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Política

A história na chapa quente (100)

Maria governadora

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 293, de outubro de 2002)

A matéria de capa da edição 279 deste jornal, da 1ª quinzena de março, levantava já na manchete a questão: “há lugar para uma zebra” na eleição para governador do Pará neste ano? A dúvida era suscitada no primeiro parágrafo: “Haverá lugar na próxima eleição para uma candidatura alternativa ao governo do Pará”, ou “a disputa para valer será travada entre as velhas raposas da política estadual, diretamente ou através de prepostos?”

Logo em seguida a matéria previa que o governador Almir Gabriel iria dar ao seu candidato “o calor da máquina oficial, mesmo que o judiciário e o Ministério Público venham, finalmente, a se manter mais atentos aos abusos do governo”. O adversário principal da coligação situacionista seria o ex-senador Jader Barbalho, ele próprio disputando pela quarta vez o governo ou em aliança.

Tudo como dantes e quase sempre? “Aparentemente, sim. O fatalismo dualista, porém, pode ocultar surpresas”, dizia o texto, sete meses atrás. Uma das possíveis surpresas podia vir do PT, mas estava então em plena ação a autofagia petista, na qual um grupo engole o outro, anulando suas principais lideranças. Nenhuma delas estava disposta a se expor.

Restava ao partido “continuar à procura de um nome qualquer para substituir aqueles poucos políticos petistas que têm um perfil de candidato, mas não querem ser candidatos”, ou então “adotar uma definição clara e a tempo de dar ao seu candidato, em aliança com outros partidos, uma expressão estadual que, por enquanto, não possui”.

Abro exceção para essa auto-citação (que raramente faço) porque ela demarca com clareza o território das expectativas às vésperas de começar a campanha eleitoral. Sabia-se que havia um anseio de mudança no Pará.

Não havia, entretanto, alguém que personificasse essa busca pela transformação das condições reais de vida da maioria da população do Estado, não beneficiada nem mesmo quando um governo, como o de Almir Gabriel, é reconhecido como operoso. Operoso na manutenção de um esquema colonial de desenvolvimento, gerando efeitos multiplicadores mais fora do Estado do que em seu interior.

Realizador, sim, mas incapaz de transformar as realizações em proveito do habitante comum, aquele que contempla as obras (e, sobretudo, a maior das obras, o empreendimento exportador) como uma realidade que está muito além de suas possibilidades – e, inclusive, do seu direito de ter e possuir essas coisas maravilhosas. Grandezas econômicas sem tradução social, espelho de uma esquizofrenia tucana.

As lideranças emergentes do PT, exauridas na disputa interna, preferiram adotar estratégias pessoais, seguindo pela rota aparentemente segura ao invés de tatear pelo risco. Embora de público dissessem que não, na intimidade reconheciam o poder da máquina oficial, até mesmo porque já manejavam uma dessas engrenagens de poder, a prefeitura de Belém.

Nesse vácuo surgiu o nome de Maria do Carmo, no curso de um processo de exclusão das alternativas mais óbvias (Edmilson Rodrigues, Ana Júlia Carepa, Paulo Rocha e Valdir Ganzer).

Com Maria do Carmo, discreta deputada de um único mandato até então na Assembleia Legislativa, duas vezes derrotada na disputa pela prefeitura de Santarém, tudo se acomodava no PT. As principais tendências podiam adiar o confronto iminente e se dedicar aos seus respectivos projetos políticos. Não havia incompatibilidade para dar apoio à deputada santarena.

Falsa terceira via

Ela própria, mesmo se fosse derrotada, tinha a perder a possibilidade – não propriamente certa – de se reeleger. Em compensação, reforçaria o seu nome para uma nova incursão ao comando do terceiro mais populoso município paraense, desta vez na condição de favorita.

Não foi por capacidade gravitacional própria que Maria do Carmo foi atraindo cada vez mais votos: foi pelo critério da negação. Quem não queria embarcar nas canoas de sempre encontrava, livre e desimpedida, a catraia da política mocoronga.

Nada havia nela de explicitamente rejeitável, até mesmo porque, digladiando-se sem maior destreza, ferindo tanto quanto se ferindo, os três principais candidatos (Ademir Andrade, Simão Jatene e Hildegardo Nunes) se esqueceram de Maria. Pouparam-na do desgaste que os fazia patinar na preferência do eleitorado.

Repetiu-se, na corrida pelo governo do Estado, neste ano, o que aconteceu na sucessão de Hélio Gueiros na prefeitura de Belém em 1996: os líderes da corrida eleitoral se enfraqueceram na rixa desenfreada, desgastando-se mutuamente. Quem vinha atrás, entretido em fazer figuração, foi subindo sem ser incomodado. Edmilson Rodrigues foi eleito não propriamente pelo cidadão comum que, desde o lançamento do seu nome apostava nele, mas pela guerra de desgaste travada entre Elcione Barbalho e Ramiro Bentes.

