//
você está lendo...
Cultura, Política

O legado de Belchior

Um amigo me lembrou e- bem lembrado – sobre o melhor diagnóstico com fundo musical sobre a crise dos nossos dias brasileiros, da lavra de Belchior, enterrado ontem na terra natal, na Sobral dos Gomes, na Fortaleza dos Gomes & Jereissatti, no retorno involuntário do isolamento a que se permitiu nos pagos gaúchos, tão distintos do sertão cearense, tão distantes, tão reconfortadores.

Com vocês, Jornal Blues (Canção Leve de Escárnio e Maldizer), do grande Belchior. Uma homenagem deste blog – e um agradecimento também, por ele ter nos dado voz.

Nesta terra de doutores, magníficos reitores, leva-se a sério a comédia!

A musa-pomba do Espírito Santo – e não o bem comum! – inspira o bispo e o Governante.

Velhos católicos, políticos jovens, senhoras de idade média,

– sem pecado abaixo do Equador – fazem falta e inveja ao inferno de Dante.

Tão comum é tirar-se daqui qualquer coisa que eu também tiraria o chapéu à vontade.

Aos cidadãos respeitáveis, donos de nossas vidas, pais e patrões do país.

Mas em vez tiro o lenço… Não para enxugar, portuguesmente, a saudade…

Mas pra saudar num ciao! quem me expulsa de casa! Dar um “viva,

excelência!” E tapar o nariz!

Não, não quero contar vantagem, mas já passei fome com muita elegância.

E uns caras estranhos – ordens superiores! Já invadiram minha casa… Mas com muito respeito!

Diabo de profissão! Ganhar com o suor de meu gosto o bendito pão e o gim das crianças!

Noblesse oblige! Eu talvez seja o cara que você ama odiar, inimigo do peito!

Cá em casa quem morre se torna querido, tido e havido por justo e inocente.

Mas pode ir tirando o cavalo da chuva que eu não vou nessa de morrer só para agradar vocês.

Aluno mal comportado, pela regra da escola, devo ser reprovado… sumariamente

Mas não faz mal. Deixo os louros ao poeta! Lauras e o que me importa! Quero o meu dinheiro no fim do mês!

Mas que poeta idiota! Canções tão tocantes dão sempre uma nota raramente vulgar!

Atentado à Moral e aos Bons Costumes, lapido diamantes, não falsos brilhantes.

Kitsch elegante que te mente elegantemente! Oh! Abre alas que eu quero passar!

There’s no business like soul business! There’s no Political solution, meus caros estudantes!

Tá todo mundo comido, lavado, passado, bronzeado… Ora, muito obrigado!

Só eu não venço na vida, não ganho dinheiro, não pego mulheres, não faço sucesso!

O velho blues me diz que, ateu como eu, devo manter os modos e o estilo… Réu confesso!

Eles vão para a glória sem passar pela cama… Ou Jesus não me ama ou não

entendo nada do riscado!

Não toques esse disco! Não me beijes, por favor!

Meu professor de filosofia me dizia que eu viveria sempre adolescente

Hoje, qualquer mulher, assim que me abandona, já me tem por durão, mesmo sabendo que mente.

Desculpem! Infelizmente não sou à prova de som nem de amor… de amor…

de amor…de amor….de amor… de amor… de amor… de amor… de amor.

Discussão

2 comentários sobre “O legado de Belchior

  1. Parece que pegou moda cada um fazendo um comentário sobre Belchior e sua música e seu legado. Entre as tantas criticas achei o texto de Paloma muito bom, Mas deixo meu pequeno contato coma obra do cantor.
    Conheço pouco as músicas e Belchior, são exatamente essas. As Letras e as historias perdidas de uma década de intensa agitação. Uma critica não só a tradição politica, mas um obra mais extensa que se estendeu em uma critica a uma critica politica contra o governo ditatorial. A geração Beat e o rock que animavam, e ainda animam, os jovens que sonham sair pelo mundo trajando o famoso blusão de couro.
    E como nossos pais é exatamente isso, uma música eternizada pela letra. E não, não é só minha escola e em meu ano que obrigavam a cantar a música para os nossos pais, todos os anos e diferentes colégios entoavam o hino familiar. Lembro de um professor de português comentando de uma entrevista do cantor sobre essa música. Quando adultos comentavam a intensa agitação jovem falando que vivemos como nossos pais Belchior dizia que era o contrario, uma critica aos adultos que deixavam cair no comodismo querendo eternizar o sentimento jovem.
    Em outra aula de viria a música Tente Outra Vez falando do exílio e da saudade do Brasil, achei a letra genial e depois passei a ouvir a música. Mas a Palo Seco é realmente a música que marca. Lembro dela revivida pela voz dos Los Hermanos.
    Lembro que o Fantástico ainda fez uma reportagem atrás do cantor, o entrevistando e tal, não recordo muita coisa. Só acho feio algumas pessoas tentando diminuir a produção do artista depois de morto. Gostar é uma questão pessoal e as razões são muito mais subjetivas, e se as sua obra vai ou não se eternizar são questões que o tempo vai dizer.
    Quando vivo ainda ouvi alguns elogios, que considero mais sinceros que os de agora, sobre suas músicas sabendo contornar sua voz fanhosa. Depois de um tempo soube bem diferenciar essa questão de cantor e compositor, principalmente depois que ouvi a música Primeiros Erros na voz de Kiko Zambianqui, seu compositor. Já ouvi algumas pessoas dizerem que adoram as músicas de Chico Buarque, mas não gostarem de sua voz.

    Curtir

    Publicado por Fabrício | 5 de maio de 2017, 20:43

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: