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Cultura, Militares, Política

A história na chapa quente (128)

As indignidades de 1964:

uma história por escrever

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 306, de agosto de 2003)

O serviço de utilidade pública que o jornalista Oswaldo Coimbra prestou ao escrever Dom Alberto Ramos mandou prender seus padres (Editora Paka-Tatu, 2003, 280 páginas) foi reafirmar que não há temas proibidos, acima de qualquer suspeita ou além de questionamento.

Bastou uma consulta aos arquivos de jornais do passado para Coimbra se municiar de fatos polêmicos, reavivando a memória da sociedade paraense sobre acontecimentos relevantes, ainda carentes de esclarecimento. Necessidade de elucidação que deve ser mais importante do que tabus ou interditos proibitórios.

Mas o que é o mérito do livro de Coimbra é também sua grande deficiência: a pesquisa foi rápida demais, restrita a poucas fontes, insuficientemente checadas. O mérito da sua iniciativa seria muito maior se ele tivesse colocado uma interrogação no título do livro: Dom Alberto Ramos mandou prender seus padres? A inquirição estaria mais bem posta do que a afirmação.

A visão de frei Betto

A acusação ao homem que foi o arcebispo de Belém ao longo de 34 anos se baseia num testemunho, o de frei Betto. De passagem por Belém, entre março e abril de 1964, para participar de um congresso estudantil latino-americano, o então dirigente da Juventude Estudantil Católica (JEC), diz ter visto, no dia do golpe militar contra o presidente João Goulart, dom Alberto Ramos aparecer na tela da emissora de televisão (só havia uma, a TV Marajoara, dos Diários Associados).

Depois de agradecer a Nossa Senhora Aparecida e a Deus pelo golpe que teria salvado o Brasil do comunismo, “não satisfeito, o arcebispo apresenta uma lista completa de padres que deveriam ser presos porque eram comunistas ou suspeitos”.

Reconstituindo os fatos três décadas depois, o frade dominicano, hoje assessor da presidência da república, disse ter ficado tão chocado com o “espetáculo” que decidiu abandonar a sede do arcebispado, onde estava hospedado. O lugar, além disso, se tornara inseguro para quem não participava do golpe, não se beneficiara dele, não o apoiara ou estava “do outro lado”.

A afirmação do livro se fundamenta nesse testemunho, o único a declarar categoricamente que o arcebispo leu, diante das câmeras da televisão, uma lista com os nomes de padres a serem presos pelos militares, uma delação aberta e pusilânime feita pelo chefe da igreja católica no Pará.

Quantos nomes? Não há um número preciso, mas, por dedução, a partir de outras provas e evidências, Coimbra cita três nomes, os mesmos encontrados num diário pessoal do arcebispo: padres Aloísio da Silva Neno, que dirigia o MEB (Movimento Educacional de Base), Joaquim Diomar Lopes de Araújo, assistente espiritual de jovens estudantes, e Moisés Lindoso, assistente da juventude operária.

Dos três, apenas o padre Neno foi preso. Os outros, perseguidos em Belém, puderam se transferir para outros lugares, fora de sua base operacional de então. Os militares não teriam incorporado integralmente a lista de nomes de dom Alberto?

Se frei Betto viu e ouviu a entrevista do arcebispo, por que ninguém mais partilhou essa memória? Por que nenhum jornal, incluindo A Província do Pará, da mesma rede de comunicação da qual a TV Marajoara fazia parte, fez um único registro sobre a tal lista? Coimbra supõe que isso se deveu por censura ou autocensura, mas ambas as hipóteses são improváveis.

Primeiro porque a censura ainda não estava tão bem organizada naquele tempo. Agia intensamente mais na repressão do que na prevenção dos atos considerados subversivos. Em segundo lugar porque seria de interesse dos órgãos de imprensa, que aderiram quase em uníssono ao golpe (à exceção do Jornal do Dia, que se mantinha na expectativa de abertura política, com a qual seu proprietário, o deputado Armando Carneiro, se poderia favorecer), reproduzir as declarações de um bispo favorável aos novos donos do poder e condenatório aos “subversivos”.

As palavras de frei Betto podiam ser tomadas como pistas para a apuração dos fatos, mas não como fatos. O testemunho que ele prestou sobre a participação de frades dominicanos no assassinato de Carlos Marighella, cinco anos depois do episódio envolvendo d. Alberto, apesar de também categórico, foi contraditado (e contraditado em profundidade) por Jacob Gorender (ex-militante e respeitado intelectual de esquerda) no livro A Luta Armada no Brasil (aliás, não citado na bibliografia de Coimbra). Logo, é necessário ter alguma cautela com a memória de frei Betto, checando-a em outras fontes.

