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Cultura, Educação, Política

A história na chapa quente (106)

CEPC: o registro

de uma destruição

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 294, de novembro de 2002)

Sob uma luz mortiça, num salão com um nobre ar de decadência, o professor Clóvis Silva de Moraes Rego lia o texto da introdução que escreveu para seu livro, Subsídios para a história do Colégio “Paes de Carvalho”, que estava sendo lançado naquela noite. O auditório era quase todo formado por ex-alunos do CEPC, confraria valorizada pela presença do ministro das comunicações, Juarez Quadros.

Extremamente magro, alquebrado por alguns episódios sofridos de sua vida recente, o velho professor, dono de um dos mais reluzentes currículos do Estado (ocupando nada menos do que 25 páginas de seu livro), lia com dificuldade. Mas valia a pena prestar atenção ao que estava lendo, peça introdutória à mais rica contribuição já prestada à história da mais importante instituição paraense de ensino.

Alguns acharão despropositada a avaliação. Há excesso de palavras nas 455 páginas do livro, que podia ser muito menor, sem qualquer perda de conteúdo. O ex-governador exagera em certas minúcias, não por serem minúcias, mas por sua irrelevância.

Incorpora informações de forma desigual, sem separar o joio do trigo, sem hierarquizar valores. Apesar da linguagem arcaizante (ou arcaica mesmo) e do critério burocrático de seleção de dados, há que se admirar uma virtude de Clóvis Moraes Rego, rara entre nós: seu apego à informação exata, o culto que faz da busca de cada detalhe que lhe falta para completar a situação que está reconstituindo.

Ele é um dos mais notáveis pesquisadores em atividade no Pará, daqueles trabalhadores braçais que nem sempre conseguem chegar ao produto final, derivado da compreensão e da interpretação dos fatos. Mas sem eles não haveria história, apenas boatos, murmúrios e especulações.

Quanto mais o tempo passar, mais gratos e reconhecidos seremos ao mestre Cocó, o tratamento carinhoso que sempre admitiu, mesmo quando foi a maior autoridade da terra, no encerramento do mandato recebido do titular do governo, Aloysio Chaves, desincompatibilizado em 1978 para concorrer ao Senado.

Sem o pertinaz trabalho de relojoeiro do ex-presidente do Conselho Estadual de Cultura, muitos dos subsídios que seu livro tornou perenes teriam desaparecido. Na introdução, ele diz que suas principais fontes de consulta foram as atas do CEPC. Os documentos originais, de grande valor histórico, provavelmente não existem mais. O que restou foram as cópias, que Clóvis mandou xerocopiar.

O que aconteceu com esses papéis? Com a palavra, o professor:

“Quando o Governador Alacid Nunes [em 1968] restaurou fisicamente o prédio do ‘Paes de Carvalho’, fê-lo demolindo-o, inclusive o telhado, resguardando-lhe apenas as paredes externas para lhes conservar as primitivas linhas arquitetônicas. Estava eu, ainda em atividade, como professor titular do vetusto educandário, mas comissionado como Secretário de Estado de Governo. Retirar o telhado – logo me acudiu – significaria irreparável dano ao seu arquivo, um dos mais ricos e primorosos que conheci. Tomei então a iniciativa de xerocopiar livros de Atas de concursos e de assentamentos funcionais de professores e servidores do estabelecimento, bem assim como farto documentário que dona Carlota Mendes Leite de Almeida, com insuperável requinte, guardava como titular do cargo de Arquivista”.

Acrescenta o historiador:

“Hoje, o acervo do arquivo do ‘Paes de Carvalho’ é precário em relação ao que foi, no passado, e o que perdurou, graças ao devotamento da sua atual direção, resiste desafiando o apoio de recursos financeiros e de moderna tecnologia”.

Não tendo lido até aquele momento a introdução ao livro (sequer sabia ser esse o texto que o professor Clóvis empunhava), fui ficando espantado e chocado com o relato. Olhei para a plateia: nenhuma reação. Finda a leitura, começou a festa de lançamento.

