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Imprensa, Política

A história na chapa quente (99)

Renovar ou não renovar?

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 292, de outubro de 2002)

Nos últimos anos a Funtelpa (Fundação de Telecomunicações do Pará) pagou à TV Liberal 18 milhões de reais, em valor atualizado. Ao contrário do que pode parecer, a emissora da família Maiorana não prestou serviço algum à mantenedora das emissoras Cultura de rádio e televisão.

Muito ao contrário: a TV Liberal, que é uma emissora comercial, afiliada à Rede Globo de Televisão, líder disparada do mercado, se serviu de 78 retransmissoras do Sistema Funtelpa para levar seu sinal de satélite ao interior do Estado. Isto mesmo: a TV Liberal embolsou 18 milhões de reais do erário em 60 meses para se servir de instalações públicas.

Para colocar um pouco de – digamos assim – purpurina nessa relação incestuosa, a administração estadual dispôs de certo tempo na programação da emissora para veicular sua propaganda institucional, quase sempre associando a realização de obras públicas à autoridade momentaneamente no comando da máquina estadual, ou vice-versa, conforme as necessidades de ênfase da conjuntura.

Esse toque de perfume barato, porém, foi desequilibrado pela forma encontrada para dar aparência de legalidade a essa relação espúria: ao invés de assinarem um contrato comercial, como manda o tipo de troca entre as partes, TV Liberal e Funtelpa celebraram um convênio. Isso mesmo: um convênio.

Esses e outros absurdos acabaram levando a questionamentos sobre a correção do ato no Tribunal de Contas do Estado e à propositura de uma ação popular na justiça. O curso das duas iniciativas foi sobrestado ou permanece em suspenso, principalmente depois que o deputado federal Vic Pires Franco, em mais um dos seus zig-zags políticos, voltou atrás e desistiu de patrocinar a ação popular. Um substituto assumiu seu lugar, mas a tramitação da ação não readquiriu o ritmo original. Ainda assim, ela continua ativa, sujeita a acionamento.

O esdrúxulo convênio Funtelpa-TV Liberal se encerrou no último dia 30. Há incertezas sobre o seu futuro, mas nula é a possibilidade de que ele venha a ser renovado. O governador Almir Gabriel o assinou para vigorar por cinco anos, quando faltava apenas um para o encerramento do seu primeiro mandato. Se não tivesse conseguido se reeleger, seria um dos mais pesados abacaxis que transmitiria ao sucessor. Vencendo, porém, antes que ele complete seu tempo como governador, sobram-lhe problemas.

A direção da TV Liberal solicitou que o convênio seja aditado por mais três meses, até dezembro. Teria direito a continuar recebendo os pouco mais de 300 mil reais por mês (ou R$ 900 mil no trimestre). Se fizer isso, o governo, mesmo tendo como escudo de proteção a Funtelpa, responsável legal pela coisa, sofrerá o desgaste, em pleno final da campanha do primeiro turno da eleição deste ano (e o risco de prolongamento do mal até o final do mês).

Se não prorrogar a relação, está ameaçado de sofrer outro tipo de desgaste: metade dos municípios paraenses ficará de súbito sem o hipnotizador sinal da programação da Globo. A TV Liberal apontará com prazer o culpado pelo dano: o governo do Estado.

Diante do impasse, qual dos cálices amargos o governador Almir Gabriel decidirá tomar? Ou, fiel ao seu modo anatômico de vencer crises, irá empurrar com a barriga o trambolho até poder passá-lo a quem o suceder?

O próximo capítulo bem que merecia entrar na programação global. Novela capaz de competir com os dramalhões mexicanos rivais, com seu PRI e sua plumagem.

Discussão

3 comentários sobre “A história na chapa quente (99)

  1. Engenharia da corrupção que se consolidou na Arena Romana.

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    Publicado por Luiz Mário | 7 de abril de 2017, 23:19
  2. Está parceria caracu foi um dos maiores escândalos da política paraense nas últimas décadas. Não tanto pelo valor, pois há escândalos muito maiores, mas pela lógica predatória do acordo.

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    Publicado por José Silva | 10 de abril de 2017, 00:32
  3. Cultura da corrupção.

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    Publicado por Luiz Mário | 10 de abril de 2017, 04:58

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