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Política

A história na chapa quente (97)

A voz da consciência

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 292, de outubro de 2002)

Na fase de cultivar amigos e influenciar pessoas, Luís Inácio Lula da Silva fez entusiasmados elogios à “economia planejada” do regime militar. Uma de suas manifestações (um tanto cabalisticamente, na sexta-feira, 13), foi diante de um auditório integrado por altos oficiais das Forças Armadas, à frente dos quais estava o general (agora na reserva) Leônidas Pires Gonçalves, ex-ministro do Exército.

Lembrando com saudade o tempo da economia centralizada que os militares sustentaram (embora nenhum deles tenha ocupado qualquer das pastas dessa área, entregue, com cheque assinado em branco por desconhecimento de causa, a tecnocratas como o tenor Mário Henrique Simonsen e o czar Delfim Neto), a intenção do candidato do PT à presidência da República era óbvia: criticar o regime econômico baseado na liberdade de mercado, o “neoliberalismo” de Fernando Henrique Cardoso & José Serra.

A mais enfática e a mais imediata das reações veio da parte do sociólogo paulista José de Souza Martins, considerado uma das maiores autoridades em temas rurais do Brasil, e particularmente conceituado em questões amazônicas. Martins não deixou de ressalvar que os elogios de Lula ao “modelo” econômico adotado nos 20 anos de regime de exceção mais recente na história do país não se estendiam à ação política dos governos militares, cuja condenação manteve.

Mas enfileirou todas as mazelas, perversidades e distorções engendradas pelo modus faciendi adotado pela tecnoburocracia dominante entre 1964 e 1985: fazer o país crescer economicamente e só depois pensar na redistribuição da renda, que, enquanto isso, ficaria se concentrando sempre mais.

O maior item do espólio do regime pós-64 foi justamente a brutal concentração de renda, que coloca o Brasil entre os países mais injustos do planeta, herança que os governos seguintes, com destaque para o de FHC, trataram de continuar a adubar.

Martins adverte ainda que essa mesma economia planejada, “que Lula considera maravilhosa e recomendável para o povo brasileiro, no caso de vencer, foi responsável, também, pela planejada expansão do grande capital, sobretudo do Sudeste, para a região amazônica a partir de meados dos anos sessenta”.

Subsídio público a lucro privado

Mostra que a política de incentivos fiscais posta em prática pela Sudam a partir de 1966 significou uma drenagem de recursos públicos para os bolsos de investidores particulares. A maioria deles se mostrou voraz predadora. Eles foram selecionados como parceiros da “integração nacional” da região. Podiam receber do governo federal até 75% do capital necessário à implantação dos seus projetos produtivos, sem ter que devolver esse dinheiro ou pagar juros pelo seu uso. E, frequentemente, desviando parcela significativa ou mesmo majoritária dos recursos para outros empreendimentos e outras regiões.

“Não era empréstimo, era doação, incentivo fiscal. Essa maravilha era produto da economia planejada do elogio de Lula, a mesma economia do arrocho salarial. Todos nós, que vivíamos e vivemos do trabalho e do salário, abríamos mão dos nossos direitos sociais legítimos para que a ditadura brincasse de papai-noel com o grande capital, é bom não esquecer”, diz Martins.

Mas a coisa não parava aí, acrescenta ele:

“As empresas que essa ‘maravilhosa’ engenharia econômica da paixão de Lula criava, foram na maioria fazendas de criação de gado. Estimativas oficiais da época assinalavam que na ocupação da Amazônia Legal (mais da metade do território brasileiro), por meio dos incentivos fiscais, seria possível criar 40 mil empregos, que era o total de operários da fábrica de automóveis da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, na mesma época. Um terço de um continente para criar o mesmo número de empregos de uma fábrica de algumas centenas de metros quadrados. A maioria das empresas que entraram nessa barcarola não tinha a menor ideia de como é que se criava uma vaca. Da vaca, muitos só conheciam o bife. Obtiveram terras comprando títulos de propriedade ou de aforamento (caso em que as terras pertenciam de fato ao governo do Estado, como no caso do Pará e do Amazonas), não raro títulos falsificados, registraram as terras em seu nome e delas se apossaram. Quem quiser conhecer essa história não pode deixar de ler ao menos um livro de Lúcio Flávio Pinto, competente jornalista do Pará e, provavelmente, o melhor conhecedor da Amazônia e de sua história: Amazônia – No Rastro do Saque”.

Prestando contas à história

Martins tem toda razão em mostrar para a opinião pública o que significou esse controle centralizado da economia brasileira, que Lula parece ter esquecido, no açodamento de mostrar aos militares que não é o bicho-papão de outras épocas (e vice-versa).

Deixando-se encantar pela retórica do “modelo” e pela apreciação dos seus mecanismos técnicos em tese, o ex-metalúrgico se mostra vítima indefesa da prestidigitação de profissionais competentes, como o economista João Paulo dos Reis Velloso. Ele foi o teórico por trás de dois dos cinco governos militares, que produziu documentos às pencas pensando exatamente no juízo do futuro.

