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Polícia

A história na chapa quente (104)

Maria morreu na beira

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 294, de novembro de 2002)

Depois de ter estado tão longe do eixo da disputa para o governo do Pará, a deputada estadual Maria do Carmo Martins Lima, de 39 anos, tinha motivos para se considerar satisfeita com o resultado da votação do 2º turno da eleição deste ano.Desacreditada quando a campanha eleitoral começou, conseguiu passar na frente de dois candidatos considerados mais fortes na oposição (o senador Ademir Andrade, do PSB, e o vice-governador Hildegardo Nunes, do PTB) e ir para o 2º turno.

No reinício da campanha, manteve nas pesquisas empate técnico ou supremacia contra o delfim do governador Almir Gabriel, seu ex-secretário Simão Jatene. Mas quando a praia estava ao alcance da sua canoa, morreu na beira.

Talvez nem se deva dar tanto destaque à derrota da candidata do PT. O que mais impressiona é o fato de ela ter conseguido chegar tão longe. Esquecida pelos adversários, que não acreditavam nas suas possibilidades, Maria do Carmo atravessou ilesa a campanha do 1º turno.

Mas quando o confronto passou a ser bipolar, suas carências e insuficiências emergiram. No debate contra Jatene, seu desempenho amoldou num perfil que o eleitor está cada vez mais propenso a rejeitar: de despreparada.

Se estivesse mais bem preparada, não teria cometido tantos erros, os mais crassos dos quais, por seu apelo popular, foram o desconhecimento do valor exato da tarifa de ônibus em Belém (esquecimento de fundo traumático, talvez, por causa do bisonho papel da administração municipal do PT nesse setor vital para a população urbana) e do efetivo da Polícia Militar do Estado, algo desmoralizante (sobretudo pelo tamanho do erro) para quem pretendia dar realce à segurança pública.

Maria do Carmo errou também por calçar muito cedo sapatos muito altos. A insistência irritante em se associar a Lula e deixar-se levar emocionalmente pela onda vermelha, pequena para abrigar tantos surfistas (como de regra, o mais açodado foi o prefeito Edmilson Rodrigues), sugeria ao eleitor perda de identidade.

Os erros do PT local

Lula fez muito por ela, mas não podia fazer tudo e nem a maior parte. Insistindo no maniqueísmo primário, a campanha do “já ganho” acabou produzindo efeito contrário: muitos eleitores preferiram arriscar na combinação heterogênea, de Lula e Jatene, para ter um governador dotado de fisionomia própria.

Internamente, o PT paraense voltou a cometer um erro que o PT nacional exorcizou: o de não cumprir acordos. Apesar da declaração de última hora em favor da candidatura da deputada federal Elcione Barbalho ao Senado, nas ruas o gesto se tornou retórico e inócuo. O PT pediu para o eleitor votar em Elcione, mas não assumiu sua candidatura. Foi um apoio para inglês ver.

O PMDB percebeu a farsa. Apanhado no contrapé, que lhe rendeu dissabores de ocasião e ainda poderá acarretar dores de cabeça no futuro, o ex-senador Jader Barbalho se desligou completamente dos petistas no 2º turno (embora mantendo diálogo com a direção nacional do PT, inclusive para assegurar a eleição de José Dirceu à presidência da Câmara Federal).O lavar de mãos de Jader foi o último sinal que faltava para os peemedebistas passarem de vez para o lado do PSDB.

A mais valiosa incorporação à nau tucana foi a do deputado federal Wladimir Costa, que reforçou a coleta de votos para Simão Jatene em Belém, reduzindo ao mínimo a desvantagem do 1º turno e mostrando que Edmilson vai ter dificuldades redobradas para fazer o sucessor (inclusive porque a frente interna petista voltará ao estado anterior de belicosidade).

O empurrão final

Outra significativa alteração na distribuição de poder resultou da volta do grupo Liberal ao ninho situacionista. A correção de rumo começou quando o governo quitou a dívida de quase um milhão de reais da Funtelpa, pagando de uma vez os três meses pendentes do “convênio” entre a fundação de telecomunicações do Estado e a TV Liberal . O dinheiro entrou nos cofres do grupo Liberal exatamente em mais uma circunstância adversa de caixa para o pagamento dos salários dos funcionários da empresa.

O entendimento sonante chegou até a já tradicional divulgação da pesquisa final do Ibope, no dia da votação. Só que, ao contrário de dois anos atrás, quando a publicação favoreceu o PT, influindo para a apertada reeleição do prefeito de Belém, desta vez a embalagem foi preparada para servir a Simão Jatene, não se sabendo se da mesma maneira como em 2000 (com a mudança dos personagens, é claro).

A reedição do mesmo método bem que podia levar um parlamentar mais sério e audacioso a propor que as pesquisas eleitorais só possam ser divulgadas até o último dia da propaganda eleitoral gratuita (que, aliás, é onerosa aos cofres públicos). Afinal, pesquisa não pode ser usada como gazua.

A combinação de tantos erros ou circunstâncias no final da reta tirou de Maria do Carmo uma vitória que muitos dos seus correligionários (sobretudo os de última hora) já davam como certa. De certa forma, porém, o imprevisto fez justiça a uma situação que também resultara do acaso.

Tanto o PT como sua candidata não fizeram jus à vitória. Mas, e o vitorioso? Simão Jatene ganhou com o rosto de Almir Gabriel, com sua máquina. A identidade dos dois se fundiu no curso da convivência, sendo difícil identificar com clareza onde começa um e termina o outro, ou quem imita a quem, quem influencia a quem, onde é o ponto de origem desse consórcio.

A fusão foi tão perfeita que, interrompendo longos anos de tradição no uso eleitoral da máquina oficial, desta vez o governo deixou suas impressões digitais no ilícito eleitoral. Sendo Jatene e Almir uma coisa só, sem separação seriam a engrenagem eleitoral e o aparato governamental. Na confusão, muitas provas foram sendo deixadas pelo caminho do exército tucano.

Tucanos ainda no poder

Se a representação feita pelo PDT não conseguir fazer o Tribunal Superior Eleitoral apreciar o mérito da questão, uma denúncia do Ministério Público Federal, se tal for o resultado do inquérito em curso, reabrirá a questão, turvando o brilho da façanha que o PSDB do Pará conseguiu e o nacional, não: materializar a profecia do ex-ministro Sérgio Mota, de que a chegada dos tucanos ao poder era para durar pelo menos 20 anos.

Se vencer esse obstáculo, o que fará o economista Simão Jatene, 53 anos, dono do primeiro mandato eletivo de sua carreira, e justamente o mais importante do Estado? Por enquanto, basta-lhe ouvir o que lhe diz o atual governador, que, por sinal, era o que lhe dizia seu ex-secretário de planejamento e da produção.

E assim, num vai-e-vem circular, um falou ao outro, está falando e falará, nesse circuito fechado em que se transformou a corte dita social-democracia na capital dos sertões paraense. Lá fora, o povo continuará recebendo circo e tateando à procura de pão.

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (104)

  1. Pois é..Maria morreu na praia, mas foi depois eleita prefeita de Santarém e abriu as portas para a eleição da Ana Júlia (com apoio do Barbalho). Lúcio, você está devendo a avaliação da sua conterrânea como prefeita da tua cidade natal.

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    Publicado por Jose Silva | 17 de abril de 2017, 18:46

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