//
você está lendo...
Política

A história na chapa quente (103)

O companheiro Lula no paraíso

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 294, de novembro de 2002)

A classe operária – quem diria! – chegou ao paraíso. Não na Itália, terra de Élio Petri, o criador do belo filme, que renovou utopias, ou em qualquer outro país do Primeiro Mundo. Usando um desvio da rota principal, pela qual trafega a história dominante do mundo, num remoto país da América do Sul, grande pela própria natureza, apequenado por seus dirigentes, um operário conquistou o máximo de poder. Luiz Inácio Lula da Silva, aos 57 anos, realizou uma façanha capaz de lhe assegurar, desde já, independentemente do que venha a fazer, um lugar especial não só na história brasileira, mas na história universal.

Seu ingresso no panteão das estrelas de primeira grandeza exige, porém, que ele passe pelo teste de consistência das grandes mudanças, feitas para valer. É inevitável compará-lo a Salvador Allende. Durante três décadas, Allende peregrinou, como médico e como político, pelos extensos caminhos do território e da política chilenas.

Conquistou grandes vitórias, sofreu derrotas monumentais. Mas não desistiu. Acabou tirando a presidência das mãos supostamente limpas da democracia cristã para encarar um desafio original para a humanidade: a conciliação do socialismo com a democracia.

Para implantar o socialismo num país subdesenvolvido e dependente, Allende precisaria ter força. Mas como ser forte se ele não dispunha de maioria parlamentar, sendo o parlamento um dos polos de equilíbrio e de fiança da democracia?

Os companheiros de viagem insistiam para que o “companheiro presidente” (a expressão voltará a ser usada, agora no Brasil) incorporasse a visão leninista da tomada violenta do poder e da implantação de um sistema político baseado no partido único.

Seria mais uma “ditadura do proletariado”, fazendo a transição para o paraíso de uma sociedade sem classes. Observador da história, Allende queria justamente evitar esse atalho. No final da reta, invariavelmente encurtada, surgia não o comunismo igualitário sonhado pelos utopistas, mas uma tirania. Ao invés de Icária, o Gulag.

Para não se expor à sedução do golpe de esquerda, o amável e decidido Allende  passou a ignorar o que lhe diziam os seus companheiros e aliados, personagens de um amplo espectro, que ia do cristão Radomiro Tomic à marxista Martha Hannaecker.

Mas também deixou de ver os claros e decididos movimentos golpistas da plutocracia chilena e dos chefes militares, mantendo o futuro tirano, general Augusto Pinochet, na chefia do seu metafísico esquema de segurança. A mais generosa e rica experiência da América Latina até então (e do mundo mesmo) terminou tragicamente.

Allende pagou por seus erros, praticamente todos veniais, com a bravura final, inútil, mas digna. Morreu resistindo ao golpe no Palácio La Moneda. Foi mais longe do que seu antecessor de duas décadas nesse gesto extremo, o brasileiro Getúlio Vargas.

Socialismo com democracia

Allende era um homem da elite chilena, não das camadas mais pobres. Era um médico, não um operário. Praticando seu ofício e suas ideias desde as remotas paragens do seu belo país até a capital, de viés europeu, construiu uma carreira e um programa comprometidos com um propósito claro: implantar o socialismo no Chile.

Sua ferramenta era macia, retirada de almoxarifados europeus de ideias, especialmente do patrimônio italiano de Antônio Gramsci. Ao invés de ditadura do proletariado, hegemonia política, em sentido amplo. Mas nunca escondeu ou maquiou seus objetivos.

Era o ideólogo de uma proposta que, mal comparando, podia ser chamada de Terceira Via, desnaturada pelo que tem feito o britânico Tony Blair, também de um partido que se proclama trabalhista, no exercício do poder numa Inglaterra atrelada abjetamente aos Estados Unidos.

Lula não é, portanto, um novo Allende, embora haja pontos de contato entre os dois líderes latino-americanos. Lula é um verdadeiro homem do povo, saído de suas entranhas antes de se solidarizar com as reivindicações e esperanças do sempre mal assistido povo brasileiro, buscando uma ideologia compatível com esses objetivos. Mas Lula não fez a campanha deste ano, que lhe permitiu finalmente vencer a disputa pela presidência da república, prometendo o socialismo aos brasileiros.

Lula e o futuro

Certamente prometeu coisas que praticamente exigem o socialismo para se concretizarem. Mas se sua retórica tivesse incluído o socialismo, ele não teria sido eleito. Ou pelo menos não teria tido o apoio dos que lhe permitiram se eleger, não por lhe terem dado diretamente os votos, mas por lhe haverem proporcionado a grande estrutura de acesso aos votos, sobretudo aos votos mais distantes e mais difíceis de conquistar neste gigantesco (e pantagruélico) país.

Lula é, portanto, o que é. Mas é também o que não é, o que propõe e o que não propõe, o que diz e o que não diz, o que mostra e o que esconde. Lula realizou o que era considerado impossível. Agora que conquistou o poder, o possível de ontem será o temerário de amanhã. O que foi fácil de acreditar na campanha poderá ser substituído pelo ceticismo, a descrença, a frustração e a revolta. Numa velocidade difícil de antecipar hoje. Mas que pode ser veloz.

Lula também pode ser comparado ao presidente socialista da França, François Mitterrand, que persistiu na derrota até ser eleito, quando parecia estar condenado a ser um eterno figurante. Mitterrand começou com quatro comunistas no ministério, embora em cargos secundários, e um audacioso programa de transformações.

