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Política

Temer estadista: uma fantasia?

O prestígio e a aprovação do presidente Michel Temer estão se aproximando do fundo do poço na expectativa do povo brasileiro. Talvez ele conclua seu mandato-tampão como o chefe da nação mais rejeitado da história republicana. Isso aparenta ser muito ruim. Mas pode ser muito bom.

Um populismo desbragado talvez conseguisse impedir essa queda vertiginosa de Temer. Fazendo tudo que é reivindicado pelas representações da sociedade, ele se manteria até o fim do mandato, era originalmente de Dilma Rousseff, até o seu afastamento pelo impeachment, e se credenciar a uma nova eleição. Mas o preço seria pesado demais – em dinheiro e em degradação ética e moral. Ele teria que comprar o povo, à falta de empatia, simpatia e imagem aceitável.

Neste momento, recuperar o índice que tinha quando substituiu compulsoriamente a presidente é praticamente impossível, ou simplesmente impossível. Estão fora do alcance do peemedebista os recursos populistas, por infrutíferos, inúteis. Ele agora se concentra em manter maioria no parlamento para conseguir aprovar as reformas que propôs.

Considerados os prós e os contras das medidas que pretende transformar em lei, é melhor que mantenha essa estratégia. Os projetos já foram bastante modificados para atenuar seu sentido mais drástico, moldado pelo catecismo conservador financeiro, monetário e fiscal. Talvez alguma coisa mais seja reformulada ainda durante a tramitação, antes da votação das reformas.

Mesmo que elas ainda contenham, ao fim do processo de teste e depuração, os erros que lhes são atribuídos, melhor estabelecer um novo momento de debate e reformulação a partir delas do que nos parâmetros atuais. As regras de hoje tornam insuportável o custo do fisiologismo, da acomodação, dos vícios históricos e da promiscuidade entre o Estado e a iniciativa privada e a estrutura política oficiosa ou pelega.

O melhor mesmo seria que, antes de passar a presidência da república ao seu sucessor, eleito democraticamente, em 2019, Temer fizesse as reformas em curso e, ao fim delas, convocasse um plebiscito para a instalação de uma assembleia nacional constituinte autônoma, independente, desvinculada do Congresso Nacional, com a missão de refazer o Brasil.

Rejeitado pela esmagadora maioria do povo brasileiro, Michel Temer garantiria sua perenidade histórica como o presidente da transição, fazendo o que considera necessário ser feito sem a busca de popularidade, porque impossível. Ele tem estofo para isso ou a hipótese de ser esse acidente histórico não passa de um vão sonho de verão, antes da tempestade?

Discussão

10 comentários sobre “Temer estadista: uma fantasia?

  1. Lendo sua análise dá a impressão que a razão de Temer enfrentar a impopularidade das suas reformas não seja o fato simples de estar com a corda no pescoço, de ser um réu em potencial. Parece que não é claro que Temer está sob chibata liberando verbas, aumentando salários, distribuindo cargos e dando todo tipo de vantagem pra qualquer um que o apoie e o ajude a manter na presidência. Não tem nada de estadismo aí. É desespero medíocre. E o lugar dele na história é esse mesmo de presidente medíocre e lacaio.

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    Publicado por walfredosouza | 2 de maio de 2017, 18:03
    • Pode ser que sim, pode ser que não. Sua previsão se confirmará se ele se perder nos meios que está usando, não indo além dessa negociação de sobrevivência em que toda classe política, com raríssimas exceções, está envolvida. Mas, pelas circunstâncias atuais, há uma pitada de possibilidade de surpresa no ar. No qual pode se desfazer como tudo que é sólido.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 2 de maio de 2017, 18:15
  2. Sociologia da reeleição + Constitucionalismo = ?

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    Publicado por Luiz Mário | 2 de maio de 2017, 18:11
  3. Lúcio,

    Em tempo de crise, se o líder se preocupar com a popularidade ele (ou ela) não faz nada, principalmente em um país conservador (de maus valores) como o Brasil.

    Se o Temer quer realmente ficar na história do Brasil, ele precisa concluir as reformas estruturais necessárias (política, previdência, trabalhista e fiscal) e deixar o governo, impopular, mas com um bom legado. Espero que ele focalize nessa visão.

    Não creio que chamar uma nova constituinte seria bom, pois o Brasil ainda está muito dividido.

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    Publicado por Jose Silva | 2 de maio de 2017, 18:52
  4. A corrupta elite e seus asseclas, os bandidos políticos profissionais, sempre foram contra a mobilização popular. Contra a POLÍTICA.

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    Publicado por Luiz Mário | 3 de maio de 2017, 10:03
  5. O debate aberto, amplo e irrestrito em praça pública, entre todos, para a formação da cidadania, meu caro José.

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    Publicado por Luiz Mário. | 3 de maio de 2017, 11:45
  6. “éthos civilizatório”.

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    Publicado por Luiz Mário. | 3 de maio de 2017, 11:59
  7. Acho que deixaste claro a possibilidade que a historia lhe deu (ou que ele construiu, no momento não importa) de ele ter se tornado um estadista ao ponto de deixar um legado e fazer reformas necessárias. Diferente dos demais políticos tradicionais de manter a imagem e cultivar a empatia preocupado com a popularidade na tradição populista e mexer em assuntos não tão populares muito mais como administrador público em mudanças necessárias.
    Tudo isso seria bem verdade se a popularidade dele estivesse em baixa apenas pela falta de empatia, os descontentes com a queda da presidente e as descontentes com as reformas. Mas as razões que minam a a popularidade, a idoneidade e a credibilidade do presidente são acusação de corrupção e relações promiscuas com empresários.
    O atual presidente age muito menos como estadista e muito mais como cacique politico de negociação de bastidores, em um toma lá da cá tradicional da politica brasileira. O que fica evidente tanto na composição do ministério quanto nas nomeação do setor jurídico quando são nomeados para o STF Alexandre de Moraes e para a chefia da Procuradoria Raquel Dodge visando muito mais os interesses políticos.
    O atual governo não consegue se movimentar com tanta folga e conseguir negociar independentemente razões de estado sem pedir um compromisso de sustentação do governo. O que pesa a tudo recai agora muito mais que necessidade de reformas de estado, mas a credibilidade do administrador e seu governo que estariam praticando crimes em atitudes nada republicanas.
    Apoiadores se esvaem fugindo das mão como a água que se tenta segurar com as mãos, todos em vistas a próximas eleições. O peso eleitoral fica muito maior aos tucanos que até pouco tempo defendiam veementemente o governo. As provas e ligações vão ficando mais fortes. A solidão do planalto vai ficando similar a de sua antecessora.
    Momentos de crise economia, associados a crises politicas, inflação, desemprego e o Brasil parece ter voltado no tempo meio a tantos protesto e tanta gente nas ruas para falar alguma coisa. O Brasil não ganhou muito em governo nos quatro anos de governo que parece não terminar, investigações, acusações de fatos que paralisam estes quatro anos a se completar como com a década, podemos chamar de governo perdido.
    Assim como o previsto, Temer realmente foi esvaindo seu capital politico com uma aprovação menor de todas, menos de uma dezena percentual, tão pequena quanto a de partidos nanicos que concorrem a presidência.

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    Publicado por Fabrício | 29 de junho de 2017, 14:30

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