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Imprensa

A história na chapa quente (126)

O grande repórter

Edwaldo Martins

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 305, de julho de 2003)

Edwaldo Martins, que morreu, aos 63 anos, no último dia 18, foi o maior colunista social da história da imprensa no Pará. O título não perderia força se o enfoque fosse ampliado um pouco mais: ele também foi um dos maiores colunistas do jornalismo paraense. Colunista que escreve qualquer tipo de coluna, não só a social. Mas foi tudo isso por nunca ter deixado de ser um bom repórter.

Edwaldo escrevia por amor, paixão, compulsão. Estava sempre atrás da última informação, do potin, da novidade. Queria saber mais, arrastando consigo seus leitores para a atualização com os faits-divers, o grand-monde, o último grito. Era uma curiosidade insaciável. Muitos outros são tão curiosos quanto ele foi. A diferença é que Edwaldo sabia como saciar essa imensa sede de saber, de estar “por dentro”.

Em primeiro lugar, por sua memória privilegiada. Podia-se testá-la dando-lhe o nome de uma pessoa da sociedade e pedindo-lhe para fornecer um perfil da personagem. Rapidamente Edwaldo descrevia a genealogia da indigitada, tecia elos e associações, arrematando com uma definição pessoal. Tudo de memória.

Outro teste frequente: perguntar se o jornalista se  lembrava qual era o nome daquela loja de discos que ficava ao lado daquele hotel em que ele havia se hospedado, anos atrás, em Nova York. Além da ficha da casa comercial, vinha o relato das visitas que o colunista havia feito, no ano tal, comprando tais discos, ao preço xis.

Edwaldo Martins lia com sofreguidão. No início, combinava jornais e revistas com livros, selecionados com critério. Aos poucos, foi se dedicando integralmente ao mundanismo e à conjuntura. Trazia pilhas de publicações das bancas, onde sua conta era massuda, e verificava as notícias com seus sensores de sintonia fina.

Recortava o que lhe interessava, reescrevia quando aproveitava o material e mandava em frente. Não precisava mais do papel: o cérebro já havia arquivado as informações. Amealhadas em todas as fontes possíveis, num contato direto (daí o permanente giro por tudo que fosse acontecimento) ou ao alcance do telefone, uma de suas armas de combate preferenciais.

Foi seguindo esse método que ele avançou na carreira jornalística. Sua primeira coluna, de página inteira, na Folha do Norte, no final dos anos 50, era uma tesoura-press de revistas e jornais sobre cinema, sua primeira paixão intelectual.

Passou para A Província do Pará com Elas são notícia, nova tesourada de notas sobre o mundo feminino, seu segundo foco de interesse. Quando começou a escrever Alegria, Alegria, coluna dedicada aos jovens, no espírito da inovação dos festivais de música, já era criador de textos.

Tinha estilo e conhecia a língua. Decidia com bom gosto e, quase sempre, com absoluto domínio dos temas. Não por leitura apenas: por viver intensamente cada dia e aproveitar ao máximo as oportunidades que a vida lhe oferecia.

Nenhum cavalo passou selado diante de Edwaldo sem que ele o montasse, até que a doença silenciosa e traiçoeira começou, literalmente, a comer-lhe os passos e a derrubá-lo na cama (não que não resistisse, com uma fúria espantosa).

As oportunidades mais fascinantes, para ele, eram as viagens, sua melhor universidade (a acadêmica ficou pelo meio, no pioneiro curso de economia da Universidade Federal do Pará). Monoglota formalmente, Didi (como era mais informalmente tratado) foi um exemplo em favor de um esperanto linguístico, da mecânica gnoseológica dos gestos, das expressões, da inventiva, da audácia da iniciativa. Fazia-se entendido em todos os lugares e entendia tudo o que queria saber, em qualquer parte do mundo por onde andou. E como andou.

Não como um turista apressado ou obtuso. Lia antes, se informava previamente e, ao voltar, estendia o conhecimento em papos com quem já tinha ido antes ou mais vezes, conversas que se prolongavam até nunca mais acabar graças a outra de suas muitas qualidades: saber receber visitas. Sua narrativa das excursões era uma benfazeja socialização do aprendizado. Edwaldo Martins foi um dos mais competentes turistas que o Pará já produziu. Muito mal aproveitado, por sinal.

Em tudo era um perfeccionista, um severo crítico da própria obra. Todo aprendiz de jornalismo (há os que não evoluem mesmo com décadas de militância) devia ter tido a oportunidade de acompanhar Edwaldo no fechamento de sua coluna.

