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Política, Sem categoria

A história na chapa quente (101)

Frustração

(Completo 100 textos reproduzidos do Jornal Pessoal dos anos 2001 e 2002. Este é da edição 293, de outubro de 2002. Dei prioridade à história política do Pará, tão pouco acompanhada e raramente analisada. Gostaria que o leitor avaliasse o acervo formado até agora e opinasse sobre a utilidade de continuar esta série.)

Ao contrário do que se esperava, Ana Júlia Carepa não foi uma campeã de votos na eleição para o Senado. Na verdade, ela praticamente repetiu a votação de quatro anos atrás, com a qual ficou em segundo lugar, ligeiramente depois de Luiz Otávio Campos, o “senador do governador”, cujo lugar só estará em disputa em 2006.

Agora, ela teve quase 1,1 milhão de votos, mas a votação real deve ser dividida ao meio porque o eleitor podia votar em dois senadores e não apenas em um, como aconteceu em 1998. Acabou também se nivelando às votações conseguidas por Jader Barbalho e Ademir Andrade, oito anos atrás.

De 55% dos votos no início da corrida, Ana Júlia chegou ao fim com menos de 23%, apenas 55 mil votos a mais do que Duciomar Costa, com uma vantagem de 1%. Há uma tendência em seu grupo de atribuir a frustrante votação à decisão do PT de mandar descarregar votos em Elcione Barbalho, na derradeira tentativa de impedir mais um “senador do governador”.

Mas a insólita posição assumida pela executiva estadual do Partido dos Trabalhadores só veio a 48 horas da votação, com pouco poder de fogo e quando já havia se consolidado a tendência de queda nas preferências por Ana Júlia.

A própria candidata já percebera essa ameaça muito tempo antes. Procurou desfazer o “já ganhou” do seu grupo e intensificou os contatos pessoais, ampliando os giros pelo interior do Estado. Em matéria de exposição, desta vez a candidata do PT estava em posição de igualdade com os seus adversários, inclusive o bem abastecido Duciomar. Aproveitou-se também da companhia de Lula, colando sua imagem à dele em toda a propaganda.

O que realmente prejudicou a receptividade a Ana Júlia foi sua falta de conteúdo. Além de palavras de ordem, energia, simpatia e entusiasmo, a candidata não teve o que oferecer ao eleitor. Reparar a injustiça de quatro anos atrás, quando teria sido “garfada” pela máquina oficial, a serviço de Luiz Otávio, não foi o bastante. Nem será, se Ana Júlia pretender ir além de um mandato no Senado.

Por linhas tortas

O governador Almir Gabriel não conseguiu, no 1º turno, eleger nenhum dos seus candidatos in pectori. A única exceção foi Duciomar Costa, que não é do seu partido, nem um companheiro de viagem tucana, mas de um partido aliado na coligação situacionista, o PSD. Sem a máquina estadual e a manifesta preferência do chefe do executivo, provavelmente Duciomar não teria sido eleito.

Mas Gerson Peres, de outro partido coligado, o PPB, ficou de fora. Duciomar foi muito mais “ajudado” do que o deputado federal pepebista. O falso médico dispunha, porém, de mais capital próprio. Seu ponto de partida era bem à frente do suposto companheiro de aliança, agora obrigado a interromper 40 anos de carreira política.

Se Simão Jatene conseguir vencer a disputa pelo governo do Estado, a aliança poderá ser restabelecida conforme o plano do governador. Dentro de dois anos Duciomar poderá se licenciar do Senado, abrindo a vaga para seu suplente, o empresário Fernando Flexa Ribeiro, compadre do governador, e concorrer à sucessão de Edmilson Rodrigues na prefeitura de Belém como favorito, capitalizado pela condição de o político com mais votos na capital. Em 2006 Jatene poderia concorrer à reeleição e Almir sucederia a Luiz Otávio Campos no Senado. O almirismo estaria consolidado.

Mas, e se Jatene perder? Duciomar poderá proclamar que se elegeu por seus próprios meios e reservar-se o direito de recompor seus interesses. Ele viria para a disputa municipal de 2004, mas sem as amarras atuais. Ao invés de perpetuar o almirismo, poderia dar uma banana para o chefe e inaugurar o duciomarismo, formando um novo grupo político no Estado. Esse grupo (grupo?) galvanizaria o antipetismo, principalmente se as piores previsões sobre uma dupla administração do partido, no Estado e em sua capital, se confirmarem.

Nesse caso, Almir Gabriel se disporia a disputar no braço a prefeitura de Belém com Duciomar e com quem mais aparecesse, sem dispor de um bom padrinho e de uma fornida estrutura de poder? Ou esperaria mais dois anos e enfrentaria a campanha para o governo, ou o Senado, confiando apenas em seu carisma e na aprovação popular à sua administração?

Bem que os fados podiam reservar a Almir de Oliveira Gabriel o privilégio de provar, enfim, ter liderança própria. Ou então lhe reservar um bom jardim para o cultivo de flores, a que prometeu se dedicar quando deixar o governo do Pará, no dia 31 de dezembro. Provavelmente imaginando que esse é um recomendável roteiro que estadistas, como ele, devem seguir.

Discussão

4 comentários sobre “A história na chapa quente (101)

  1. Lúcio, na verdade 101.

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    Publicado por Pedro Pinto | 11 de abril de 2017, 16:37
  2. E a CERPA gelada?

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    Publicado por Luiz Mário | 11 de abril de 2017, 18:22
  3. Lúcio,

    Seria bom continuar. Mais interessante ainda seria você conectar com comentários curtos o presente e o passado para mostrar as recorrências das práticas e costumes. Como sabemos bem que belenense sofre de amnésia a cada quatro anos, creio ser importante mostrar que o que muitos propoem como futuro é, na verdade, um passado requentado.

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    Publicado por Jose Silva | 11 de abril de 2017, 18:34

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