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Cidades, Cultura

O memorial do livro

Em 1967 convenci meu pai, Elias Pinto, prefeito de Santarém, a criar uma faculdade de filosofia. Ele chegou a lançar a pedra fundamental da faculdade, que ficaria em frente ao seminário S.Pio X, na atual rodovia Santarém-Cuiabá. Ali, com 17 anos, fiz o meu primeiro discurso público, nervoso e gaguejante.

Depois levei papai a visitar a biblioteca de Machado Coelho, abrigada numa bela casa na Assis de Vasconcelos, ao lado da praça da República. Já então era uma biblioteca valiosa, formada com sabedoria e bom gosto pelo velho mestre.

Acertou-se o preço e a transferência dos livros para Santarém. Mas aí começou a crise política que acabaria por afastar papai da prefeitura, levando à cassação do seu mandato (conquistado pela oposição ao regime militar, na maior vitória eleitoral da história do município) e à perda dos seus direitos políticos. A faculdade de filosofia é hoje apenas a pedra fundamental perdida no terreno – e como dói.

A biblioteca de Inocêncio Machado Coelho está hoje no Fórum Landi, na praça do Carmo, na Cidade Velha. Ao lado dos livros da filha, Célia, esposa do físico José Maria Filardo Bassalo, falecida recentemente, e do compadre e grande amigo de todos, o professor Francisco Paulo do Nascimento Mendes, o “Ratinho”, orientador e formador de gerações. Tudo por doação generosa da família Machado Coelho.

São milhares de livros mantidos num grande salão à espera dos recursos para serem higienizados, preparados e catalogados, juntando-se às bibliotecas da professora Maria Anunciada Chaves, Clóvis Moraes Rego, Raimundo Jinkings e Baim Klautau. Quando der bom tempo, eles integrarão o Memorial do Livro, nos fundos do Museu de Arte Sacra, que foi o colégio dos jesuítas e o seminário da arquidiocese.

A data para o início das atividades desse memorial poderia ser abreviada se o Fórum Landi contasse com o apoio necessário para acelerar o tratamento dos livros e a preparação do local que os abrigará, na melhor localização de Belém para essa finalidade: ao lado do Forte do Castelo, onde a cidade começou, depois de uns 400 anos que passaram sem ninguém quase perceber, em 2016.

É uma iniciativa importante, que reconciliará a já velha capital dos paraenses com o seu passado de destruição de livros. A história das grandes e preciosas bibliotecas particulares que se formaram na cidade é de matar de dor. Milhares e milhares de livros foram atirados à lixeira, queimados, abandonados ou mal abrigados ao longo de décadas e séculos. Talvez publicações raríssimas se tenham perdido para sempre.

Quem se dispõe a reuni-las, agrupá-las e preservá-las, como pretende o Fórum Landi, devia receber prioridade do poder público, de entidades ou empresas particulares.Principalmente porque as bibliotecas serão mantidas tal como foram montadas por seus donos, sem se dispersar por bibliotecas gerais.

Com um mínimo de organização, os livros poderão ser consultados nas estantes originais, num espaço criado por seus proprietários (e maiores consultores) e recriado pelos organizadores do memorial. Poderão ler as observações feitas, dedicatórias, recortes encaixados nas páginas e tudo mais, o melhor que uma biblioteca de autor pode proporcionar a quem realmente gosta de livros.

Hoje, após visitar o Fórum Landi, tendo Flávio Nassar como cicerone, faço um apelo, principalmente à Universidade Federal do Pará, que está com a biblioteca do advogado Clóvis Ferro Costa (e sua Brasiliana completa), mais a do advogado, economista e juiz Roberto Santos, além de ter sob sua responsabilidade a preparação do prédio que irá abrigar o memorial: uma vez aprovados (e se aprovados) os projetos, colocá-los em execução o mais breve possível, reunindo todas as bibliotecas no mesmo espaço.

Além de ser uma iniciativa inovadora, vai mostrar aos belenenses que sua capital nunca foi inculta (e já não é bela). Foi e continua a ser muito maltratada. Mas não tanto se empreendimentos como esse se materializarem, oferecidos à consulta pública.

Discussão

17 comentários sobre “O memorial do livro

  1. Tristeza foi uma pessoa, segundo reportagem da Tv Liberal, jogou vário livros na rua em vez de doá-los.

    Curtido por 1 pessoa

    Publicado por Everaldo | 16 de maio de 2017, 14:49
  2. E o sistema de bibliotecas públicas de Belém? Funciona? A população usa? Porque a prefeitura não absorve todas estas bibliotecas orfãs?

    Curtido por 1 pessoa

    Publicado por Jose Silva | 16 de maio de 2017, 16:42
  3. Torcida p/ q este projeto seja executado. O livro nos redime a ignorância.
    Também gostaria que a Prefeitura de Belém nos informasse sobre o projeto restauração do Chalé Tavernard de Icoaracy (?!). A biblioteca funciona?!

    Curtido por 1 pessoa

    Publicado por Amélia Oliveira | 16 de maio de 2017, 17:24
  4. O Fórum Landi, de rico material cultural, pouco conhecido pela grande parte do publico, localizado em uma periculosa área do antigo centro de Belém, integra grandes projetos. Na realidade estaria ligado a estudos maiores sobre o arquiteto e projetos arquitetônicos de Belém. Nele estariam estudos como os da reforma da casa rosada, coordenado por Flávio Nassar e outros trabalhos, local onde recentemente foi apresentado a tese de doutorado por Elna Trindade sobre Antonio Landi. No auditório já foram apresentados diversas teses de doutoramento, as iconografias catalogadas pela tese de doutoramento da professora Elna – uma extensa e muito boa amostra de imagens -, exposição de fotografias, bem como diversas outras atividades, integrando então projetos para conhecer o espaço e a cultura da cidade, como o Projeto Circular.

    Maquete.
    O Fórum abriga um pretensioso projeto de realizar a maquete dos bairros de Belém da Campina e da Cidade Velha de edificações novas e antigas. O projeto ajuda a ter uma noção da arquitetura dos prédios, bem como sua posição espacial na cidade. Idealizado pelo arquiteto Aldo Urbanati e acompanhado por Maria Beatriz.

    Moronguetá e o memorial do livro
    A biblioteca presente no Fórum faz parte do projeto Moronguetá que tem a intenção de criar um memorial documental, uma biblioteca formada de um rico acervo documental formado pela doação de importantes pesquisadores. A bibliotecária responsável é Elisângela Costa que fala sobre a importância das aquisições bibliográficas e os objetivos do projeto.
    “A doação de Bibliotecas particulares há anos vem sendo utilizada para desenvolver o acervo de bibliotecas de inúmeras instituições de ensino superior; entretanto na contemporaneidade as doações vem dividindo opiniões. Alguns bibliotecários não as aceitam por considerar que as obras ofertadas são defasadas e alheias à bibliografia básica do MEC, sendo apontados inclusive como itens de baixa da qualidade do acervo caso ele seja composto apenas por esta modalidade de aquisição (MAIRE apud WETZEL, 2012); outros ao contrário julgam que este tipo de material enriquece e diversifica o acervo, pois permite que obras que estão fora de catálogo editorial possam ser incorporadas. Del Corral (2005, p. 10) defende a doação de livros a bibliotecas e vê nesta ‘uma de nossas modalidades de intervenção específicas para reforçar a demanda de leitura e formar novos leitores.”
    (…)
    “Para organizar os Acervos das Bibliotecas Particulares foram desenvolvidas as seguintes ações:
    1°) Coleta dos materiais bibliográficos e dos objetos pessoais doados ao Memorial;
    2°) Seleção das obras: atividade que consiste em verificar o estado de conservação das obras, isolando os materiais que não estão em bom estado de conservação para posterior restauração;
    3°) Identificação da tipologia documental, geralmente os acervos são compostos por: Livros, periódicos,
    dicionários, enciclopédias, biografias, relatórios, teses, etc.
    4°) Inventário das coleções.”
    Posteriormente serão aplicados tratamentos técnicos biblioteconômicos o projeto integrará voluntários e estudantes de graduação e de cursos técnicos de biblioteconomia para o trabalho no espaço. Com cinco anos de projeto com a doação de dez personalidades importantes de Belém o projeto possui um acervo documental de mais de vinte e seis mil livros. Nas doações também estão presentes diversos outros documentos históricos além de livros, como escritos, anotações, mapas, fotos, fitas, revistas de época com importantes coleções em rico material.
    Com todas essas importantes informações o projeto sofreu inúmeros percalços e não possui somente flores. Problemas estruturais do prédio que apresentou goteiras, alguns vazamentos, acondicionamento inadequado, falta pessoas, de espaço, proteção, equipamentos para higienização, restauro ou mesmo falta de prateleiras foram alguns entre os inúmeros problemas. A necessidade de modificação de determinadas obras de local acabou por altera sua organização, bem como alguns outros problemas técnicos. Acervos como o de Annunciada Chaves foi exposto a diversos intempéries até chegar ao projeto.
    Bem como determinados livros que ficaram temporariamente em um espaço da universidade na rua treze de maio. Durante uma reforma não foram devidamente protegidos e muitos sofreram sérios danos. Esse caso levou a processo de responsabilização por danos ao acervo em brigas buscando cobrar atitude dos responsáveis por tais fatos ocorridos. A universidade alega que Flávio Nassar, responsável pelo acervo foi alertado sobre os riscos, não tomou providencias e nem efetuou a transferência antes da realização da reforma.
    Tal fato se estende a fatores políticos em uma briga maior entre o coordenador do projeto e a universidade. Nassar, de personalidade forte entre amizades e inimizades , acabou por deixar a Pro-reitoria de Relações Internacionais e confrontou a nova administração, que já afirma não reconhecer o espaço como projeto fazendo parte da instituição Universidade Federal do Pará. Tal fato acaba por desvincular recursos, servidores e uma diversa gama de apoio que poderia ser dado em prol de um interesse maior para valorização da cultura e de riqueza documental.
    O projeto ainda precisa de muito trabalho para organizar todo material antes de colocar tudo isso totalmente a serviço e divulgado ao grande público. Bem como precisa de muito apoio e recursos para fazer isso do modo mais apropriado. Apesar das muitas limitações e das dificuldades o espaço abre as portas e procura auxiliar as diferentes pesquisadores que o procuram permitindo o contato com estes importantes documentos.

