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Política

A história na chapa quente (110)

Foi-se o doutor Kayath

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 295, de dezembro de 2002)

Henry Checralla Kayath, que morreu no mês passado, não recebeu da imprensa de sua terra o necrológio de que era merecedor. Como de regra na contribuição da mídia local para a desmemória coletiva, os registros foram burocráticos. Não deram, às gerações atuais, um retrato verdadeiro do morto, capaz de submetê-lo a uma adequada avaliação histórica.

Quando comecei no jornalismo, no período imediatamente posterior ao golpe militar de 1964, uma das lendas correntes era sobre a genialidade do doutor Kayath. Só vim a conhecê-lo pessoalmente duas décadas depois das primeiras notícias que tive a respeito de sua atuação como médico, membro do velho PSD, baratista de última geração e, sucessivamente, secretário de Saúde e da Fazenda. Além de colher testemunhos orais, fui checar informações nas coleções de jornais e em alguns livros.

O doutor Kayath foi realmente uma pessoa excepcional, de uma inteligência privilegiada. Soube no Rio de Janeiro de sua fama como endocrinologista, dos melhores do país. Confrontei essa excepcional carreira de médico com sua atuação como homem público polêmico quando, no meio da última conversa em off com o governador Jader Barbalho, em fevereiro de 1984, disse-lhe que seria um erro trazer Kayath de volta ao Pará e torná-lo superintendente da Sudam.

Submetido à famigerada comissão de investigação do regime militar (a CGI), que tantas injustiças cometeu e, por via oblíqua, dessas injustiças tantas consagrações acabaram inadvertidamente promovendo, o doutor Kayath foi preso, submetido a processo e cassado.

Perdeu todo o poder que viera acumulando até os últimos dias do governo Aurélio do Carmo, em junho de 1964. Teve que recomeçar tudo no Rio. Recomeçou tão bem que logo era referência em clínica médica, conduzindo uma clínica de grande movimento.

Devolver-lhe poder no Pará seria jogar fora essa excelência profissional incontestável em troca de uma altamente contestável vocação para o serviço público. Disse ao governador Jader Barbalho que ele estava repetindo erro que seu então adversário, Jarbas Passarinho, cometeu na mesma Sudam.

Como havia criticado esses erros no passado, Jader não estaria desavisado se nomeasse Kayath para a Sudam. Seria erro consciente, agravado pela relação pessoal que o médico paraense tinha com o governador, administrando-lhe os negócios a partir do (e no) Rio de Janeiro.

A relação iria se deteriorar porque, na hora devida, Kayath pularia da nau de Jader para a de Hélio Gueiros. Estava ciente que seus rumos não seriam tão vastos quanto queria se continuasse sob o comando de Jader. Queria ser governador. Mas não poderia sê-lo sob o império de Jader, que planejava voltar ao governo depois do sucessor que fizera, o próprio Gueiros.

A volta que não devia

A posse do doutor Kayath na Sudam foi a mais concorrida de todas as que assisti (foram quase todas, por sinal). Auditório lotado, as pessoas se comprimiam do lado de fora. Todos suavam às bicas porque o ar condicionado não dava conta do ambiente.

Kayath, punido erradamente pelos militares, mas por motivos corretos, tinha ali a grande oportunidade de limpar seu nome e projetá-lo politicamente por sobre os escombros lodosos do baratismo. Parecia que ia fazê-lo.

Quando soube que havia introduzido a informática na Sudam, e particularmente no controverso DAI (Departamento de Administração de Incentivos, a caixa preta do órgão), fui ver a novidade. Apesar de saber da minha opinião a seu respeito, me recebeu com a fidalguia que era uma das suas marcas registradas.

Homem inteligente e meticuloso, abriu-me informações sobre os projetos incentivados na tela do seu computador, o primeiro – e, como vi depois a descobrir, perplexo e embasbacado – o único aparelho na Sudam, além dos que alimentavam o seu terminal a partir do DAI, em rede ponto a ponto, sem avenidas ou desvios para terceiros. Informação é poder, sabia o doutor Kayath.

Invenções perversas

Ele era verdadeiramente genial como o doutor Mabuse, o doutor Silvana ou o doutor Nô. Inventou o famoso “artigo 17 e meio”, um imaginoso mecanismo híbrido entre as cláusulas escritas de regulamentação da aplicação da renúncia fiscal da União em favor de empreendimentos que se instalavam na Amazônia.

Quem tinha muito imposto de renda a pagar aplicava a dedução (até o limite de 25% do imposto devido) no projeto próprio concebido para a região. Quem não tinha esse porte era obrigado a levar sua dedução ao fundo, que o aplicava conforme suas próprias regras.

O doutor Kayath admitiu a aplicação direta do chamado “projeto próprio”, que concentrava 80% dos recursos totais, desde que seu detentor deixasse no fundo – por ele informalmente criado – 30% do valor da aplicação. Com esse dinheiro o doutor Kayath prometia favorecer os projetos de pequeno e médio porte, minimizando o efeito concentrador do sistema, dando-lhe maior tintura democrática.

Invenção genial. Aplicação, nem tanto. O poder do qual o doutor Kayath se investiu se tornou tão grande que em questão de meses ele transformou um estaleiro que só existia no papel, a Ebal, no sétimo maior do Brasil. Bom para o Pará. Melhor ainda para os donos da empresa e suas extensões, incluindo filhos do governador Hélio Gueiros.

O esquema, além dos efeitos imediatos, iria ser a catapulta para colocar o doutor Kayath no trono do Palácio Lauro Sodré, que era a digna sede do governo até Jader Barbalho, no segundo mandato, entender de se esconder do povo na Granja do Icuí.

Mas se Kayath e Hélio Gueiros eram raposas felpudas, Jader não era jejuno na matéria, muitíssimo pelo contrário. Antecipando-se à evolução dos ex-quase-futuros-amigos-e-aliados, conseguiu convencer o chefe de Kayath, o ministro João Alves, a demiti-lo da superintendência da Sudam.

Com um detalhe à Maquiavel: a bem do serviço público. Era, do ponto de vista legal, uma arbitrariedade. Mas tornava o doutor Kayath imediatamente inelegível (ele que fosse buscar seus direitos na justiça, o que fez, cobrando 5 milhões de reais de indenização, mas sem convencer o julgador federal sobre o dano efetivamente causado à sua carreira e à sua reputação).

O golpe político

Kayath sentiu de pronto o golpe: quando entrou no palácio para organizar com Gueiros a inútil reação, estava furioso, descontrolado. Foi a única vez em que vi o sereno, cortês e sagaz doutor Kayath nessa situação. Não era do seu estilo dar troco, fiel à máxima de que bom cabrito não berra, age.

Jader acabou conseguindo voltar ao governo contra o desejo de Hélio e de Kayath. Os dois ex-correligionários estavam definitivamente postos para escanteio, mas ainda armaram armadilhas e mexeram pauzinhos para complicar a partir daí a vida de Jader, que não se tornou propriamente um paraíso desde então.

Gueiros haveria de se reconciliar com o ex-amigo, ao seu estilo e conforme o molde de ambos, o baratismo. Já Kayath tentou uma carreira solo, colocando à frente seu filho e agindo intensamente nos bastidores, onde se sentia em casa. Mas o Pará mudou muito, mesmo para um observador acurado da cena estadual, como era o doutor Kayath. Ele acabou ficando para trás.

A última vez que o vi, surpreendi-o escorado a uma das paredes do prédio do PTB, legenda que tomara imaginando que seria interlocutor inevitável no caminho para o poder, para qualquer dos grupos que tomasse essa direção.

Cumprimentei-o, ele respondeu um tanto sem jeito e segui em frente, sob o sol africano de uma da tarde. A rua Aristides Lobo estava quase deserta nesse momento. Se quisesse melhor cenário para registrar o momento, não o encontraria.

Como era bom e proveitoso conversar com o doutor Kayath, quando o tema não envolvia um interesse direto seu. Certamente ele teria refeito sua biografia se Jader Barbalho não lhe tivesse dado um instrumento efetivo de poder, como foi a superintendência da Sudam, mantendo-o como conselheiro distanciado, ainda que viesse mais frequentemente a Belém.

Talvez assim o cidadão Henry Checralla Kayath pudesse ter sido o que o doutor Gô não conseguiu ser para o Brasil, mesmo com a recontagem da história que seu quase filho adotivo, o jornalista Élio Gaspari, está tentando fazer  do papel do dono do arquivo, o general Golbery do Couto e Silva.

O doutor Kayath, numa terra de jornalismo pobre, nem isso teve. Talvez por isso tenha sido um acaso providencial ter morrido de súbito em Nova York, à distância do lugar que, à sua maneira, tanto amou.

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