculações publicitárias na rede do grupo).

Como, então, trombetear, com despropositado exagero, a tentativa de amordaçamento editorial? Reagindo a um fato inexistente ou superestimado, o jornal prometeu continuar cumprindo o item 3 do Código de Ética da Associação Nacional de Jornais, que lhe impõe apurar e publicar “a verdade dos fatos de interesse público, não admitindo que sobre eles prevaleçam quaisquer interesses”.

Nesse caso, o jornal podia ter complementado a denúncia sobre o projeto de hotel de selva em Rondônia com a revelação de que o vice-presidente das Organizações Romulo Maiorana também é controlador de empreendimento semelhante no Estado do Amazonas.

O projeto recebeu incentivos fiscais da Sudam e está sob investigação de desvio do dinheiro liberado, como outras dezenas de projetos semelhantes, todos eles apontados seguidamente por O Liberal como tendo desviado recursos públicos para o patrimônio pessoal do ex-senador Jader Barbalho, o político mais influente na Sudam nos últimos anos.

O Liberal não deu inusitada manchete de primeira página ao seu editorial por estar sendo impedido de dizer a verdade, matéria prima que costuma ser maltratada em suas páginas. Foi porque não ganhou o dinheiro que julga, por direito quase divino, ser obrigação do anunciante lhe pagar. Isso não é assunto editorial, mas matéria comercial. Devia ser tratada em outro lugar e de outra forma, ao menos para que o jornal, dando-se ao respeito, respeitasse o seu leitor.

Ah, sim: O Liberal não deu uma linha sequer sobre o conteúdo do balanço da maior instituição regional de crédito, que constitui relevante assunto jornalístico. Nem mais voltou a tratar da operação irregular de empréstimo em favor da empresa rondoniense de turismo.

Parece até que para os Maioranas o que sai de suas agendas desaparece do mundo. D’après moi le déluge, diria Romulo Maiorana II, se pudesse saber o que estaria dizendo nessa difícil língua de seu circunstancial antecessor, um tal de Luís XIV, o rei-sol.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (96)

  1. O Assis deve ter aprendido com alguém, não é verdade? A escola é diferente, mas a estratégia é a mesma.

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    Publicado por José Silva | 3 de abril de 2017, 21:21

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