Trabalhos de maestria, mas para serem mantidos em arquivos e estantes. Habeas corpus preventivos para quem não duvidava de que, cedo ou tarde, o julgamento da história viria. Mesmo que pelas linhas tortas de um julgamento de conveniência.

Lula deixou de lado o que já foi evidência clara aos seus olhos no passado, reavivado por Martins:

“Os anos setenta foram na Amazônia os anos do terror do trabalho escravo ressuscitado e multiplicado da experiência dos velhos seringais, onde milhares de pessoas já haviam padecido e morrido desde o início da expansão da borracha, no século XIX. Segundo Sue Branford e Oriel Glock, em seu livro The Last Frontier, cerca de 400 mil pessoas trabalharam em regime de escravidão nos nossos anos setenta na Amazônia, os anos do largo elogio de Lula ao planejamento econômico da ditadura. Branford é corretíssima jornalista inglesa, muito ligada ao Brasil, fala português perfeitamente bem, simpatizante do PT, dedicada a um jornalismo social de alta competência”, observa o sociólogo.

Com indignação, completa:

“A miséria a que com justíssima razão se opõem Lula, o PT, o PSDB, o PDT, o PCdoB e todos nós que temos estômago e vergonha, foi criada justamente por essa ‘maravilhosa’ economia planejada a que Lula se refere fascinado e convicto, ameaçando-nos a todos com seu retorno. Foi essa a miséria herdada pelos governos civis que sucederam a ditadura, miséria a duras penas e lentamente debelada em condições mais do que adversas. Para combater os efeitos dessas atrocidades da economia do regime militar, Lula propõe o remédio do mesmo veneno de serpente que deu origem a tudo isso. Como é possível um equívoco desses? Elogiar o planejamento econômico da ditadura é um insulto às suas vítimas e uma ameaça a todo o povo brasileiro”.

Martins acha que, além dessa adesão aos princípios econômicos do regime militar, Lula aderiu também ao militarismo, ao se manifestar contrário ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, “de que o Brasil, por inspiração e opção pacifista, assinou há alguns anos”.

Adverte para a “clara a teia de compromissos estratégicos e internacionais” decorrentes dessa posição, prevendo: “Esse simples imprudente anúncio já é suficiente para levar inquietações aos países vizinhos e desencadear uma corrida armamentista no continente, com sérios danos a economias já debilitadas e graves prejuízos a uma legião de vítimas de uma economia injusta”.

Um outro Lula

Martins finaliza seu texto com a impressão de que esse Lula mais recente “está bem longe do Lula do discurso de primeiro de maio do ano da morte de Fleury e bem longe de todos nós que estávamos lá. O teatro da vida mudou de endereço. É pena, muita pena, que as pessoas mudem tanto para seguir o ‘script’ da conveniência eleitoral, como é pena que não haja limites nas alianças e rendições incondicionais”.

Os petistas  haverão de reagir a essa manifestação alegando que o sociólogo José de Souza Martins é simpatizante da candidatura de José Serra à Presidência da República. Ainda assim, porém, o professor aposentado da USP tem tocado em pontos nevrálgicos de uma agenda que a maioria dos grupos políticos prefere guardar no baú e esquecer, a pretexto de não criar embaraços à finalmente possível vitória de Lula na quarta tentativa de chegar ao posto máximo do país.

Baú que, se Lula realmente for eleito, será atirado ao mar da inconsciência, deixando uma lacuna da qual os efeitos danosos só serão sentidos quando a situação estiver na casa do sem-jeito, ao avançar para o passado, de centralismo em centralismo, repetindo, com outra ladainha, os erros do passado.

Mais um “sem”, aliás, no dicionário das carências nacionais.

Discussão

5 comentários sobre “A história na chapa quente (97)

  1. E se o retirante (ou seria invasor?) não tivesse aparecido, haveria conhecimento mundial dessa costumeira orgia (ou seriam os bons costumes, praticados pelos bons-moços, filhos da tradicional família brasileira?)?

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    Publicado por Luiz Mário | 4 de abril de 2017, 18:23
  2. Enquanto isso, nada de CERPA gelada?

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    Publicado por Luiz Mário | 4 de abril de 2017, 18:43
  3. Desde aquela época o Lula já demonstrava que gostava do capitalismo de estado, onde o estado entra com o dinheiro e o capitalista entra com a propina. Basta ver o que ele fez com as empreiteiras e a JBS. Uma coisa interessante é que tacharam o FHC de neoliberal. Qualquer defensor do neoliberalismo morreria de rir se perguntado se o FHC é um bom exemplo de neoliberalismo. FHC foi muito conservador e acabou não fazendo as reformas estruturais necessárias ao país.

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    Publicado por José Silva | 4 de abril de 2017, 20:50
  4. Ou seja, o famoso tapete ficou curtíssimo….

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    Publicado por Luiz Mário | 5 de abril de 2017, 12:08

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