As pessoas pareciam não se dar conta de que, do alto de sua exitosa trajetória, o professor Clóvis Moraes Rego fizera uma grave denúncia, ainda que seu texto não fosse uma denúncia, muito pelo contrário. Escravo da realidade que se projeta a partir de sua pesquisa, ele estava apenas relatando o que conhecia a respeito. O que conhecia, entretanto, era grave, extremamente grave.

A reforma do CEPC, feita no primeiro governo do tenente-coronel Alacid Nunes, foi como uma bomba neutra: preservou a estrutura física do prédio, mas destruiu sua alma, a vida guardada naqueles papéis que registravam a vida. O governante se mostrava incapaz de entender a complexidade da história.

Quem de tal coisa sabia, estava numa condição de não poder alterar os ditames do chefe. Da mesma maneira como pôs abaixo a caixa d’água do centro comercial e, na fúria modernizante, passou por cima de outros registros materiais e imateriais do tempo, Alacid golpeou a memória do colégio, que também foi seu local de aprendizado.

É uma pena que mestre Clóvis só haja conseguido tirar cópias xerox dos originais, ao invés de colocar os documentos primários sob guarda. Triste e constante sina de uma terra pouco afeita à integridade do seu passado. Tão desatenta que nenhuma consequência houve dos dois parágrafos lidos pelo professor, embora ali mesmo estivesse presente o personagem principal, o ex-aluno Alacid da Silva Nunes.

Discussão

8 comentários sobre “A história na chapa quente (106)

  1. Aproveitando o ensejo, que o JP seja o fórum para registro destes tempos…

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    Publicado por Luiz Mário | 20 de abril de 2017, 10:37
  2. E como esta hoje a situacao do CEPC? Continua caindo aos pedacos?

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    Publicado por Jose Silva | 20 de abril de 2017, 12:53
    • É uma tristeza. Sem ambiente educacional, sem qualquer ligação com seu passado glorioso, entregue ao acaso e dependente do esforço de meia dúzia de abnegados. Retrato da falência da escola pública.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 20 de abril de 2017, 15:49
      • Triste, muito triste. Como a sociedade deixou que isso acontecesse? Prova cabal que estamos falidos financeiramente e moralmente. A boa educação não é mais prioridade nesse país.

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        Publicado por Jose Silva | 20 de abril de 2017, 18:22
  3. Lamentável. Um colégio que preparou quase todos os Governadores do Pará, encontrar-se nessa situação deplorável, com seu acervo destruído por descaso e decisões equivocadas, como à do Átila de nossa política que destruiu tantos referenciais de nossa história, cultura e arquitetura, colocando no lugar arremedos sem nenhum valor. Não soube e nem teve a capacidade de pensar em criar coisas belas, como um novo caminho para o rio Guamá, deixando a Universidade quase isolada e aquela beira rio toda, de seu portal ao Arsenal, se transformar num grande favelão, onde proliferam o lenocínio, o tráfico e o crime desorganizado.
    Os ex-alunos do CEPC deveriam se organizar para reerguerem o tradicional colégio, até para se oferecer aos jovens desta Capital uma opção de estudo do nível de suas tradições, escola padrão do Pará. Saudades.

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    Publicado por JAB Viana | 21 de abril de 2017, 00:40
  4. O acervo de Clóvis está guardado hoje na Cidade Velha em frente a Igreja do Carmo e da Praça no Fórum Landi sobre a coordenação de Flávio Nassar. Assim como acervos de Anunciada Chaves, Roberto Santos, Raimundo Jinkins, e Célia Bassalo em rico acervo. Muito trabalho ainda falta ser feito, de complicado armazenamento, condições de manuseio desfavoráveis, muito material, mas estão com árdua tarefa para organizar tudo. Ainda com um complicado caso de acusações de danos entre universidade e o fórum, que como retaliação parece não reconhecer o ultimo. Desentendimentos a parte o rico acervo merece cuidados, alguns urgentes para que o que se com tantos entreveros não se perca o que de tanta informação já se pode salvar.

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    Publicado por Fabrício | 21 de abril de 2017, 16:06

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