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Imprensa

A história na chapa quente (105)

Mais lourice na “jungle”

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 294, de novembro de 2002)

Em Tristes Trópicos, Claude Lévy-Strauss desnuda e desmascara o hábito metropolitano de fazer da colônia a extensão dos seus sonhos, caprichos e delírios, além de travesseiro para aplacar a consciense mauvaise. Ataca a superficialidade, inocuidade e nocividade dos relatos de viagem, das expedições a ultramar, das missões no hinterland e na jungle. É um livro maravilhoso, que todo colonizado devia ler. Com a condição de procurar ser menos colonizador.

Talvez assim as hiperbólicas incursões dos nossos bwanas fossem desestimuladas e a contumaz servidão dos nativos, inibida. Talvez as matrizes da nossa cultura, mesmo – e sobretudo – as nacionais, arrefecessem seu ímpeto de estar sempre a descobrir a pólvora e sancionar os éditos normativos nas periferias. Talvez se despojassem do hábito de mirar-se no espelho de Narciso e contemplar, em seu umbigo, a universalidade do mundo.

Sem esse impulso generoso, temos que deixar de lado o grande livro do antropólogo francês e encarar Direto da Selva (As aventuras de um repórter na Amazônia), livro escrito por Klester Cavalcanti [atualmente diretor de redação do Diário do Pará] para a coleção “Vida de Repórter” da Geração Editorial.

A coleção é uma boa sacada do também jornalista Luiz Fernando Emeditado, o dono da editora. Abre passagem para reportagens e testemunhos de repórteres, cerceados pelo preconceito de parte do mercado editorial, enquanto outra parte os incensa sem razão.

A participação de Klester na coleção, porém, é decepcionante, desperdiçando a bela edição que a Geração lhe proporcionou. O tempo de permanência entre nós do repórter pernambucano, de 32 anos, foi curto: apenas dois anos. Graças à mobilidade que Veja ainda permitia ao seu correspondente, ele percorreu a Amazônia, viu e tomou parte em episódios importantes nesse período.

Mas nem sempre pôde entender e mesmo ver o que se passou diante dos seus olhos. Ou por um comprometimento de visão, causada por ideias preconcebidas sobre a Amazônia, ou por fantasia. Não viu o que devia ver e viu o que inexistia.

O estranho sequestro

O principal capítulo do livro. de 247 páginas, excede pela dose de fantasia. Klester relata o sequestro que diz ter sofrido em Belém, em março de 2000. Por causa da ameaça à sua vida, o correspondente foi retirado às pressas para São Paulo, não mais retornando à sua antiga base de operações.

Quando sacava dinheiro no caixa eletrônico do Shopping Center Iguatemi, no centro da cidade, em plena luz do dia, o jornalista foi atacado por dois homens, encapuzado e colocado no interior de um carro. Sob a mira de um revólver, foi levado para um local ermo, na periferia da capital paraense, amarrado a uma árvore e abandonado.

Tudo isso “foi desencadeado por uma matéria que caiu nas minhas mãos por acaso”, diz o repórter, referindo-se ao texto que estava escrevendo sobre a extração ilegal de madeira em áreas griladas no Pará por uma quadrilha que criara até um personagem fantasma, o tristemente famoso Carlos Medeiros, para servir de fachada para seus crimes. O suposto sequestro de Klester Cavalcanti foi matéria de capa da edição nº 231 deste jornal. Nessa matéria, expressei minhas dúvidas sobre esse confuso acontecimento.

Reler a reconstituição feita por Klester dois anos depois do episódio aumenta sua inverossimilhança e, em alguns tópicos, faz a narrativa transbordar para a seara do bizarro..

Depois de se livrar das cordas com as quais fora amarrado, Klester diz haver escalado “uma árvore de uns 25 metros de altura”, tarefa duplamente notável: tanto pela existência de árvore tão alta nas cercanias (por ele classificadas de “selva”, para efeito de decorar com cores fortes o pedido de socorro feito à sede da revista) de uma Belém vitimadas pela ação do homem, como pela escalada em si, de causar inveja aos próprios nativos da jungle.

Vencida a “selva”, o jornalista chegou “a uma rodovia”. Apesar de já estar como correspondente em Belém há dois anos, ele “não fazia a menor ideia de onde estava”, um ponto na BR-316 a dois quilômetros do posto da Polícia Rodoviária Federal, que, segundo sua informação (infelizmente, errada), ficava “em Benevides, a cerca de 35 quilômetros de Belém”.

Esses dois quilômetros, Klester percorreu em duas etapas. Na primeira, correndo durante “pelo menos dez minutos”. E, em seguida, caminhando, “já cambaleante e totalmente exaurido, por mais um quarto de hora”. Ou seja: gastou, entre correndo e andando, 35 minutos para cobrir os dois quilômetros entre a saída da “selva” e o posto da Polícia Rodoviária. Devia estar mesmo muito cambaleante e exaurido.