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    Publicado por Fabrício | 16 de maio de 2017, 22:54
    • Há tão poucas pessoas fazendo tão pouco diante dos desafios da preservação das fontes da cultura que picuinhas e brigas políticas deviam ser deixadas de lado em benefício do bem comum. Ainda que todos os personagens dos esforços de proteção do patrimônio cultural se unissem, os problemas ainda seriam épicos. Prevalecendo divergências laterais, o desafio é imenso.
      Obrigado pela aula, Fabrício.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 17 de maio de 2017, 08:25
    • Fabrício,
      Talvez não o conheça pessoalmente, mas muito obrigado pelas palavras de elogio ao trabalho do Fórum Landi da UFPA.
      No entanto gostaria que me permitisse fazer a seguinte observação, quando escreves:
      “A universidade alega que Flávio Nassar, responsável pelo acervo foi alertado sobre os riscos, não tomou providencias e nem efetuou a transferência antes da realização da reforma.”
      Acredito que foi induzido a erro.
      ISTO NÃO É VERDADEIRO.
      Em processo protocolado sob o número 23073.026045/2016-21, no dia 4 de outubro de 2016 solicitei ao então pró-reitor Cláudio Szlafsztein a retomada da obra do imóvel localizado na Travessa Três de Maio 1456, onde estavam abrigadas as coleções Ferro Costa e Roberto Santos.
      Concluí assim minha manifestação “O prédio apresentava problemas estruturais no telhado”…”A obra foi iniciada mas”… depois…”Foi paralisada. Desconhecemos os motivos da paralisação da obra, mas o fato concreto é que os livros encaixotados e guardados na Três de Maio, estão em perigo (em negrito no original). Sabemos que há um saldo que há um saldo de recursos já destinados para a conclusão da obra, na ordem de R$34.000,00.
      Por isso solicito que determine a imediata retomada da obra para que este patrimônio público não seja destruído.”
      A resposta do pró-reitor foi: “A Prointer em 15/09/2016 solicitou à PROAD providências para dar prosseguimento imediato à reforma do forro da casa sito na Rua 3 de Maio. Em 26/09/2016 a PROAD informou da impossibilidade de atendimento da solicitação, em razão da indisponibilidade de limite orçamentário.
      Novamente adverti o novo pró-reitor Horácio Schineider: “informamos que não se trata de solicitação de nova verba. Os recursos necessários… já se encontram alocados e empenhados.”
      “Por isso nossa sugestão e apelo é que seja autorizada a imediata retomada da obra, que reitero, está devidamente empenhada”.
      Por fim alertamos que se faça em caráter de urgência evitando que o período chuvoso ameace os acervos históricos abrigados no prédio.”
      O Pró-Reitor de relações internacionais solicitou providências à Proad.
      Em 17 de novembro 2016 a servidora Alexandra Ferreira solicitou manifestação do fiscal da obra.
      Quando retomaram as obras foram dirigidas para finalidade diversa da anteriormente programada e do jeito desastrado que foram feitas, colocando o patrimônio em risco.
      Era apenas isto que desejava acrescentar.

