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Cultura

Tropelias de um cafajeste

A principal notícia da edição de ontem do Jornal Nacional, o mais importante noticioso da televisão brasileira, não foi sobre a matança por gás na Síria, que atingiu muitas crianças, nem o atentado terrorista no metrô de São Petersburgo, com 14 vítimas fatais, ou as ameaças à democracia na América Latina, incluindo a capenga e perigosa reforma política no Brasil. Foi o assédio sexual do ator José Mayer, que molestou a figurinista da TV Globo, Susllem Tononi.

Depois da atitude corajosa da vítima, ao fim de oito meses de resistência silenciosa às investidas cada vez mais grosseiras do astro de novelas, o desdobramento da história se tornou tipicamente dramatúrgico.

O agressor negou inicialmente o crime que lhe foi atribuído. Depois, tentou desqualificá-lo como sendo uma brincadeira. Ao ser provado que passar a mão na genitália de uma mulher nada tem a ver com brincadeira, e que esse ato se revelou sistemático na carreira do ator, ele se entregou à direção de cena.

Mayer assinou um texto, que provavelmente não escreveu, talvez produzido por um jornalista, sob a supervisão de um advogado, admitindo, finalmente, que errou e se desculpando publicamente. No desdobramento de uma punição em regra que a Globo lhe aplicou, suspendendo-o por tempo indeterminado de toda a sua programação.

A emissora se solidarizou com a figurinista, de 28 anos, e aplaudiu a solidariedade que algumas das suas colegas lhe prestaram, por ser coerente com as regras de procedimento contidas no código de ética da empresa. Melhor final, nem Jatene Clair ou Dias Gomes podiam criar.

A situação é inédita e merece o registro por seu valor intrínseco. Quantas mulheres não se sujeitaram a um dos momentos do processo de admissão, de todas conhecido nos bastidores e por muitas delas aceitado em silêncio:  o teste no sofá do diretor ou qualquer outro detentor de poder decisório na glamourosa Vênus Platinada?

Susllem seguiu as demais por oito meses, tempo demasiado, conforme ela declarou, mas não definitivo. Quando decidiu ir à luta por seu direito e dignidade, mostrou todas as suas armas: ser bonita, alta, independente e disposta a fazer o astro endeusado ser punido por sua canalhice, de alguma forma produto de deficiência de caráter. Conseguiu. Mudou esse tipo de comportamento na Globo – e talvez fora dela. Ponto positivo e feito histórico para as mulheres.

Mayer, que tem mulher e filha com idade equivalente ao da jovem que tomou por caça, atribuiu o seu erro ao machismo, de que foi impregnado desde a infância, como todos os da sua geração. Ele tem 67 anos, também a minha idade.

Mesmo nos meus tempos de menino, marcado profundamente pelo mesmo machismo, quem agia como ele agiu recebia uma qualificação própria e adequada: era um cafajeste. Pecado muito maior do que o machismo, contra o qual, em tempo oportuno, nos voltamos, e continuamos a nos insurgir, como um ato de consciência e respeito às nossas mulheres, não como script de ocasião. Um grand finale bem de acordo com o padrão Globo de qualidade.

Discussão

7 comentários sobre “Tropelias de um cafajeste

  1. ÚTERO PAGÃO, AVANTE!

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    Publicado por Luiz Mário | 5 de abril de 2017, 12:24
  2. Pois é, ao invés de assumir a culpa, o dito cujo coloca a culpa na geração dele. Só faltou dizer que a culpa foi toda da mãe dele, que o criou com a mentalidade de cafajeste.

