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Índios, Colonização

Porfírio, o sertanista

José Porfirio Fontenele de Carvalho tinha 70 anos no sábado, 13, quando um câncer o matou. Ele era um sertanista, talvez o último dos grandes sertanistas da Funai. Certamente o derradeiro integrante de uma geração que trocou as cidades pela selva amazônica.

Nos seus confins, esses homens inteligentes, corajosos, destemidos e, na maioria das vezes, cultos, de esquerda, tiveram que participar de uma das maiores guerras internas da história recente do Brasil.

Eles surgiam na vanguarda de frentes humanas que avançavam sobre áreas pioneiras da Amazônia. Sua missão era “pacificar” os índios isolados que fossem alcançados pelas grandes rodovias de penetração.

Por “amansar” entenda-se submeter e, se necessário, expulsar aqueles grupos humanos, que estavam instalados em locais ermos no “sertão” havia centenas de anos. Mas que deviam sair dali para serem substituídos por núcleos urbanos, estradas, hidrelétricas, fazendas, mineradoras – o “progresso”, enfim.

A história desse avanço é trágica e sangrenta. Provocou crises de consciência, ira e revolta de sertanistas. Eles imaginavam poder conciliar o mundo primitivo ao novo universo dominante. Vários deles se desiludiram e abandonaram seus ofícios.

Outros acabaram se sujeitando a tentar remediar o mal, fazendo o que era possível e se encharcando de álcool para anestesiar seus conflitos pessoais.

Um dos poucos que conseguiu resultado significativo foi Porfírio Carvalho. Dentro da FUNAI e, depois, de fora da fundação, conseguiu ajudar dois grupos indígenas a sobreviver. Mais do que isso, a se expandir – diante de duas hidrelétricas e outras obras agressivas.

Na divisa de Roraima com o Amazonas, ao lado dos waimiri-atroari, que enfrentavam a BR-174, de Manaus a Boa Vista, a mineradora de cassiterita Paranapanema, na mina do Pitinga, e a hidrelétrica de Balbina, no rio deles, o Uatumã. No Pará, com os parakanã, deslocados de sua área tradicional pela quarta maior hidrelétrica do mundo, a de Tucuruí, no rio Tocantins.

Porfírio introduziu formas de organização dos índios, que lhes permitiu dialogar no mesmo nível dos brancos, sem perder sua própria identidade, de tal modo a não ser um estorvo para as obras, mas se precavendo contra os seus efeitos destruidores.

Tão eficientemente que suas populações, reduzidas pelas chacinas dos pioneiros e sua presença desarticuladora, cresceram muito, atingindo um tamanho expressivo. Os waimiri, de menos de 400 indivíduos, para os quase dois mil atuais.

Acompanhei Porfírio Carvalho em vários momentos pela Amazônia. Depois perdemos o contato. Certa vez, eu participava de um seminário sobre Tucuruí no Centur, enfrentando a Eletronorte, minha algoz constante.

Eu estava na mesa de debates quando o sertanista foi chamado para apresentar o projeto da estatal dedicado aos Parakanã. Porfírio se levantou e veio andando meio sem jeito, encabulado. Ele ia ficar do “outro lado”. Eu me levantei e lhe dei um forte abraço. Ele descontraiu, se livrando de qualquer culpa por estar ao lado da empresa que eu tanto criticava, e apresentou seu notável projeto.

Depois almoçamos e fomos relaxar num sebo que havia na Benjamin Constant, o Arqueólogo. No meio dos livros, pudemos conversar à vontade até escurecer e a loja fechar. Ele se foi e nunca mais o vi. Vejo-o agora, nesta notícia, com sua dignidade, humildade e amor aos índios. Personagem de um passado que vai se desfazendo à sombra da amnésia coletiva.

Discussão

4 comentários sobre “Porfírio, o sertanista

  1. Triste. Porfírio foi um dos grandes sertanistas. Ele sempre ficou muito incomodado de ter que trabalhar para a Eletronorte com o intuito de proteger os Parakanã. Para ele, os fins justificaram os meios.

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    Publicado por Jose Silva | 16 de maio de 2017, 16:41
  2. Tão simbólico, quanto possível, ao desmonte da FUNAI.

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    Publicado por Amélia Oliveira | 16 de maio de 2017, 17:36
  3. Um grande amigo, que fará muita falta.

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    Publicado por Claudio Emidio Silva | 20 de maio de 2017, 10:24

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