      Flávio Sidrim Nassar
      91-98116-9412

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      Publicado por Flávio Nassar | 17 de maio de 2017, 10:52
      • Que confusão burocrática…Se não conseguem conseguem fazer uma operação simples como essa, imagina alguma coisa mais complexa? É por isso que nossas universidades públicas não progridem.

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        Publicado por Jose Silva | 17 de maio de 2017, 16:05
    • Nos conhecemos de vista, de comprimentos e formalidades em eventos. Amigos de Facebook, dentro das relações liquidas citadas por Bauman. Visitei algumas vezes o local e tive algumas conversas rápidas com as pessoas que por lá trabalham. Admirador do trabalho produzidos e dos inúmeros projetos realizados, como os inúmeros na faculdade de Arquitetura e alguns bons escritos. Lúcio não é muito diferente, falo com ele em algumas andanças em sebos por Belém ou alguma palestra.
      Peço desculpas pelo comentário, tidos como não verdadeiros, de algumas questões importantes falar que tentei explicar sem saber afundo do que se tratava. Mesmo antes, tive receio de falar, em comentário anterior em outra postagem, pois não tinha um entendimento profundo do que ocorreu no caso, acabei por falar sobre o que eu soube em comentários incompletos do que as pessoas diziam. O restante encontrei em documentos públicos que comentavam sobre o assunto, principalmente no pequeno artigo que fala de um projeto com um o amor incondicional ao livro, à memoria e à perpetuação do estudo e da pesquisa amazônidas, “O PROJETO MEMORIAL DO LIVRO MORONGUÊTÁ E O HERCÚLEO RESGATE DA MEMÓRIA INTELECTUAL PARAOARA”, de autoria de Elisângela, quem conversei e conheci um pouco do belo trabalho.
      Peço perdão novamente, fico a disposição para fazer correções aos comentários, se forem possíveis, e agradeço os esclarecimentos. Principalmente que pelo fato de ser um instituição aberta ao público e que deve ser aberta e transparente. Acho necessárias tais explicações principalmente pelo fato de não serem encontradas publicamente.
      E parabenizo o Lúcio por ajudar a divulgar ao publico o espaço e este importante projeto, que atualmente precisa de muito apoio, e que o publico deve usufruir desta riqueza. Ao Flávio pelo importante projeto e a se dispor aos esclarecimentos.

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      Publicado por Fabrício | 17 de maio de 2017, 18:27
  5. Caro Lúcio,
    Obrigado pela visita, e pela força .
    Além de jornalista és bibliófilo e conheces bem a causa dos livros.
    Para seguirmos, precisamos de toda ajuda e apoio.

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    Publicado por Flávio Nassar | 17 de maio de 2017, 00:19
  6. Caro Fabrício, se poderes, “aparece” no Fórum Landi para batermos um papo e tomar um café.

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    Publicado por Flávio Nassar | 17 de maio de 2017, 23:23
  7. Que bacana a inciativa do Memorial do Livro …o interesse e reflexões que provocou nos internautas .E saber que aos 17 você já estava querendo criar uma faculdade de filosofia no Tapajós , é demais !
    O Roberto Santos foi ou não foi sociólogo de formação ?

    Curtido por 1 pessoa

    Publicado por Marly Silva | 18 de maio de 2017, 01:52

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