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Cultura

Cultura chapa branca

No seu formato atual, das sete às oito da noite, com veiculação obrigatória, a Voz do Brasil completará 80 anos em 2018. É o mais antigo programa radiofônico no ar. Sugestiva e sintomaticamente, com selo oficial, num país capitalista que ceva uma burocracia de tamanho socialista (o socialismo “real”, é claro).

O programa surgiu junto com a ditadura do Estado Novo, que durou 15 anos e tentou se tornar popular e aceita por intelectuais de cima para baixo. Quando necessário, comprando com vil metal adesões públicas (tradição renovada pelas leis rouanets espalhadas por aí).

Ontem, como ainda hoje, é assim que o Estado se movimenta na área cultural: como macaco em loja de louça. Faria melhor a todos e à saúde democrática do país evitando intervir na seara da criação humana, que requer um produto incompatível com a burocracia: a liberdade de expressão.

Por isso, recebo como um tremendo erro de visão de um legislador tão bem intencionado quanto mal informado a aprovação, pela câmara municipal de Belém, de uma lei chamada de Pinduca, que instituiu o “momento carimbó” na programação das emissoras locais de rádio.

As vozes mais autorizadas já criticaram a iniciativa do vereador Mauro Freitas, do PSDC. Antes de tudo, a lei será inócua: espontaneamente, a maioria das emissoras já veicula o carimbó, frequentemente numa margem acima dos 4% diários que o edil quer impor. Um eventual acréscimo nada significará de bom.

Mas poderá acarretar algo de ruim: a proliferação de executores de carimbó sem a mais elementar qualidade, que já não é grande num ritmo expressivo da cultura paraense, mas nada rico em melodia ou harmonia – muito pelo contrário. Com as bênçãos do poder público, que nunca d[a com uma mão sem tirar com a outra.

Já não basta a ditadura do sertanejo universitário, funk, brega et caterva e ainda vem o nobre vereador com essa dose de óleo de fígado de bacalhau para melhorar a cultura cabocla. Muito bem faria se defendesse o apoio e fomento da livre criação artística dos cidadãos que comem o pão que o diabo amassou para se manterem ativos, num ambiente de empobrecimento do gosto e depreciação da qualidade.

Discussão

4 comentários sobre “Cultura chapa branca

  1. A sintonização na Voz do Brasil é um rito diário no contexto da vida rural no Brasil, muitas vezes em aparelhos de rádio modulado na frequência AM.

    É de impressionar a identificação dos ouvintes, e me enquadro nesta audiência, ouvindo a dicção “cavernosa” do apresentador ao narrar os fatos do cotidiano político nacional.

    Agora, “aperfeiçoar” a trasmissão com o regionalismo do carimbó paraense, é para público seleto, apenas com o perfil do amazônida.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 24 de abril de 2017, 16:15
  2. Pois é..se o ilustre vereador quissesse fazer alguma coisa útil ele deveria propor uma lei para que as rádios tocassem pelo menos uns 40% do tempo em Música Popular Paraense ao invés de focalizar em somente um ritmo. Mesmo assim seria inútil, pois as rádios tocariam as músicas paraenses das 10 da noite as 5 da manhã.

    Lúcio, não me admira o empobrecimento do gosto e a depreciação da qualidade musical em Belém. A mesma coisa se aplica a politica. Basta ver estes entes desarmoniosos que enviamos para nos representar nas câmeras, assembléias e congressos.

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    Publicado por Jose Silva | 24 de abril de 2017, 18:11
  3. Sim, e fizeste bem em mencionar a brecha de mercado que se abre para o mal feito. Há carimbós que, mesmo tocados com uma única nota atonal de bandolim, são maravilhosos – porque feitos com dedicação, aprumo estético, tempo e afeto… Os materiais jogados na maioria das rádios hoje são absolutamente todos iguais, comprimidos, pobres na letra e na música, e representam bem o que fez a indústria cultural com a música no Pará e em todo o Brasil.

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    Publicado por Paloma Franca Amorim | 24 de abril de 2017, 20:29
    • Exatamente, Paloma. O que o poder público devia fazer era promover saraus, recitais e espetáculos populares nas praças públicas dos bairros e em locais fechados, depois de realizar festivais para a apresentação de novos valores diante de pessoal qualificado para apurar a qualidade. Oferecer à sociedade alternativas fora do circuito mediocremente comercial.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 24 de abril de 2017, 21:38

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