Do posto policial ele ligou para seus chefes, em São Paulo, para anunciar ter sido “sequestrado e largado no meio da selva, amarrado a uma árvore”. Atendido por Eduardo Oinegue, editor-executivo de Veja, que já teve experiência macarrônica algo semelhante no garimpo de Serra Pelada, anos atrás (cobriu de barro o rosto de um jornalista, apresentando-o na capa da revista como um garimpeiro em sua labuta diária), recebeu a ordem de buscar proteção policial, terminar a matéria e “se mandar” para São Paulo, saindo “dessa terra sem lei”.

Novo Indiana Jones

O que, de pronto, Klester fez. Com as honras de alguém resgatado da terra selvagem, de volta ao útero seguro do centro metropolitano (onde, como todos sabem, vigora a lei). Sua temida reportagem se revelou tiro de festim.

A revista acabou gastando mais espaço com o rocambolesco sequestro do que com a grilagem da gangue do fantasma Carlos Medeiros. A rigor, a reportagem nada trouxe de novo, muito menos de explosivo, que justificasse a audácia do sequestro. Repórteres locais, nada parecidos a Indiana Jones, já haviam escrito textos muito mais profundos, diretos e agressivos.

E continuam a escrevê-los, agora já sem a companhia do aventureiro emissário da Veja paulistana. Sem o colorido que só acompanha os enviados do sul maravilha. Em prosaico preto-e-branco, portanto.

Infelizmente, os textos de Klester reunidos em Direto da Selva apenas reforçam estereótipos e fantasias nacionais sobre uma região tão complexa, distante e original, refratária ao entendimento estandardizante dos companheiros de federação.

Nos dois anos de sua agitada permanência na região, o jornalista acredita que se estabeleceu “uma ligação íntima e consistente entre a floresta, com sua gente digna e cortês e insuperável riqueza natural, e eu”. Essa intimidade, porém, não impediu Klester de cometer erros primários, que uma vivência mais longa, maior atenção ou um melhor trabalho de checagem preveniriam.

Num dos textos do livro, ele diz que o Projeto Jari de Daniel Ludwig teve esse batismo porque Jari é o “nome de um rio da região”. Podia ser ao mesmo tempo simples e exato se dissesse que Jari é o nome do rio que banha e corta o projeto, e não associá-lo genericamente à região.

Klester esteve na área e conseguiu saber que a usina de energia ali em operação foi produto de um plano audacioso do milionário americano, que “não titubeou em gastar 270 milhões de dólares para construir, no Japão, e trazer, numa gigantesca balsa, até a Amazônia, uma usina termelétrica”.

Mas não conseguiu ficar sabendo (deve ter faltado tempo para pesquisa) que, em outra balsa, também veio navegando por 20 mil quilômetros, do Japão até o Jarí, a própria fábrica de celulose, à qual a usina abasteceria de energia. Aliás, as duas estruturas metálicas não vieram propriamente em balsas.

Elas foram construídas nos estaleiros da Ishikawajima, em Kure, para flutuar. Ancorando em Munguba sobre 3.600 estacas de maçaranduba, elas foram despojadas de centenas de toneladas de peças acessórias, que lhes foram incrustadas exatamente para que navegassem.

As narrativas de Klester estão cheias de tais imprecisões, mas tudo isso passa a ser considerado detalhe irrelevante a partir do momento em que o desbravador da história amazônica abandona a região inóspita e volta ao centro do poder e da inteligência nacional, deixando para trás a marginália de primitivismo, atraso, selvageria e incultura da “jungle”, cheia de gente boa, tanto mais boa quanto mais distante estiver.

Vencidas suas aventuras, são e salvo na capital dos paulistas, Klester ficou conhecido durante muito tempo como “o jornalista que foi sequestrado na Amazônia”. Magnânimo e superior, ele constata: “Por mais difíceis e cruéis que tenham sido as horas que passei nas mãos dos meus raptores, elas já foram superadas. Fazem parte do passado”.

O sequestro foi uma história tão forte que monopolizou a temida matéria, deixando pouco espaço para as denúncias, que tantas apreensões precocemente causaram aos raptores. Mas a violência, em uma forma menos confusa do que a sofrida pelo então correspondente de Veja, não é passado para os que aqui ficaram e que não podem – nem querem – ter como cartão de apresentação o fugidio episódio que marcou a vida de Klester Cavalcanti.

Discussão

5 comentários sobre “A história na chapa quente (105)

  1. Excelente provocação, caro Lúcio. Sobretudo para uma sociedade em que pessoas são agredidas e ameaçadas de morte em ambiente público voltado para a cultura.

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    Publicado por Luiz Mário | 20 de abril de 2017, 10:21
  2. E como está o Diário na gestão dele? Foi sequestrado também?

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    Publicado por José Silva | 22 de abril de 2017, 09:00

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