O atual prefeito, uma vez sagrado vitorioso, esqueceu os rastros dessa trajetória. Passou a se declarar dono da coifa de votos com a qual chegou ao redil da PMB. Como de regra nos chefes da propaganda, acreditou na invenção e nela ainda persiste, apesar dos claros sinais dados pelo povo para que repense sobre o tamanho da sua verdadeira grandeza (neste caso, cabe-lhe como luva a auto-intitulação de “prefeito criança”).

Edmilson só se reelegeu porque a máquina municipal foi usada a seu favor. Não confirmou eleitoralmente, no entanto, seu esquema de poder, que necessitava contar com seu escudeiro, Luiz Araújo, na Câmara Federal.

O valor do não

A maior parcela dos votos obtidos por Maria do Carmo no 1º turno não é dela. Não são votos cativos ou conquistados por seu desempenho, em nenhum ponto destacável sobre o pano de fundo das demais candidaturas, muito pelo contrário. São votos que a tomaram como instrumento de expressão do protesto, da desilusão e da esperança.

Não pesa sobre a biografia da deputada nenhuma mancha de corrupção, de má-fé no uso da administração pública, de aproveitamento lesivo de recursos do Estado. Também não há nela pontos positivos de ênfase, nenhuma marca de singularidade, aptidão ou competência. Não encontrar mácula no candidato parece ter sido bastante para centenas de milhares de eleitores constrangidos a ter invariavelmente que optar pelo menos ruim.

Beneficiada pelo arrastão emocional de Lula, o mais bem sucedido produto da história do marketing no Brasil, Maria do Céu cresceu à sombra do candidato petista à presidência da república, na inversão das ponderações eleitorais mais comuns.

Não adianta a maciça propaganda do governo projetar um Pará rico, limpo, bem servido de infraestrutura, moderno, em conexão com o mundo. Se esses fotogramas ultrapassam os limites dos filmes de publicidade e dos cartazes, eles se limitam às ilhas de excelência montadas no Pará com o propósito de drenar suas riquezas para o exterior. O que aqui fica ou permanece é tão pouco que o resultado desse processo é o agravamento dos principais indicadores sociais.

Um Pará pobre, inculto, doente e em vias de explosão quer mudar essa situação. Não sabe como, só sabe que a situação atual não dá para continuar. O cidadão comum provavelmente não consegue explicar porque uma administração que aprova não lhe dá os benefícios das obras realizadas, mas como estão lhe prometendo resolver essa contradição, subiu na onda. Não sabe o que virá depois do ato de protesto, mas quer protestar.

Esse impulso fez a candidatura de Maria do Carmo pular no 2º turno para a condição de ligeiro favoritismo, invertendo as ponderações, sem, no entanto, bastar para definir um jogo no qual a força do dinheiro é proporcional ao tamanho das carências que dele dependem. A definição será dada na linha de chegada. Isso significa que o boca-de-urna poderá ter peso muito maior do que no 1º turno.

Se tiver a humildade que seu companheiro Edmilson Rodrigues não teve, reconhecendo o contexto que a fez passar para o 2º turno e chegar na frente do candidato situacionista para o confronto final, como autêntica zebra, Maria do Carmo talvez dê ao seu papel um significado de pioneirismo e originalidade ainda maior do que o de poder vir a ser a primeira mulher a governar o Pará, e a primeira governadora paraense nascida em Santarém, deslocado do segundo para o terceiro lugar entre os principais municípios do Estado.

A humildade benfazeja consistirá em cercar-se de gente competente, honesta, qualificada e bem intencionada, independentemente de arranjos partidários e políticos, e estabelecer o nexo de mando na base do bem coletivo, não na vontade dos grupos ou na diretriz dos interesses corporativos.

Aproveitando o sopro da circunstância para executar um programa de mudança no Pará e não apenas pegar o impulso para criar mais um grupo político atrelado ao poder, tudo fazendo para se manter nele.

Bem que essa podia ser a maneira nova de ser Maria.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (100)

  1. Pois é. Maria esqueceu o valor da passagem de onibus e acabou não se elegendo, mas abriu a porta para a Ana Júlia se eleger com o apoio do Barbalho quatro anos depois.

    Maria deixou de ser política, mas foi eleita prefeita de Santarém no embalo da sua campanha para governadora. Lucio, qual a sua análise dela como gestora publica? Fez algo diferente?

    Curtir

    Publicado por José Silva | 11 de abril de 2017, 07:13

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