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Segurança pública, Violência

A selvageria na periferia

A neta não entendia o assassinato do avô. Quem o matou queria apenas o único valor que havia na pobre casa em que ele morava, no violento (pleonasmo na periferia de Belém) bairro da Pratinha, em Icoaraci: o dinheiro da aposentadoria. Era fácil consegui-lo. A moradia, de madeira, era vulnerável. O idoso tinha 80 (ou 83) anos. Não resistiria.

Não foi poupado provavelmente porque conhecia seus assassinos (em dupla), que deviam morar na mesma área. Eles não se satisfizeram em roubar e matar, o cada vez mais constante crime de latrocínio. Deram 20 golpes de faca no pescoço de Francisco Leandro de Mendonça. Mais nove golpes na cabeça e em outras partes do corpo com um martelo. O cadáver do idoso ficou desfigurado.

A violência não tem qualquer proporção com o crime praticado. A invasão da casa e o roubo foram planejados com base em observações sistemáticas. Francisco tinha recebido o dinheiro da aposentadoria nesse mesmo dia. Sua casa não tinha objetos de valor. Tudo foi deixado intacto. Só o dinheiro foi levado.

Os dois homens agrediram a vítima para matá-la. Mas a sucessão de golpes de faca e martelo é característica de ira, ódio ou um sentimento qualquer de vingança e transtorno mental. Não seriam necessários para a execução de um crime planejado. A selvageria é a marca de uma violência sem limites, para a qual o mundo da lei e as regras da normalidade nada contam.

Os assassinos deixaram a faca e o martelo ao se retirarem. Sinal de arrogância e despreocupação. Acham-se impunes. Embora tenham praticado o crime pouco depois das duas horas da tarde de ontem, os vizinhos disseram à polícia, que chegou uma hora depois, nada terem ouvido, nada saberem. Têm medo de represália, certamente porque os criminosos são do bairro.

O desespero da neta expressa o sentimento de impotência dos parentes do morto. Recentemente sua esposa morreu. Ele quis continuar a viver sozinho. Todas as manhãs visitava a família, um dos destinos das suas caminhadas pela área, dos seus almoços na feira, da sua solidão, interrompida pela brutalidade. Ao se tornar rotineira, ela se torna também aceitável, se incorpora à rotina e mata – cada vez com maior desrespeito a tudo e a todos.

Sobreviver, sob essa lei escrita à base do medo, é um enorme desafio, uma imponderabilidade, cujo grau de gravidade os responsáveis pelo poder não conseguem mais avaliar.

Discussão

7 comentários sobre “A selvageria na periferia

  1. Quando um idoso é assassinado com requintes de crueldade e sadismo tal como aconteceu na Pratinha, a conclusão que pode se tirar é que a sociedade onde ele morava já está esgotada, brutalizada, violada e alienada. A selvageria é a nova norma. Viva a sociedade de Belém! Conseguimos enfim!

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    Publicado por Jose Silva | 3 de maio de 2017, 19:00
    • É muito triste acompanhar a vida das pessoas que só contam com si (e nem mais com elas mesmo, já que são submetidas ao mando das quadrilhas e criminosos pelo medo) para sobreviver. Belém se tornou uma cidade cruel, violenta, além de suja, maltratada e criminosamente omissa em relação aos dramas sociais e à incompetência e insensibilidade do poder público.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 3 de maio de 2017, 19:17
  2. É deprimente imaginar que é mais um caso que pode servir à diversão popular. Arena romana, a serviço da corrupta elite e dos bandidos políticos profissionais.

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    Publicado por Luiz Mário | 4 de maio de 2017, 09:17
  3. Mas reclamar do quê, se a Segurança Pública diz que mantém rondas na área? O crime organizado e o desorganizado merece uma organização e legislação marcial para ser contido, pois já ultrapassou todos os limites possíveis e imagináveis em uma sociedade moderna. Estamos pior que na época do bangue-bangue, certamente. Temos piratas, ratos d’água, quadrilhas a pés, de bicicletas, motorizadas e com armas poderosas. Nossa única defesa: não reaja e reze!

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    Publicado por JAB Viana | 4 de maio de 2017, 13:56
  4. Incredulidade é pouco p/ expressar tamanha barbárie. Morremos nós a cada dia diante desse festival de sadismo e tráfico alimentados por incompetência de planejamento, execução de políticas públicas. Dizer o quê, se a rede do tráfico está nas escolas, nas fronteiras permissivamente livres… “Beirute está morta”

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    Publicado por Amélia Oliveira | 10 de maio de 2017, 00:31

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