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Política

A história na chapa quente (117)

Jatene e Edmilson reúnem.

Almir é que sai perdendo

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 300, de abril de 2003)

Depois de travarem sua batalha de Itararé, aquela que ficou famosa por não ter havido, o governador Simão Jatene, do PSDB, e o prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues, do PT, saíram do primeiro encontro mantido nos últimos anos entre as duas principais autoridades públicas no Estado, no dia 9.

Ao fim de quase quatro horas de conversa, cada um proclamou a própria vitória, embora ela pudesse ser comparada à de Pirro, aquele que ganhou mas não levou. No balanço de ganhos e perdas seria difícil identificar quem saiu realmente vencedor. O que estava em causa era pequeno, principalmente se comparado ao que foi deixado para depois ou continuou sua trajetória conflituosa.

A agenda da reaproximação entre os dois maiores adversários na atual arena política paraense foi preparada para render mais dividendos simbólicos do que lucros reais. Na verdade, foi um golpe de marketing.

Cada um dos lados reivindicou para si os méritos da pacificação entre as duas mais expressivas forças eleitorais. Quem tomou a iniciativa concreta foi o governador tucano, que propôs o encontro em ofício enviado ao Palácio Antônio Lemos, no dia 3.

Mas a assessoria do prefeito não deixou por menos. “A iniciativa do encontro partiu do prefeito, que manifestou informalmente e através da imprensa seu interesse em reunir com Simão Jatene ainda em janeiro”, assegurou um comunicado da Comus, a assessoria de comunicação social do município.

Independentemente do exame do DNA para identificar o pai da pacificação, a conta do prejuízo, que a rivalidade entre os dois grupos tem causado à população da capital. foi passada para o passivo do antecessor de Jatene, o seu correligionário Almir Gabriel. O histórico (ainda que anódino) encontro só aconteceu porque Jatene mudou a postura no Palácio dos Despachos.

Se lá, anteriormente, o nome do prefeito vermelho provocava urticárias só ao ser pronunciado, a admissão – seguida de viabilização – do diálogo é mérito do atual governador. Se fosse um sucessor linear de Almir Gabriel, Jatene teria mantido a guerrilha travada entre os dois grupos.

Busca por espaço

Por que a mudança? Certamente porque Simão Jatene está atrás de sua identidade. De criatura, quer se transformar em criador. Não pretende ser apenas um caudatário dos projetos de Almir Gabriel, o que o exporia desde já ao risco de um único mandato de governador. O caminho da reeleição ainda é longo, mas Jatene está mostrando disposição para chegar novamente ao ponto de largada em 2006.

As cenas gravadas durante a longa audiência, mostrando afabilidade entre os líderes dos dois grupos políticos, que antes se engalfinhavam por qualquer pretexto, incapazes de criar um canal de comunicação para servir ao interesse público, devem ter levado os paraenses a admitir que agora há um verdadeiro gestor da coisa pública no Palácio dos Despachos, sem ódios ou preconceitos.

A marca de Jatene passa a ser a do diálogo, da descontração, da verdadeira causa pública, acima das condicionantes partidárias ou ideológicas (sua presença ao lado do presidente Lula, dias depois, dá um reforço nacional a essa imagem).

Atrair Edmilson Rodrigues à sede do governo estadual também teve o propósito de privar o PT de uma bandeira de campanha para os palanques da eleição municipal do próximo ano. Seria muito cômodo aos petistas acusar os tucanos de devolver o poder aos carcomidos líderes do PMDB, à frente o deputado federal Jader Barbalho, fazendo a má imagem do ex-ministro contaminar as fileiras do PSDB.

Mas se Jatene recebeu Jader, também Edmilson já esteve em seu gabinete. Ora, se é para o bem de todos e a felicidade geral do Estado, por que excluir grupos e correntes? Afinal, o povo unido jamais será vencido (embora, é bem verdade, o povo se reduza às meias dúzias de gatos pingados de sempre, no comando do erário e da caneta de nomeação e demissão de funcionários).

Do encontro espalhafatoso do dia 9 podem vir a surgir resultados concretos – e até positivos – mas nada que vá além do nível cosmético, da perfumaria. Provavelmente quando chegar aos pontos nodais de divergência, a entente estanque. É claro que há uma salutar evolução quando a atitude intolerante é substituída pela postura civilizada. Esse avanço lustra ainda mais a imagem de Jatene em oposição à de Almir – e mesmo de Edmilson, como se verá na hora devida, a de bater chapas. Os arquivos, nesse momento, serão muito usados.

Ambiente mais arejado?

A sensação de ganho resulta menos da conquista efetiva do que da constatação sobre o estado de primitivismo que vinha caracterizando a relação entre os chefes de grupos políticos. Qualquer conquista passa a ser bem-vinda, mesmo que venha se revelar apenas fogo-fátuo. Ainda nessa perspectiva, o governo Jatene cria um contraste marcante em relação ao seu padrinho.

De imediato, sem precisar de maior consulta, o governador determinou à Cosanpa para viabilizar o túnel da Bandeira Branca, que deverá dar alguma sentido ao atual elevado, ainda uma decoração de pouco uso na área. A dedução imediata é de que se Almir Gabriel vetou esse complemento municipal, alegando que ele era incompatível com a adutora de água da cidade, ou Jatene está sendo irresponsável agora ou Almir foi apenas rabugento e raivinha antes.

Enquanto acumula munição no paiol de marketing para 2004, Jatene vai atirando mais nos antigos aliados do que nos adversários. Conquistada a cadeira de governador, ele parece estar convocando a todos, veteranos e neófitos, a refazer o compromisso de lealdade e subordinação, já agora à sua pessoa e não mais à do antecessor.

Talvez por isso é que enquanto um grupo vai se sentindo mais em casa, outro começa a perceber a perda de terreno. Sem falar que peemedebistas, pefelistas e até os “neo-verdes” do secretário José Carlos Lima estão mais confortáveis no poder estadual do que muito tucano, sobretudo os que estavam mais próximos a  Almir Gabriel.

Bem sintomático é o encurtamento das rédeas do amplo poder de que antes desfrutava o secretário de cultura, Paulo Chaves Fernandes, o favorito do rei que se foi. Quem passa pelo Parque da Residência já sente o forte cheiro de fritura, que não vem da bem abastecida cozinha do chef Alipinho, mas do vizinho gabinete do imperial secretário.

Ao que parece, ou ele se enquadra nos parâmetros do novo poder, ou seus dias de glória estarão contados. Paulo Chaves parece estar se tornando uma espécie (mal comparando) de São João Batista, à mercê dos caprichos de uma Salomé mutante, catando cabeças para cortar em favor da pedagogia do exemplo.

A temporada promete.

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (117)

  1. Pois é. O Jatene se descolou do Almir, mas Edmilson não conseguiu se descolar devei próprio. Jatene foi eleito governador duas vezes e Edmilson nunca mais ganhou eleição majoritária. No final de contas, quem saiu ganhando após todo esse período?

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    Publicado por José Silva | 2 de maio de 2017, 08:29

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