Betto é um excelente intelectual, mas suas verdades às vezes são enunciadas com fins utilitários. Sua versão sobre a preparação da emboscada da polícia a Marighella e o papel de seus amigos religiosos na operação teve a nítida intenção de encontrar uma saída honrosa para os dominicanos, mas Gorender, refazendo a interpretação dos fatos, apresentou uma perspectiva oposta e, no meu ponto de vista (também testemunha desses fatos), mais convincente.

O uso do poder

Pode ser louvável e admirável a posição participante de frei Betto na história, mas ela o deveria inibir de tentar ser, ao mesmo tempo, o historiador dos acontecimentos nos quais está envolvido. Ele viajou para Belém, em 1964, com uma passagem paga pelo Ministério da Educação e Cultura, chefiado pelo católico Paulo de Tarso Santos.

Não para um evento do MEC ou uma atividade relacionada às funções institucionais do ministério, ou mesmo à causa técnica da educação brasileira, mas para participar de um ato político, o congresso dos estudantes latino-americanos. Certamente Betto aceitou o bilhete, obtido pelo sociólogo Betinho, porque o movia a causa da transformação social e da revolução.

Com outros propósitos (ainda que muito menos nobres, ou nada nobres), essa mesma promiscuidade com o governo serviria aos novos detentores do poder e seria criticada por seus opositores, como Betto. Se tivesse chegado ao poder, o que mais frei Betto faria? O que está fazendo e fará agora que aconselha o presidente Lula ao pé do ouvido?

A propósito, é estranha a história que ele conta logo em seguida à acusação a dom Alberto. Diz que se apresentou no balcão da companhia aérea no aeroporto para viajar, mas não pôde embarcar porque todos os atos do governo anterior tinham sido cancelados, inclusive o bilhete aéreo que ele tinha na mão.

Ainda assim, a funcionária da empresa permitiu que o frade, sem poder ir diretamente para o Rio de Janeiro, como estava escrito, e a despeito do carimbo de cancelamento, fizesse outro voo, para Recife, onde buscou a proteção de outro bispo, dom Hélder Câmara, que tomou posse no cargo exatamente no dia de sua chegada à capital pernambucana.

Parece incrível que um ato tão grave de traição, como o que o arcebispo teria praticado, entregando seus subordinados (e protegidos em tese) aos carrascos, não tenha tido um único registro na imprensa e nenhum testemunho como o de frei Betto.

Um dia depois de ter praticado esse ato vil, dom Alberto foi entrevistado pela Folha do Norte e fez esta declaração, reproduzida na edição de 3 de abril de 1964: “Peçamos a Jesus, o Salvador que ilumine os vencedores da hora presente para restabelecerem a ordem sem violência nem vinganças mesquinhas”.

O padre “comunista”

É inegável o comportamento vacilante, inseguro ou até – em algum momento menos visível – covarde do arcebispo diante das violências que os militares estavam praticando contra o clero, as organizações religiosas e a comunidade católica que não se enquadravam nas regras da nova ordem. Daí o telegrama de protesto que o padre Aloísio Neno mandou para o arcebispo, depois de ter sido preso e, já solto, ver-se obrigado a deixar Belém.

Mas, no dia 8 de abril, dom Alberto declarou, através do jornal O Liberal, “nunca ter afirmado ser comunista seu irmão pe. Aloísio da Silva Neno”. Ou seja: estava em questão se dom Alberto havia ou não chamado o padre Neno de comunista. Mas não de haver pedido a prisão dele.

Ainda no auge da onda repressiva dos militares, dom Alberto incluiu no “Informativo Arquidiocesano”, publicado em 21 de abril, que controlava com mão de ferro, uma nota anunciando que a direção da Voz Católica, semanário editado pela prelazia de Macapá, “enviou telegramas ao Presidente da República e Ministro da Justiça, protestando contra a censura que o Governo do Território Federal do Amapá estabeleceu sobre aquele jornal, que sempre foi um paladino no combate ao comunismo”.

Um simples dedo-duro abrigaria essa nota, que equivale a uma solidariedade?

Dom Alberto era e foi, até sua morte, em 1991, um conservador, por vezes um direitista, um anticomunista feroz, mas não uma pessoa amoral, indigna, inescrupulosa, capaz de qualquer ato de agressão aos divergentes ou mesmo adversários, como pedir-lhes a prisão. Mesmo integrando a ala governista da Igreja, era tido à esquerda de alguns dos que se consideravam vencedores em 1964.

Num artigo escrito para a Folha do Norte, publicado no dia 28 de abril, Paulo de Tarso admite não compreender, “embora sentindo, é que um Arcebispo confesse que ignora o que sobre o avanço vermelho se passava no Paço Arquiepiscopal e no seu ‘Lar do Sacerdote’”.

