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Política

A história na chapa quente (111)

Novo governo. Novo?

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 296, de janeiro de 2003)

O governo Simão Jatene começa sem rosto, sem identidade própria. Parece uma versão, embora com alguma modificação e ampliação, do governo Almir Gabriel, num terceiro mandato, que a legislação brasileira impossibilita. É uma transição para a volta ao poder do médico, que esteve à frente do executivo estadual por mais tempo contínuo (oito anos) em toda a história republicana paraense?

Ou uma continuidade, necessariamente impessoal, do modo híbrido de condução dos negócios públicos, o que – um tanto incorretamente – se poderia chamar de “a forma tucana de governar”, com o acompanhamento do molho de tucupi para dar o sabor local a essa fórmula, temperada no Brasil, a partir de receituário global, por sua excelência o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que também se vai pensando logo em voltar?

Aparentemente realimentada a ambiguidade, agora será mais difícil para os analistas saber quem influencia mais a quem: se Simão a Almir, ou Almir a Simão. Os “luas pretas” do PSDB paraense parecem uma avant-prémière do que poderá ser a clonagem da espécie humana: falam da mesma maneira, têm os mesmos cacoetes, comportam-se por igual.

Não se trata apenas de uma espécie de genética política. Simão Jatene não podia mesmo começar seu mandato imprimindo ou tentando imprimir uma marca própria. Primeiro, por não ter ainda sustentação política e administrativa para isso. Em segundo lugar, por querer evitar que alguém lhe lance a pecha de ingrato ou desleal.

O caso Jatene

O economista Simão Robson Jatene, 53 anos, não poderia sequer cultivar a veleidade de um dia ser governador sem dois fatores determinantes para que, desviando do seu caminho natural, seguisse, por um atalho fenomenal, diretamente para o topo do poder no Estado.

O primeiro fator foi sua condição de apparatchick, um aplicado tecnoburocrata, cumpridor das ordens superiores. O segundo fator foi o uso desregrado da máquina oficial para elegê-lo na disputa de outubro do ano passado, uso (e abuso) comandado pessoalmente pelo seu antecessor, chefe e correligionário.

Até 20 anos atrás a biografia de Jatene se dividia entre a academia, como professor simpático aos seus alunos, e a boemia, como um animador de reuniões sociais. Todos eram unânimes em considerá-lo “um bom camarada”, tanto ensinando quanto cantando e tocando.

Em 1983 ele estreou como um dos principais auxiliares do governador Jader Barbalho. Cumpriu o quadriênio da primeira gestão do atual deputado federal do PMDB, beneficiando-se da estrutura técnica que foi montada ao longo dos oito anos anteriores (de Aloysio Chaves ao segundo governo Alacid Nunes). Em nenhum momento atritou com o chefe, que, nesse período, começou a ter que lidar com acusações de corrupção, negócios obscuros e enriquecimento ilícito.

Jatene cumpriu tão bem as ordens recebidas que Jader Barbalho, nomeado ministro da reforma agrária pelo presidente José Sarney, carregou para Brasília seu ex-secretário de planejamento, entregando-lhe o controle do estratégico cadastro fundiário do Mirad.

Os caminhos dos dois só se separaram quando Jader passou para o Ministério da Previdência Social, confirmando já então como seu “segundo” o ex-secretário de transportes Antônio Brasil. A partir daí, Jatene também se tornaria um “segundo”, mas do senador Almir Gabriel, que, em 1989, seria candidato a vice-presidente da república na chapa de Mário Covas.

Um projeto de poder

A missão que Simão Jatene recebeu de Almir em 1995 foi montar uma engrenagem administrativa com drenagens por todo o território paraense, mas sob o rígido controle central do governador. Ela expressou o “centralismo democrático” de Almir Gabriel: liberdade para manifestações enquanto a questão está em aberto, mas unitarismo na hora da decisão.

Com o tempo de exercício do poder, a margem de liberdade se estreitou tanto que os interlocutores passaram a ter o direito de falar tudo, desde que esse “tudo” se harmonizasse com o pensamento do chefe. O que era uma equipe se transformou numa corte. Consolidada em torno de um rei republicano.