    Curtido por 1 pessoa

    Publicado por José Silva | 6 de abril de 2017, 07:20
  3. Bons costumes…

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    Publicado por Luiz Mário | 6 de abril de 2017, 09:51
  4. Já é o terceiro caso envolvendo pessoas da Globo envolvido em casos de violência contra a mulher, acabando sempre com os envolvidos afastados da instituição. O primeiro deles foi o cantor Vitor da dupla sertaneja Vitor e Léo afastado do Programa de Voice Kids, o outro foi o caso de Mayer e termina com o de Marcos, um personagem do programa Big Brother Brasil.
    Mayer deve ter confundido sua condição pessoa com as de seu personagem sempre travestido de cafajeste, amante e sedutor. Principalmente por se achar na condição de astro global. Esta situação já vinha a muito tempo e teria recebido o apoio da atriz Camila Pitanga que tempos antes fazendo par romântico com Mayer teria reclamado dos excessos do mesmo, com mão bobas, beijos técnicos prolongados, uma falta de profissionalismo longa e conhecida comum para iniciadores aproveitadores. A esposa de Mayer declara tranquila e justifica o apoio o tempo de casamento dos mesmos. O fato remete a pergunta, será que Mayer pediria perdão se não fosse um caso tão repercutido envolvendo um ator global ainda em atuação na tv?
    O caso de Vitor ele foi acusado de agredir sua mulher gravida durante uma discussão entre o casal. As acusações se disseminaram rápido e afetaram a gravação ao vivo do programa em que ele nem aparecia com as câmeras o evitando e evitando qualquer comentário, como sempre fazia, não muito depois ele pediu para sair do programa. O caso dele foi a delegacia, ele alegando nada ter feito e apenas se defender de alguém fora de controle, depois de um exame não constataram agressão. Agora a acusação vai para violência psicológica. O caso ainda se desenrola.
    O ultimo foi uma briga entre casal no programa Big Brother Brasil em que depois de encurralar a companheira apontar o dedo em riste no rosto e dizer que estão juntos por que assim ele deseja enquanto aperta firme seu pulso. Muitas manifestações foram feitas enquanto o programa se fazia de ouvidos moucos. Conversas de um lado e de outro entre o participantes sobre as atitudes deles. O caso foi além quando a policia decidiu intervir e fazendo exames foi constatado agressão. Mudanças recentes na legislação Maria da Penha instituem que não é necessário a acusação da vitima para declarar agressão. O assunto se estendeu pela negação da moça em efetuar qualquer acusação, advindo dai a discussão da naturalidade das relações abusivas.
    O Big Brother onde libera o uso de álcool e leva ao limite de algumas pessoas as isolando e mostrando as relações entre essas pessoas isoladas dentro de uma casa já passou por diversas situações complicadas. Quando apenas discutiam, jogavam as roupas dos outros na piscina, apontavam os dedos, faziam ameaças e ficavam de mal tudo bem. O primeiro caso complicado de verdade foi em 2012 no BBB12 quando um dos participantes foi acusado de estupro por abusar de uma moça desacordada, tendo o primeiro caso grave efetuou sua primeira expulsão. Ano passado em um suposto caso de agressão mais uma vez expulsou uma participante, desta vez uma mulher que teria dado um tapa em outro rapaz. O deste ano já seria o terceiro caso de expulsão.
    Recentemente durante uma a apresentação do festival Loolapalloza, uma apresentadora, Titi Müller foi sensação na internet ao fazer duras criticas antes de anuncias um musico ao declarar que este escrevia músicas com letras machistas.
    Em novembro do ano passado no interior de São Paulo o filho de um vereador, Kevin Soares, foi flagrado agredindo uma mulher em um bar em cenas fortes. Com diversas acusações de maus tratos ele só foi a cadeia depois que o caso foi a tv.
    Este ano tivemos o desfecho de um caso que aconteceu aqui em Belém ano passado. Uma moça em uma bar na Braz de Aguiar teria sido assediada. Diante da negativa as investida esta seria agredida. O caso terminou com o condenação de pagamento de cestas básicas ao agressor.
    A questão é longa e leva a varias perguntas. Quantas mulheres não dizem estar comprometidas para evitar investidas? Será que o homem só vai respeitar se tiver a ameaça da presença de outro homem. E quando dão em cima de uma mulher o companheiro presencia. Geralmente as desculpas vão para o homem. E as mulheres? Os homens realmente respeitam as mulheres? mulheres solteiras e sozinhas?
    No dia da mulher milhares de mensagens contra e a favor aparecem aos milhares nas midias sociais, mas pouco se muda de verdade. O slogam “Mexeu com uma mexeu com todas” foi disseminado, muito entoado e utilizados em diversas ocasiões, mas o que realmente muda? Foi mais uma moda?
    Reproduzo dois textos, um citando alguns casos de agressão que fugiram aos exemplos anteriores, principalmente o que remete ao tal Bolsonaro, e que só ele vale inúmeros exemplos, e outro mostrando uma bela cronica de mais um professor paraense, mostrando que o machismo pode estar em todos os lados.

    “3 de março de 2016
    Ana Paula é expulsa do BBB após agredir o participante Renan.
    Segundos após Adélia jogar um copo de bebida na cabeça de Ana Paula, ela, alcoolizada, deu um tapa no rosto de Renan. Um tapa, claramente, sem nenhum intuito de machucar. Mas as regras do programa são claras: Não pode agredir. Renan foi ao confessionário, disse que se sentiu agredido e, menos de 12 horas depois, Ana Paula estava fora da casa.
    9 de abril de 2017
    Emilly é chamada no confessionário e, ao que tudo indica, está nas mãos dela a expulsão ou não de Marcos, com quem ela namora dentro da casa. Um namoro que já se mostrou absolutamente abusivo e problemático. Marcos já gritou, já levantou o dedo, já beliscou, já deixou o braço de Emilly roxo.
    Violência não é só quando uma pessoa é fisicamente agredida (como a Emilly foi), mas também quando ela é intimidada (como a Emilly foi) e manipulada a acreditar que seu agressor a quer bem (como Emilly foi).
    Marcos está no paredão contra Marinalva. Segundo UOL, tudo indica que ele vencerá a paratleta e permanecerá na casa.
    4 de abril de 2017
    Após a campanha #MexeuComUmaMexeuComTodas, a Rede Globo diz que não tolera nenhum tipo de agressão e assédio, e suspende José Mayer por tempo indeterminado. O ator é acusado de assediar uma figurinista da novela e, no mesmo dia, escreveu uma carta dizendo-se arrependido do fato e disposto a mudar.
    5 de abril de 2017
    Caio Blat sai em defesa de José Mayer, mesmo depois que o ator se declarou culpado.
    23 de agosto de 2009
    Dado Dolabella ganha 2 milhões de reais na final da primeira edição do reality “A Fazenda” graças ao voto do público, meses depois de ter agredido a atriz Luana Piovani.
    9 de novembro de 2016
    Donald Trump é eleito presidente dos Estados Unidos da América, mesmo depois de ser acusado por diversas mulheres de assédio e de ter feito declarações absolutamente machistas e de incitação ao estupro.
    21 de junho de 2016
    Jair Bolsonaro vira réu por incitação ao estupro, depois de ter dito, mais de uma vez, que não estupraria a também deputada Maria do Rosário “porque ela não merece”, como se alguma mulher merecesse ser estuprada. O deputado foi defendido e continua sendo defendido por seus seguidores, e diz que vai concorrer à presidência de república.
    19 de fevereiro de 2016
    A cantora Kesha chora no tribunal ao não vencer a ação que movia para se livrar do contrato que a prende ao produtor Dr Luke, a quem ela acusa de estupro.
    9 de dezembro de 2016
    Biel lança single e retoma sua carreira. Ele voltou mesmo após o escândalo do assédio a uma repórter durante uma entrevista. A repórter perdeu o emprego.
    Todos os dias de todos os meses de todos os anos
    Mulheres são estupradas, agredidas, intimidadas e mortas. Uma campanha é feita aqui e ali. Um caso gera comoção aqui e ali. Dizem que é absurdo e que não pode se repetir. Um homem aqui e ali é punido. Dizem que o mundo está mudando, mas ele continua praticamente igual. E dizem que feminismo é mimimi.
    ~R Wilbert”

    “Entrei em uma loja e, ao ser atendido por uma senhora idosa, imediatamente fui indagado sobre a causa do meu acidente.
    Informei a minha interlocutora que a lesão decorreu de uma queda na cozinha.
    Vi seus olhos arregalarem e a demonstração inequívoca de um horror inominável tomou conta da até então cândida senhora, que vociferou: “lugar de homem não é na cozinha”…
    Não encontrei o que desejava e despedi-me, momento em que recebi um olhar final repleto de pena, não pela lesão, mas buscando em sua vasta experiência o que um homem poderia fazer de útil na cozinha…
    Talvez tenha me visto como violador do sagrado e feminino espaço…
    Voltei pra casa vítima do preconceito, chorando por dentro e dizendo a mim mesmo como um mantra: “lugar do homem é onde ele quiser estar”…
    E vou para a cozinha, passar a última dose de um café colombiano que um amigo me deu e desfrutar com as duas mulheres da minha vida…
    Só não vou contar pra Senhora da Loja que voltei a frequentar o santuário feminino.
    José Maria Eiró Alves”

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    Publicado por Fabrício | 13 de abril de 2017, 01:19
  5. PS.: Me estendi um pouco no comentário. Li em alguns revistas de fofoca que abordaram o caso. Pareceu um pouco reportagem da Caras, mas espero que tenha sido útil o debate sobre o tema.
    Na internet apareceu muito campanha com “Fora Marcos”, se referindo ao brother recém expulso do programa. Muitos que nem assistiam se manifestavam (eu não assisto, mas acompanhei o caso), principalmente alguns famosos, palestrando sobre machismo, violência, relacionamentos abusivos, antigos casos do programa e demais situações. Acho que deviam fazer campanha para botar pra fora outros personagens de casas mais importantes, principalmente quando aparece muita coisa evidente e esculachada na politica do dia a dia.
    Apesar disso alguns militantes aparecem com umas perolas. Principalmente quando algumas pessoas chamam de machistas quando alguém desfere criticas a “presidenta”. Sei por que em um debate na ufpa já abordaste esse assunto, e eu também já fui chamado de machista por criticar a gerentona. Transcrevo mais outro citação, este de um grande professor da ufpa também, mas desta vez não farei identificação, ainda que ele fale abertamente, assim prefiro. essa é pra rir.
    “A amiga xxxxxx falou e disse:
    Ah, me poupe esse papo do Zé Mayer e da Globo, o nome disso é operação abafa. #prontofalei.
    Tenho a acrescentar:
    Concordo, uma grande encenação, tirando proveito da situação adversa. Mais uma coisa, as atrizes globais que se solidarizaram, o que é correto com a agredida, não tiveram o mesma SORORIDADE quando ‘mexeram’ e derrubaram a presidenta.”

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    Publicado por Fabrício | 13 de abril de 2017, 01:58

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