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Política, Sem categoria

A história na chapa quente (102)

Feitiço paraense

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 293, de outubro de 2002)

Jader Barbalho não conseguiu, nem mesmo pelo critério da proporcionalidade, ser o deputado federal mais votado do país na eleição de outubro. Mas quase 350 mil votos em seu nome e cinco vagas numa bancada de 17 parlamentares (quase um terço do total), com a possibilidade de incorporar mais um lugar, se a demanda judicial nesse sentido tiver êxito, são um patrimônio invejável.

Principalmente para quem, havia pouco, renunciara à presidência do Senado e ao mandato de senador para não ser cassado, sem conseguir evitar o constrangimento de ser preso ou se tornar alvo permanente de mandado judicial de prisão, sob acusação de corrupção ou enriquecimento ilícito (a próxima investida, segundo se diz, antes da diplomação, poderia vir a ser por evasão fiscal).

Dois mandados sucessivos de prisão, flagrantemente arbitrários e desnecessários, amoldaram ao perfil do ex-senador a sempre simpática imagem de vítima. Seu cálculo de votos, que vinha variando entre 250 mil e 300 mil votos, engordou mais um pouco: 50 mil ou 100 mil sufrágios adicionais, conforme as diversas projeções. A incompetência ou má-fé dos seus adversários acabou por favorecê-lo. Os inimigos fizeram a seu favor o que os amigos não haviam conseguido, muito pelo contrário.

Mesmo assim, mais uma vez Jader Barbalho pode dizer que deve apenas a si esse sucesso; à sua cordialidade, ao seu carisma e à empatia que consegue despertar no povo, principalmente nas faixas mais humildes da população, que o veem como salvador, ou um Robin Hood ao tucupi. Fica, entretanto, uma dúvida: Jader Barbalho teria conseguido se eleger senador ou governador?

Ele próprio deve ter-se feito muitas vezes essa pergunta. Se preferiu disputar uma vaga de deputado federal, provavelmente foi porque, no mínimo, teve dúvidas quanto ao resultado. Alguém mais crítico pode ir além e achar que o povo deu ao ex-governador 13% de todos os votos válidos para a Câmara Federal, mas não aceitaria devolvê-lo ao Senado, de onde saiu pela porta dos fundos, como uma estrela definitivamente descolada do firmamento, ou ao governo, que parecia uma alternativa mais viável.

Na moldura de uma disputa proporcional, Jader Barbalho voltou a se agigantar, mas esse pode ser o seu universo exclusivo (e excludente) a partir de agora. Ele pode ter sido proscrito do âmbito eleitoral majoritário, que inclui Senado e governo do Estado, embora de uma forma suasória, com o agrado de uma votação milionária, como convém a um verdadeiro (embora desvirtuado) líder político.

Os 14% para deputado federal que impressionam (de cada nove votos, um foi dele) representam degraus abaixo na condição do político que sozinho ganhava eleição e elegia terceiros. Ele pode ter deixado de ser um eixo da política paraense. A fração cativa de Jader Barbalho no eleitorado paraense encolheu. E pode encolher ainda mais.

Para engordar a bancada federal do PMDB paraense, Jader atraiu um campeão de popularidade, o radialista Wladimir Costa, que é também um recordista de ilícitos éticos e morais. Com espantosos 162 mil votos, metade do “bamburro” do seu godfather, “Wlad” enriqueceu a legenda, mas pode contribuir para a dilapidação do patrimônio do seu partido (e do seu padrinho) quando entrar em atividade na capital federal. Por seu passado, representa um salto no escuro e um cheque em branco que Jader Barbalho assumiu, em seu favor de imediato, mas contra si num futuro incerto e temerário – e contra o Estado que diz amar, sempre.

Na tendência que têm os líderes autoritários, de andar mal acompanhados, para não criar sombras, Jader Barbalho não esteve só. O governador Almir Gabriel, ao ungir a candidatura senatorial de Duciomar Costa, andou no mesmo caminho.

