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Política

A história na chapa quente (98)

Surpresas na reta final

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 292, de outubro de 2002)

Aconteceu o que se previa: o governador Almir Gabriel foi aos limites da ilegalidade para poder eleger o seu candidato, o ex-secretário estadual Simão Jatene. Esse limite criou o risco de cassação da candidatura do cabeça-de-chapa da coligação União pelo Pará.

Os tucanos veem inspiração política por trás da sentença do juiz federal Gláucio Ferreira Lima, que acolheu representação do deputado federal Giovanni Queiroz, do PDT, candidato a vice-governador na chapa de Hildegardo Nunes, e cassou Jatene por abuso de poder (além de multar o governador em 20 mil reais). Suscitam esse alegado vício a partir do fato de que a decisão do juiz, que funciona como auxiliar no TRE, foi adotada a uma semana e meia da eleição.

Na verdade o que gostariam de argumentar, se pudessem fazê-lo, seria a defesa de um princípio consuetudinário de isonomia: por que só os tucanos são punidos? Praticamente sem exceção, todos os governadores costumam usar a máquina pública que comandam para reforçar as candidaturas que apoiam. Almir Gabriel não inovou na atual temporada.

Mas, acomodado pela terceira eleição seguida ao governo (duas em causa própria, a terceira em favor do afilhado político), pode ter-se descuidado de manter as aparências ou evitar que o uso da máquina estadual se tornasse tão explícito.

Pode ser que o lento crescimento inicial da aceitação de Jatene o tenha levado a repetir, ao menos intimamente, a tristemente celebre frase com a qual o então ministro Jarbas Passarinho engoliu o AI-5, em 1968, jogando fora os escrúpulos da consciência. Se já havia sido ostensivo o envolvimento da estrutura de governo na eleição de 1998, agora ele se tornou agressivo demais.

Afora a temerária associação de datas feita pelos porta-vozes da União pelo Pará para colocar sob suspeita a decisão do juiz Gláucio Maciel, os termos da sua sentença são suficientemente consistentes para levar a questão ao TSE.

Prever a decisão que o Tribunal Regional Eleitoral tomará nesta semana (poderá já tê-la adotado quando esta edição chegar às ruas) é difícil, mas é provável que qualquer pronunciamento seja por pequena diferença de votos. Certamente haverá na corte quem se oponha à manifestação do juiz federal. Da mesma maneira, é previsível que não apenas haja endosso, como o apoio acabe superando a rejeição.

O risco Jatene

Se isso ocorrer, a eleição deste ano apresentará uma característica original e inusitada: o líder nas prévias para o governo do Estado chegará ao dia fatal da votação com uma espada de Dâmocles pendente sobre sua cabeça, e com duas derrotas seguidas nos costados (no julgamento monocrático e no primeiro pronunciamento coletivo, se o TER confirmar a sentença inicial).

Como reagirá o eleitor a essa condicionante? E, particularmente, como reagirá aquele que vota para vencer, o dono do voto útil? Correrá o risco de perder seu voto, na hipótese de a cassação de Simão Jatene ser confirmada em último grau pelo Tribunal Superior Eleitoral?

Depois de uma campanha eleitoral cinzenta, na qual os gatos podiam ser pardos ou pretos independentemente de haver luz em tetos de zinco quente, será um desfecho surpreendente. Se tudo der certo para a coligação situacionista (caso o contencioso judicial reforce os dividendos da vítima e ela ganhe no final), o médico Almir Gabriel deixará o governo e ingressará num período de abstinência convencido de ser um super-homem, de poder quase tudo, inclusive eleger postes. Ou inclusive voltar ao posto que quiser depois das férias compulsórias, quando diz que estará plantando flore. Talvez a prefeito de Belém, em 2004, ou a governador novamente, em 2006.

Como já não ouve ninguém, muito menos os críticos, Almir Gabriel não perguntará sobre o custo desse poder e o prejuízo que ele acarretará ao que ainda havia de restos de lisura e decência na condução dos negócios públicos no Pará.

Se é provável que, à margem da perlenga judicial, Simão Jatene vencerá o primeiro turno e será o mais forte pretendente à vitória no segundo turno, esse resultado só se tornou possível porque o governador Almir Gabriel arriscou tudo nessa aposta, inclusive a ser flagrado na ilicitude.

Com esta eleição, ele deixou para trás, vigente apenas em seu currículo, o patrimônio valioso do médico respeitado que foi e assumiu de vez a identidade do político de resultados em que se tornou, defensor de um maquiavelismo primário e rasteiro, no qual o único fim que o interessa (o poder) justifica todos os meios que estiverem ao seu alcance.

Os políticos do Pará

Se tudo der certo para a União pelo Pará, um neófito em política, um tecnocrata do processo, um burocrata dos meios, um autocrata dos bastidores, será o novo governador do Pará. Como sua substituta eventual, na vice-governadoria, estará Valéria Pires Franco, uma jejuna em todos esses itens, criatura do seu criador, o deputado federal Vic Pires Franco, premiado pelo senso de oportunidade no momento da negociação das mercadorias políticas, poupado, assim, de trilhar o caminho de saída da vida pública.

No Senado estará Duciomar Costa, um falso médico, alguém que um dia, quando era apenas comerciante, sem qualquer participação na atividade política, não se vexou de comprar um título forjado para dele tirar vantagens no seu negócio. Como há de se sentir, no trato com seus botões, o médico Almir Gabriel de eleger para o topo do legislativo federal alguém que violou conscientemente o sagrado compromisso de habilitação da sua profissão?