Na passagem do primeiro mandato para a temporada final de sete anos no poder, ele estava abaixo do perfil dos sociais-democratas. Mitterrand estava mais próximo do povo do que Allende, mas terminou muito mais distante. De tudo, aliás.

Alguns estão buscando luzes mais fortes no paralelo com outro líder socialista europeu, o espanhol Felipe González. Mas certamente há mais o que comparar entre Lula e Lech Walesa, ambos operários, líderes da categoria, animadores de sindicato e formadores de partido. O desfecho de Walesa pode ser mais instrutivo para Lula do que a trajetória ascendente do líder polonês. As lições, bem aprendidas, podem poupá-lo de surpresas desagradáveis.

Independentemente de todas essas circunstâncias, Lula já é um personagem da história do mundo. É impossível não ter simpatia por ele e desejar que seja bem-sucedido como o primeiro homem do povo a alcançar a presidência da república.

Não significa, porém, que vá conseguir realizar o que anunciou na campanha eleitoral apenas mantendo em alta a sintonia emocional com a maioria dos brasileiros. É cruel a herança que Fernando Henrique Cardoso lhe transmitirá no dia 1º de janeiro. Se Lula cultiva no mais íntimo a esperança de poder manter a condução do governo sem mudanças, para acomodar os problemas e tomar fôlego, a simpatia popular se esfumará como perfume barato.

Provavelmente não é assim que ele pretende agir. Sua primeira decisão como presidente eleito, de combater a fome, seguiu o rumo certo. Espera-se, porém, que ele não se oriente por um impulso simplesmente voluntarista, messiânico.

Combater a fome significa estimular a produção de alimentos, montar uma rede de restaurantes públicos, estabelecer esquemas de comercialização favoráveis às duas pontas da linha – e, o mais importante, para que produtor e consumidor sejam beneficiados, criar um sistema de coordenação, fiscalização e intervenção para impedir os vazamentos nefastos da corrupção. Rapidez, racionalidade e eficiência vão ser exigidas da engrenagem governamental. Será um teste de fogo para o governo petista.

Os grandes teóricos do partido certamente conhecem o New Deal adotado pelo presidente americano Franklin Delano Roosevelt para tirar os Estados Unidos do buraco da crise de 1929. Os programas sociais da administração Lula, sem os quais será impossível romper o desequilíbrio estrutural da economia brasileira, baseada em metas financeiras e na ortodoxia econômica, podiam se inspirar nas ações da dupla Roosevelt-Hopkins. Há uma semelhança entre as duas épocas. Por que as soluções não podem se comunicar?

Quando ocupar o trono republicano, Lula passará do estado de encantamento, no qual a estrondosa vitória o projetou, para o choque da realidade. Tomara, para o bem de todos e a felicidade geral da nação, que os problemas não o imobilizem e o poder não o inebrie, como fez com o seu antecessor.

Há um episódio que sugere inquietação. Quando discursou na avenida Paulista, em São Paulo, comemorando a vitória, procurou ser humilde, mas deixou dentro de mim um resíduo de desconfiança. Disse que “se errar”, irá ao povo admitir o erro.

Eu ficaria mais satisfeito que ele tivesse declarado: “quando eu errar…”. O “se” sugere ambiguidade. O “quando” é afirmativo. Afinal, Lula errará. Esperemos que erre no varejo e acerte no atacado. O Brasil pós-FHC não lhe dará muito tempo para corrigir o erro, ou para errar mais do que Fernando Henrique Cardoso.

Discussão

4 comentários sobre “A história na chapa quente (103)

  1. Lucio,

    E qual é a sua avaliação? Para mim ele fez pior do que o Walesa, pois o Brasil não estava na transição política complicada que o Walesa teve que enfrentar. No quadro global, apesar do início promissor, a imagem do Lula na história está completamente arranhada. Com exceção de algumas escolas cegas pelo marxismo, todos reconhecem que houve um aumento exponencial da corrupção no Brasil, chegando, como o próprio Lula costumava dizer, a níveis nunca antes vistos na história desse país. Havia os ganhos obtidos pelos programas sociais, mas hoje sabemos que eles eram apenas esmolas ou distrações para o fato das grandes negociatas que aconteciam em Brasília. Além disso, muitos dos ganhos sociais foram perdidos com a recessão. Do ponto de vista de honestidade, os depoimentos não deixam dúvidas. Ele era o “amigo” que possuía uma conta milionária gerenciada pelo “italiano” e que comandava a aprovação de investimentos e leis que favoreciam alguns poucos.

    Estou sendo muito pessimista? Afinal de contas, qual o legado que o Lula da Silva deixou ao Brasil?

    Curtir

    Publicado por José Silva | 14 de abril de 2017, 10:30
    • No artigo destaquei o valor da carreira do Lula até o momento de ser eleito. A partir daí, ele frustrou as melhores expectativas e superou os receios negativos. As boas coisas que fez se revelaram efêmeras, sem espinha dorsal suficiente para sobreviver ao fim do ciclo ascendente das commodities, o combustível do crescimento no período do mandato dele. O legado, apurados os prós e os contras, se sugere negativo.

      Curtir

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 14 de abril de 2017, 11:21
  2. Se o PT não tivesse chegado à presidência (e não ao poder) teríamos conhecimento da ditadura da corrupção que há muito viceja por estas bandas?

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário | 15 de abril de 2017, 10:00

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: