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Economia

O dragão está de volta?

O café mais caro de Belém já tem endereço certo: nas três lojas da Delicidade (Presidente Vargas, Braz de Aguiar e Gentil). O café com leite, que dormiu ontem a 4,50 reais, amanheceu a R$ 8, aumento de 80%. O expresso puro, na menor das xícaras usadas para servi-lo, passou para R$ 6, vinte centavos a mais do que o café do Ao Ponto, no Shopping Boulevard (que tirou o pedacinho de chocolate do acompanhamento, mas manteve a água mineral com gás).

Nenhum elemento da realidade justifica esse reajuste. O autor do disparate parece querer se antecipar ao que pode vir de ruim por aí, aumentando absurdamente por conta do pior que pode vir. Essa expectativa francamente inflacionária, detonada por fatores subjetivos, resulta tanto da descrença no comando político e técnico do país quanto da mais oportunista mentalidade varejista, de curtíssimo prazo. É a ameaça de retorno da cultura inflacionária que o Plano Real ceifou, dando ao país estabilidade monetária.

O dono da mercadoria pode dar-lhe o preço que bem entender, aumentando desbragadamente sua margem de lucro ou procurando diminuir as perdas em curso. Não é, contudo, uma atitude empresarial coerente com o nosso tempo.

Certamente a empresa vai perder clientes, como eu e meus dois eventuais acompanhantes matutinos. Seu raciocínio deve ser que compensará essas perdas com uma rentabilidade maior em cima dos clientes que permanecerem.

O risco poderia ser menor com um reajuste de preços definido por parâmetros mais saudáveis, com a visão do equilíbrio entre a prestação do serviço, o atendimento do cliente e a remuneração do capital.

Na minha época de menino, sempre que um exagero como esse era praticado, os jornais reagiam e o povo seguia no coro de uma definição: crime contra a economia popular. Um órgão de varejo do governo no controle cotidiano dos preços ia em cima do autor, puxava sua tabela de valores e o autuava. Hoje, a voz dominante que se ouve é a do “mercado”.

A atitude de defesa do consumidor é a de reagir mudando seu hábito de consumo. E a do cidadão, alerta para as ameaças de recrudescimento de uma inflação manipulada, é a de denunciar quem viola as regras democráticas de convivência entre o capital e o trabalho, o produtor e o consumidor, e viola a forma mais civilizada de mercado.

É o que faço através desta nota. Delicidade: adeus.

Discussão

18 comentários sobre “O dragão está de volta?

  1. Gente fina é outra coisa…

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    Publicado por Luiz Mário | 6 de abril de 2017, 10:10
  2. Na verdade, Prof. Lúcio, esse dragão nunca foi embora. Veja os preços dos carros montados no país, que nem os impostos cobrados os justificam, dada a disparidade com os outros países, idem de acessórios. A ganância das montadoras + o desbunde do brasileiro pelo carro novo dão no preço completamente desproporcional ao seu valor. Se o dono do estabelecimento que o Sr. citou tem justificativa lícita para cobrar o reajuste, paciência, é seu direito, mas o meu também é de proteger o meu bolso, essa é a regra. Melhor ver se o boteco da esquina tem um café parecido…

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    Publicado por ARLINDO OCTÁVIO DE CARVALHO NETO | 6 de abril de 2017, 11:03
  3. Credo, Lúcio, me desculpe, mas você pareceu um daqueles cidadãos vestidos de “macacão azul” da Oceânia de George Orwell. É como se eu estivesse lendo “1984”, um estado comunista com preços controlados pelo “grande irmão” e seus agentes fiscalizadores atendendo ao chamado dos delatores. Crime contra a economia popular deveria ser o governo se meter no preço do café. Já imaginou? O preço do Jornal Pessoal está caro demais, chamem os fiscais do governo para autuar Lúcio Flávio Pinto…! “Temos direito à informação mais barata”.
    O café da boutique está caro? Defenda-se não comprando mais por lá. Tome seu cafezinho em outro lugar mais barato. Prestigie o outro comerciante que vende o mesmo café mais barato. Se todos fizerem assim, em algum tempo a boutique da Brás fica sem vender café, perde mercado, e então terá de adequar seu preço e melhorar o serviço para trazer de volta os clientes que perdeu; ou fecha as portas. Com concorrência, o mercado se incumbe de punir. Ademais, o que gera inflação é a intromissão do governo na vida privada, o monopólio (e oligopólios setoriais) e a falta de de um mercado concorrencial. O melhor para o consumidor é o livre mercado, sem interferências. Mais Adam Smith (ou até David Ricardo), e menos Marx, please…
    Abraço

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    Publicado por Paul Nan Bond | 6 de abril de 2017, 12:17
    • Eu não defendi a volta do controle administrativo de preços pelo governo, que houve no passado. Apenas lembrei que houve. Também não me sujeitei ao canto de sereia do “mercado”, que serve de boneco de ventríloquo quando não exercemos a nossa função crítica. Logo, não posso ser personagem de 1984. Fiz o que deve fazer um cidadão do seu tempo:disse à balconista que ia procurar outro lugar para o meu café – aliás, frequento inúmeras padarias da cidade atrás do melhor produto e do mais justo preço, sem em confinar a uma, mesmo que tenha o melhor produto ou o melhor preço. No meu texto não há o menor laivo intervencionista. Sua observação é, portanto, incorreta. Não só pelo que não disse: por não fazer justiça ao que fiz.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 6 de abril de 2017, 12:49
      • Então me desculpe. É que quando você disse dos tempos de menino…, entendi no contexto uma eficácia como sugestão de que deveria ser, embora em seguida tenha dito que a melhor defesa é aquela de consumidor.