Como Almir Gabriel reagiria a essa circunstância se ainda fosse apenas médico? Votaria no candidato de Almir Gabriel, réu confesso no inquérito da Polícia Federal, condenado em primeira instância pela justiça federal e que continua réu primário porque a tramitação da ação de falsidade demorou tanto que acabou prescrita, extinguindo a punibilidade do criminoso? Como reagirão os senadores ao ingresso desse novo par, após o furacão Jader Barbalho?

Se vencer a eleição de outubro, Almir Gabriel legará aos beneficiários da máquina estadual que comandou uma vitória de Pirro. Foi incapaz de encontrar (ou mesmo criar) herdeiros das obras que efetivamente fez, da aprovação que a maioria da população lhe conferiu.

Um líder autocrata

Incapaz de lhes repassar um plano de ação e uma concepção de governo, com os quais poderiam iniciar uma nova etapa na vida pública do Estado, buscando padrões mais elevados de gestão e de ação política, ajudando a tirar o Pará do lodaçal político no qual patina há décadas.

Ao invés disso, foi a submissão aos seus ditames e a incorporação dos escolhidos a dedo a essa cornucópia promíscua que estabeleceu os critérios da vitória. Ao invés de entregar o poder ao que melhor se tivesse habilitado para a disputa, o governador procurou eleger uma espécie de guardador do lugar que espera continuar a ser seu, na vã ilusão dos aprendizes de feiticeiro. Ardilosos e sagazes, ainda assim não conseguem se prevenir para suas criaturas. Talvez porque a traição, nessas circunstâncias, seja como um vírus refratário a qualquer antídoto.

Mas se a candidatura de Simão Jatene for efetivamente cassada ou ele, contra todas as projeções, perder a batalha de um segundo turno ainda sujeito a imprevistos, o que se poderá esperar dos seus adversários? A julgar pela apatia do eleitorado e pela linearidade dos candidatos, nada de substancialmente diferente do que foi o “modo tucano” de governar o Pará. A rigor mesmo, as variações têm sido mínimas há várias administrações estaduais.

É a consequência do exercício do poder de forma plebiscitária. O grupo vencedor tudo faz para se perpetuar no domínio da chave do erário e da caneta que formaliza os atos do governo, e para destruir o grupo antecessor ou o que ameaça sucedê-lo. O princípio do chefe é o elemento de imposição da hierarquia e a máxima administrativa é de que aos amigos cabem os favores da lei e aos inimigos, os seus rigores.

Se havia alguma promessa em torno do senador Ademir Andrade, ela se desvaneceu quando ele, por puro pragmatismo, se associou ao ex-senador Jader Barbalho. A decisão foi tomada pelo candidato do PSB depois de um cálculo frio sobre o desgaste que sofreria com essa aliança branca junto à opinião pública e o que ganharia com a adesão da máquina do PMDB, mais eficiente no interior do Estado do que a do PT, a outra alternativa partidária à máquina mais eficiente, a do Estado.

O problema é que essa conta de chegada está sempre sujeita a mudanças imprevistas. Imprevistas tanto por conterem um componente insondável mesmo, como porque o que mais tem faltado para a formação de juízos prévios sobre a eleição deste ano é a informação, sejam a informação bruta como a informação confiável.

Nesse terreno do imponderável evolui a candidatura de Maria do Carmo. Ela tem se beneficiado do arrastão de Lula, mas não na medida do possível se houvesse mais disposição dentro do seu próprio partido, o PT. Um grau maior de unidade (ou sinceridade) já teria garantido à deputada santarena melhores dividendos junto àquela parte significativa do eleitorado que ainda está indecisa, à espera de um agrado melhor ou de uma palavra de sensibilização. Ainda mais porque se frustrou a candidatura que prometia trabalhar exatamente nessa faixa, a do vice-governador Hildegardo Nunes.

Com a ameaça pairando sobre o líder das pesquisas e as atribulações no esquema remendado que permitiu a vice-liderança de Ademir Andrade, nenhuma previsão pode ser considerada definitiva. O prêmio para tanta mediocridade é exatamente esse: o suspense. Não havendo melhor nem pior, quem vencer será um detalhe. Que muda sem mudar nada.

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (98)

  1. Alguém falou em cheque-moradia, aí?

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    Publicado por Luiz Mário | 5 de abril de 2017, 12:26
  2. Se é bem vindo estas historias da chapa quente? São mais que bem vindas, diante dos novos processos que aparecem, debatidos como repetição de antigos. O atual governador já em capa do jornal pessoal diante das trocas de acusações com os Barbalhos.
    Mas só pra complementar o tal Almirismo que o antigo governador tentou fazer. A primeira opção de Almir para o senado era Pioneiro, a quem ele havia confidenciado sua intenção. Mas Piorneiro sempre almejou mais, sempre sonhou o governo, mediu mal e escolheu jogou na balança e escolheu erroneamente a câmara estadual. Ficou onde ficou e Duciomar foi bem mais longe. Hoje ele perdeu muito mais com a perda de Almir, sendo visto com maus olhos nos ninhos tucanos.

    Curtir

    Publicado por Fabrício | 17 de maio de 2017, 23:01

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