Essa manifestação pública indica quantas pressões o arcebispo deve ter sofrido, de gente ainda mais à direita da sua posição, para que fosse além dos atos que indubitavelmente ele praticou, ao condenar posições de membros do clero, apoiar o golpe, exorcizar o governo anterior, abjurar toda a postura classificável de esquerdista ou subversiva.

Como um Hamlet

Como quase todas as principais autoridades eclesiásticas naquele momento no Brasil (dom Eugênio Salles, dom Vicente Scherer, dom Agnello Rossi), o arcebispo de Belém foi dúbio, contemporizador, negociador e, em certo sentido, traidor dos compromissos evangélicos e da lealdade que devia manter para com os perseguidos e violentados.

Acuado entre os que o queriam mais à direita e os que cobravam seu compromisso pastoral, dentro e fora da Igreja, dom Alberto precisou seguidamente defender-se naqueles negros e tristes tempos de intolerância, abuso e violência. Mas essas defesas, reproduzidas nos jornais da época, não autorizam a conclusão de Coimbra, segundo o qual “Se o jornal [A Província do Pará] diz que ele se defendeu de todas as maneiras, o jornal permite supor, inclusive, que ele delatou publicamente seus padres”.

Talvez esse tipo de suposição caiba num libelo acusatório. É inaceitável, contudo, numa pesquisa histórica ou numa investigação jornalística. Para alguns, chamar de comunista ou mandar prender pode ser a mesma coisa. Mas não deve ser assim para alguém que escreve um livro ou mesmo uma reportagem de jornal.

É preciso que cada afirmativa e, especialmente, cada acusação tenha sua base em fatos, seja em provas como em evidências muito fortes, passível de demonstração (e, naturalmente, contradita racional, lógica). Nenhuma delas permite a Oswaldo Coimbra afirmar que dom Alberto “mandou prender seus padres”.

Seu livro é quase totalmente baseado em jornais, principalmente de março e abril de 1964. Outras fontes de informações foram entrevistas com personagens da época e uma série de artigos publicados em 1979 em O Estado do Pará.

Essas matérias são provocativas e permitiram requentar temas que vinham sendo mantidos debaixo do tapete, mas elas foram escritas de memória pelo dono do jornal nesse período, o advogado Octávio Avertano Rocha. Sofreram, portanto, como se diz, um viés do autor, que contou vários contos acrescentando seus pontos (ou vice-versa).

Além disso, a pesquisa de Coimbra parece se ressentir da pressa. Há erros e equívocos flagrantes. Na página 170, por exemplo, ele estranha que A Província do Pará haja quebrado o “sigilo em que sempre eram mantidas as reuniões do clero”, noticiando tudo o que trataram os padres reunidos com dom Alberto no dia 7 de abril e, assim, fazendo o jogo do arcebispo.

Na página 171, entretanto, ele reproduz matéria de outro jornal, O Estado do Pará, sobre o mesmo assunto e com as mesmas informações. Se houve quebra do sigilo (o que seria o “furo”, no jargão jornalístico), os dois jornais a praticaram.

Na reprodução da conversa, aliás, o jornal noticia que dom Alberto atribuiu a prisão de padre Neno a ele ter acompanhado estudantes estrangeiros, participantes do mesmo congresso que atraiu frei Betto, sob patrocínio do MEC. Os estudantes, necessitados de vistos para viajar, estavam sendo perseguidos pelos militares, quando receberam a ajuda de padre Neno.

A pressa (ou desatenção) fez com que Coimbra chegasse a escrever: “A transferência de Benedito [Monteiro] para Belém deu-se numa canoa”. Benedito, o mais visado político naquela época, foi preso nas matas de Alenquer, a uns 900 ou mil quilômetros de Belém.

Essas e outras lacunas não tiram os méritos do livro de Oswaldo Coimbra. Ele faz a sociedade se lembrar de que a avaliação da história é contínua e abrange vivos e mortos. Muitos ficaram indignados com o ataque do jornalista ataque a dom Alberto quando o arcebispo já não pode se defender.

Pilatos já virou pó há muitos séculos e continua a provocar apoios e repulsas todos os dias. A orelha de Adão permanece a arder, ainda que seja metaforicamente. Mas quando os vivos são incapazes de se defender, os mortos lhes servem de proteção.

Todos saíram em defesa de dom Alberto, mas ninguém se lembrou de cobrar, dos ainda vivos, o ato de indignidade que cometeram quando, deputados estaduais, cassaram um colega de parlamento (o mesmo Benedito Monteiro) por motivo torpe, em sessão especial convocada às pressas, com enredo previamente acertado. Com direito até a ajuda de custo extra, que dobrou o valor do salário mensal. Ou 18 milhões de cruzeiros. Bem mais do que os 30 dinheiros de Judas.

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