O Estado de S. Paulo já deu o sinal de alerta, estigmatizando o futuro senador, um fraudador de habilitação profissional. Quando ele entrar no plenário, outros sinais de alerta serão acionados. A partir daí, quanto tempo levará para a primeira acusação? O que Duciomar, um político de mentalidade municipal, poderá dizer de convincente sobre essa novela cabulosa para um plenário mais qualificado?

A bancada paraense que vai para Brasília promete. E o que promete não é, seguramente, bom para o Estado. Sequer para os líderes. Ao criar tais criaturas, os principais líderes políticos do Pará agiram como feiticeiros. Como de regra, desatentos aos efeitos colaterais de seus feitiços.

Gabriel furioso

Nenhum órgão da imprensa comentou o “Manifesto ao povo do Pará”, assinado pelo governador Almir Gabriel e publicado nos jornais de 1º de outubro. Todos preferiram ignorar o documento, o mais violento de quantos Almir Gabriel já subscreveu. No manifesto, o governador diz estar certo da vitória do seu candidato, Simão Jatene, mas investe pesadamente contra a covardia dos seus adversários.

Essa frente inimiga estaria integrada por “conhecidos figurantes da traição, da corrupção e do mais deslavado oportunismo”, com o propósito de transferir da votação popular para o “tapetão” (da justiça eleitoral, naturalmente) a escolha do novo governador. Nesse contexto, “pesquisas sérias, não livremente divulgadas”, deixaram de ser repassadas ao público por registrarem a liderança de Jatene.

Mas como o candidato tucano teria continuado a crescer na preferência do eleitorado, a despeito das manobras, “restou aos opositores fracassados o desespero de buscar cassar a sua candidatura”. No entanto, não haveriam de se dar bem porque os eleitores conscientes “preferem a honestidade e a capacidade” como requisitos para escolher o novo governante paraense.

Confiando na justiça, que “sempre teve de minha parte toda a demonstração de consideração”, o governador decidiu assumir o manifesto (divulgado acanhadamente, por sinal) para assegurar que o povo “não mais se curva a armações desse tipo”.

A linguagem dura não avançou da forma para o conteúdo. O governador distribuiu carapuças, mas não identificou os destinatários. Para que a opinião pública melhor assimile seu recado e tire-lhe o proveito pedagógico, é preciso explicitá-lo.

Os “figurantes da traição, da corrupção e do mais deslavado oportunismo” aos quais Almir Gabriel se refere são, pela ordem, seu vice-governador Hildegardo Nunes, o deputado federal eleito Jader Barbalho e o senador (em fim de mandato) Ademir Andrade.

As “pesquisas sérias” citadas são as do Ibope. Embora tenha desembolsado 40 mil reais por cada sondagem do instituto, o grupo Liberal deixou de livremente divulgá-las, conforme reclama o governador, que bem conhece o assunto.

Almir Gabriel é repetente nessa queixa: ele ficou furioso dois anos atrás, quando O Liberal divulgou, no dia da eleição para prefeito, que Edmilson Rodrigues havia aumentado sua diferença em relação a Duciomar Costa (o que a votação propriamente dita não confirmou).

Os tucanos estão convencidos de que a divulgação dessa pesquisa, e, sobretudo, a forma da sua divulgação, foi decisiva para a reeleição do prefeito do PT, que ganhou raspando. Iniciativa dos Maioranas que classificam de tudo, menos de risonha e franca.

O governador tem seus motivos para queixume, mas não todos. Se o povo está atrás de líderes honestos e capazes (e está mesmo: o problema é encontrá-los), sua excelência não tem se aplicado em oferecer-lhe tais alternativas.

Quem acompanhou a campanha eleitoral de Almir Gabriel em 1994 o ouviu  dizer e repetir que cinco políticos, aos quais fazia seriíssimas restrições, jamais entrariam em seu gabinete. Hoje, todos os cinco são seus correligionários ou aliados, ocupando cargos de confiança ou postos de destaque, graças ao governador, que os indicou, apadrinhou ou nomeou.

Não são os exemplos de honestidade e capacidade que em seu manifesto o médico Almir Gabriel diz que são os seus parceiros eleitorais e políticos, em contraste com a turva combinação de inimigos melífluos e nefastos. A política do Pará não melhorou um grau com a turma do governador.

Na melhor das hipóteses, continuou igual, exceto num fundamento, como se diz no vôlei: há muito mais vestais do que antes. O que apareceu de Catão de dedo em riste nesta eleição, não foi normal. Todos imitando o chefe – nas palavras, na mímica, na retórica.

Quanto a manipular pesquisas e recorrer a “tapetões”, essas poções viram veneno quando usadas contra. A favor, são remédio celestial, como admitiu, intranet, o ex-ministro Rubens Ricupero, o tucano parabólico por excelência, um Goebbels engomado para missa dominical.

A “mesinha” do governador tem de tudo. Se ele pudesse olhar em volta com senso crítico e independência, veria que se igualou aos políticos em relação aos quais se apresentava como oposto. Agora, só quando acusa tem razão. Quando se defende, falta-lhe legitimidade, argumento, razão. Em política, Almir Gabriel virou coronel. Ou se revelou. Sem dragonas. Mas com penache colorido.

Nota curta

A atual administração assegura que elaborou com rigor e seriedade o orçamento do Estado para próximo exercício, a ser executado por um membro da equipe, se Simão Jatene for o sucessor de Almir Gabriel, ou por um adversário, se a vencedora for a petista Maria do Carmo.

O futuro governo vai dispor de 4,2 bilhões de reais, 12% a mais do que o orçamento em vigor, índice de crescimento bem maior do que a evolução do PIB, da atividade produtiva, da inflação e do desempenho da receita federal. Na composição desse índice está embutida a expectativa de que as rendas próprias estaduais aumentem 21% e as transferências federais cresçam 8,6%.

É esperar muito, tanto do desempenho da máquina arrecadadora local quanto das transferências da União. Ainda mais porque da proposta do orçamento foram expurgados 130 milhões de reais. A atual administração está recebendo esse dinheiro, uma compensação que o governo federal dá aos Estados atingidos pela Lei Kandir, que desonerou de impostos suas exportações por um período de 10 anos. Como a lei que prorroga a compensação a partir de 2003 ainda não foi votada, não pode ser incluída no orçamento do próximo exercício.

Não saindo vitoriosos na disputa presidencial, os tucanos, evidentemente, se descomprometerão do assunto. Ele se transformará num rombo considerável nas contas de um Estado que exporta compulsoriamente, pagando o pato (sem tucupi) do superávit cambial que lhe impõem. E que, a bem da verdade, ele aceita passivamente, como tem ocorrido sob o reinado do doutor Gabriel, o Serafim do silêncio obsequioso.

Discussão

4 comentários sobre “A história na chapa quente (102)

  1. Se arrependimento matasse, ele teria se despedido desta terra bem antes, depois que elegeu seu poste traíra.

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    Publicado por JAB Viana | 12 de abril de 2017, 23:04
  2. Se perdesse a eleição de 2002, certamente voltaria ao Governo em 2006, pois a candidata e o PT não estavam preparados para governar, como provaram após a derrota de Gabriel com uma candidata de carreira melhor articulada eleita com o naufrágio da nau tucana. O Governo de Robson pescador foi tão ruim que até os eleitores que antes votavam no emplumado reizinho desperdiçaram seus votos na candidata encarnada. Além do mau governo, o pescador de traíras fez corpo mole, deixando o rei nu perante o eleitorado.

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    Publicado por JAB Viana | 12 de abril de 2017, 23:43
  3. O rei deve estar vagando pelo purgatório, tentando entender como se deixou enganar estupidamente por seus “amigos”.

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    Publicado por JAB Viana | 12 de abril de 2017, 23:46
  4. Desce uma CERPA bem gelada, aí!

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    Publicado por Luiz Mário | 15 de abril de 2017, 09:44

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