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        Publicado por Paul Nan Bond | 6 de abril de 2017, 16:34
  4. O valor do “cafézinho” também é assustador nos estabelecimentos dos aeroportos. Quem sabe, o suave e aromático “chá de capim cidreira”, retorne a memória dos brasileiros, bem como, as demais variedades de chás conforme as regionalizações culturais do Brasil.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 6 de abril de 2017, 12:19
    • Taí outro bom exemplo: o café está caro? Beba chá.

      O aeroporto também é um bom exemplo do monopólio que o governo promove (ninguém pode se instalar num raio ao redor – vide estacionamento), e os preços vão lá para cima, porque não há concorrência e a Infraero protege o mercado para aqueles comerciantes.

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      Publicado por Paul Nan Bond | 6 de abril de 2017, 12:41
      • Já tomei muito chá. Mas abandonei o hábito.O café, não.
        O monopólio ou mesmo o oligopólio: erva daninha tão ou mais feroz do que o controle administrativo do mercado pelo governo.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 6 de abril de 2017, 12:55
  5. Que bom que a Amazônia pode se servir da ciência (linguagem refinada da Natureza) e, se desejar, fazer um excelente Raio-X de si mesma.

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    Publicado por Luiz Mário | 6 de abril de 2017, 18:20
  6. Meu caro Paul

    Uma dúvida: no atual contexto, Smith não seria pela força das armas enquanto Marx, pela ciência?

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    Publicado por Luiz Mário | 6 de abril de 2017, 18:25
  7. Ou seria o contrário?

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    Publicado por Luiz Mário | 6 de abril de 2017, 18:35
    • Não vejo essa dialética no contexto entre quem defende ou não a liberação do porte de arma, se foi a isso que você quis se referir (direita x esquerda). Não dá para dizer: se A, então B. São muitas as variáveis. Teríamos de perguntar ao Lúcio ou ao Olavo de Carvalho. Se eu for responder “o que eu penso”, não haverá espaço aqui.

      Aliás, Lúcio, por diversas vezes tentei postar comentários um pouco mais longos e o blog me recusou. Faz que vai publicar, fecha a janela com o texto mas não publica, e eu estava escrevendo direto aqui. Logo, perdia o texto.

      Poderia constar em algum canto o número de caracteres restantes.

      De qualquer forma, creio que somos todos gratos pelo espaço. Aprendemos mais debatendo os fatos que são notícia por aqui do que lendo aquelas duas tranqueiras. Lendo apenas uma notícia no JP podemos ficar muito mais informados que lendo aquelas duas tranqueiras inteiras.

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      Publicado por Paul Nan Bond | 6 de abril de 2017, 19:28
      • Eis um enorme elogio, embora exagerado, que eu queria ouvir um dia. Obrigado, meu caro, por suas palavras mais do que generosas. Animadoras e reconfortadoras. Obrigado mesmo.
        Sou um analfabeto em computador. Não sei a razão da recusa nem como evitá-la Por isso, quando escrever texto mais longo, mande-o por e-mail (lfpjor@uol.com.br).

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 6 de abril de 2017, 19:52
  8. Lucio,

    O dragão nunca desapareceu. Uma vez um amigo meu passou dois anos no exterior. Quando voltou constatou que o preço das coisas tinham aumentado mais de 100%, enquanto a inflação acumulada estava em 10%. Ele tinha razão. Se vocês prestarem bem atenção, os preços no Brasil são dolarizados enquanto o salário do povo não subiu na mesma proporção.

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    Publicado por José Silva | 6 de abril de 2017, 20:49
  9. Caro Paul,

    Smith parece anacrônico, sobretudo por não haver em seu trabalho a percepção da “biodiversidade” – esta que nos daria uma larga vantagem aos demais países que ainda se pautam por ele – o que enseja um conservadorismo que pode manter o status quo que tanto nos faz “recolonizados”.

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    Publicado por Luiz Mário | 7 de abril de 2017, 09:28
  10. Excelente observação, caro José, afinal, não há como uma moeda podre desaparecer e surgir em seu lugar outra mais forte que o dólar, como foi o caso do Real.

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    Publicado por Luiz Mário | 7 de abril de 2017, 09:31
    • Caro Luiz,

      Os dois anos que eu me referi foram no inicio do governo Dilma. Os preços subiram muito, mas ninguém notou porque tudo estava acessível devido a facilidade de crédito e a bonança de emprego e dinheiro. Quando a crise veio, as pessoas começaram a ver que o paraíso prometido nao existia.

      De qualquer forma, o Brasil continua sendo um dos países mais caros do mundo e a sua moeda está ainda supervalorizada.

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      Publicado por José Silva | 10 de abril de 2017, 00:45
  11. Aliás, caro Paul, “tempo de menino” que observas em Lúcio, cabe a Smith, ou não?

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    Publicado por Luiz Mário | 7 de abril de 2017, 09:57

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