Não há experiência de maior plenitude nas entranhas do jornalismo do que um fechamento de edição. Didi Martins revia com cuidado seu texto, datilografado com esmero e com a preocupação de não errar (nem mesmo nos esses e erres dos nomes próprios, a serem grafados com plena exatidão).

Corrigia com o cuidado de ser entendido pelo editor e pelo gráfico, didático até nesse momento, desenhando a letra, deixando pistas claras para o acompanhamento fácil. Depois, juntava aqueles papéis, que continham o conteúdo das matérias, aos seus títulos, fotos e legendas, organizava-os e, quando nada havia a retocar, mandava-os em frente. Uma obra de fino artesanato.

Ali estava uma coluna social moderna e cosmopolita, que podia honrar as páginas de qualquer jornal do mundo. Cidadão que se sentia bem em Nova York ou Paris, Tóquio ou Bogotá, São Paulo ou Rio de Janeiro, Edwaldo foi sempre o ratinho de Bragança, aculturado entre as beldades (uma das quais, hoje dama influente, foi sua boa amiga até o fim)  e senhores charmosos da Braz de Aguiar.

Ia para todos os lugares com a certeza de que voltaria à sua querida Belém, para continuar a criar personagens (sua obra-prima, nesse sentido, foi Francy Meira, cuidada como boneca de porcelana da coluna) e delimitar as fronteiras da sociedade, conforme as normas clássicas do colunismo social universal, de bom gosto, mesmo quando (e necessariamente) preconceituoso.

Lá fora, quebrava as arestas do provincianismo. Aqui, plantava as sementes da universalidade. Foi um embaixador plenipotenciário na língua universal, a da civilidade, da estética, do epicurismo, do savoir-faire, do “boa-pracismo”.

Didi Martins foi, acima de tudo, um cavalheiro, um gentleman ou, seria melhor dizê-lo, um gentil-homem. Dono de duas maravilhosas virtudes: a lealdade e a generosidade. Seus amigos eram seu maior patrimônio e isso ele fazia questão de comemorar todos os dias.

Sua preciosa agenda lhe permitia rodar por horas inteiras ao telefone, indo de A a Z, da direita à esquerda, do establishment ao underground. Armado de plena desenvoltura em todos os ambientes e com todos os personagens, voltava dessas caçadas com fardos de notícias, espalhadas aos montes na sua vasta coluna, escrita com pontualidade britânica.

Com esse passe, Edwaldo Martins transformou seu domicílio num sítio democrático, num ponto de convergência dos distintos e dos contrários, unindo o que parecia completamente oposto, juntando até mesmo os desavindos em torno de sua távola redonda (de frios, doces & salgados, naturalmente), do seu salão (em certos momentos derivando para o saloon, que ninguém é de ferro).

Por isso mesmo, o comunicado de sua morte foi assinado por pessoas que, de outro modo, seja na vida como na morte, não se uniriam nunca não fosse pelas graças desse bragantino emérito, verdadeiro cidadão do mundo, que nos deixou, órfãos de seu carinho, carentes de sua atenção, eternamente devedores de sua prolífica passagem por este mundo.

Perda

Ao contrário do que sugere o título e dizem os detratores, este raramente consegue ser um jornal pessoal. Seu redator solitário vê-se quase sempre esmagado pelas contingências da conjuntura. Quer se libertar das amarras do cotidiano, das injunções da história, mas não consegue. Tem que ser objetivo, precisa escrever sobre o que interessa, não sobre o que quer da forma como quer.

Assim escrevi o obituário de Edwaldo de Sousa Martins: centrado na obra do autor. Mas nesta nota gostaria de registrar apenas a dor pela perda do amigo de quase quatro décadas. Eu tinha 16 anos e ele 26 quando nos conhecemos, no lugar em que melhor nos sentimos urbi et orbi: uma redação de jornal.

Nunca, mas nunca mesmo, nossa amizade foi perturbada por um único incidente, um tom de voz mais alto, uma recriminação. Certamente essa trajetória olímpica é mérito do companheiro que morreu, tantos motivos ele podia ter tido para se irritar e não se irritou.

Deixo-lhe aqui, neste cantinho de jornal, que devia ser pessoal, a lágrima que não chorei por sua perda. Uma lágrima de papel, microscópica diante da enormidade da perda. Mas uma lágrima sentida. O que perdi com a morte de Edwaldo só o reencontro, numa eternidade na qual não acreditamos, sem dela desdenhar, poderá recompor.

É assim quando são únicas as pessoas queridas que perdemos. Perdemos um pouco de nós com elas e, com elas, adiantamos um pouco do que iremos perder, quando chegar a nossa vez.

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