Como um monarca, Almir Gabriel escolheu Simão Jatene como seu sucessor e moveu mundos e fundos para que essa vontade fosse confirmada pelos eleitores. Conseguir esse resultado foi uma façanha. Seu significado pode ser calculado pelo risco a que se expuseram o candidato e o seu padrinho, ainda não eliminado de todo, de sofrerem cassação e punição pela justiça, por abuso de poder e crime eleitoral.

O secretariado anunciado por Simão Jatene reflete a delicada situação em que ele ainda se encontra. Como fiel quadro burocrático do governador (seja na versão Jader quanto na versão Almir), sua tarefa era atrair parceiros para a realização de obras, sem que os aliados exercessem qualquer forma de controle sobre o que estava sendo feito.

Por isso, era mais fácil falar com o governador do que com o secretário e mais provável obter um sim do chefe do que do seu auxiliar. A clientela se irritava com o “segundo” e isso favorecia o “primeiro”. Um método eficiente de realizar obras no Estado, servindo-se de sua estrutura clientelista e fisiológica, mas mantendo o poder de mando sobre ela.

O governador Simão Jatene, ao formar sua equipe, teve que acomodar interesses, acatar circunstâncias e procurar disfarçar sua fraqueza, que pode ser apenas uma fraqueza temporária ou tácita. Mexeu menos no secretariado anterior do que se imaginava. Em alguns casos trocou seis por meia dúzia, mas pode se dar mal nessa mudança formal (ou pode até ser que essa tenha sido essa a intenção oculta, maquiavélica: colocar determinados secretários em um contexto desfavorável para se livrar deles no futuro, talvez breve).

No que inovou em relação à equipe anterior, seu objetivo foi ampliar o universo da coligação política, que se estreitou muito sob o reinado de Gabriel. Com muito jeito, Jatene abriu espaço para o PMDB barbalhista e renovou sua reserva de engenhosidade absorvendo o derrotado candidato a senador Gerson Peres (uma atualização de Jorge Arbage, só que deslocada para uma delicada área técnica, o que poderá acarretar embaraços à administração estadual).

Ao petismo, anatematizado pelo antecessor, Jatene lançou uma proposta de entendimento. Sem excluir a via mais espinhosa do prefeito Edmilson Rodrigues, que poderá se tornar o grande adversário na disputa municipal do próximo ano, procurou um canal em Brasília, diretamente com a equipe presidencial ou através da bancada federal. Os adversários provavelmente não terão diante de si uma carranca como a do governo que expirou.

Equipe sem rosto

Por todos esses fatores e mais alguns, o governo que acaba de tomar posse pode não ser a expressão exata do novo chefe. Ainda é cedo para quantificar o grau de aproximação que essa equipe representa da vontade e do pensamento do governador recém-empossado. Mas bem cedo essa aproximação começará a ser feita, estabelecendo um parâmetro mais confiável de aferição do que se pode esperar desta requentada formação governamental.

Uma primeira avaliação, sujeita a tantos fatores ainda imponderáveis, mostra que Simão Jatene está começando um pouco abaixo do que foi o princípio dos oito anos de Almir Gabriel e aquém da situação que irá enfrentar no Estado. Seu desafio, portanto, é maior, apesar dessa festa em família que foi a transição (e que ainda é). Um tanto mais festiva do que devia ser, aliás.

Ainda não há uma marca pessoal de Simão Jatene no secretariado com o qual ele inicia o seu governo. Essa constatação indica falta de identidade da nova administração ou, pelo contrário, é sinal de que a continuidade será o traço forte desse “modo tucano de governar”? A resposta vai depender dos próximos passos do novo governo, sobre o qual paira a sombra de quem o viabilizou, o médico Almir Gabriel.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (111)

  1. Certa vez FHC afirmou que o PSDB precisava ter o cheiro do povo. Jatene, parece investir no cheiro da Arena Romana.

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    Publicado por Luiz Mário | 26 de abril de 2017, 18:08

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