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Imprensa

A história na chapa quente (219)

A Amazônia no país:

um imenso vácuo

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 307, de agosto de 2003. Trata de uma fraude cometida contra mim por alguém que mandou um texto, como se o autor fosse Lúcio Flávio Pinto, dialogou com a editoria do Observatório da Imprensa e me colocou na kafkiana situação de não poder convencer os editores que o tal artigo não era meu, embora eu o dissesse com ênfase. Poderei reproduzir os artigos anteriores que relatam a fraude cibernética, uma das primeiras do mundo virtual, se interessar aos leitores.)

Quando cheguei para trabalhar na sede de O Estado de S. Paulo, em 1972, o dono do jornal, Júlio Mesquita Neto, era tido na redação como uma espécie de bicho-papão. Por circunstância, consegui acesso ao temido “aquário” (o já então tradicional gabinete envidraçado do chefe, limítrofe com a redação). Numa das conversas com o “doutor Júlio”, como o tratavam, lhe sugeri criar a primeira sucursal regionalizada do jornal na Amazônia. Essa sucursal, instalada em Belém, comandaria uma rede de correspondentes em toda a região.

Mas não se limitaria a ser uma intermediária de São Paulo: teria poder decisório sobre as matérias amazônicas a serem transmitidas para a sede. Se a editoria aprovasse uma matéria de 50 linhas, por exemplo, essas 50 linhas seriam redigidas em Belém, no enquadramento da pauta, e assim seriam editadas, sem modificação.

Eu pensava que, dessa forma, estaríamos inoculando o antídoto ao exotismo e à ignorância em relação a uma região que ocupa 60% do território nacional, dois dos males da cobertura jornalística sobre a Amazônia.

O “doutor Júlio” avalizou o projeto. Na época, ninguém podia escrever sobre a Amazônia nem se declarar bem informado sobre a região sem consultar as páginas do Estadão (a bibliografia de então é pródiga tanto em citações quanto em deliberadas omissões sobre sua fonte).

A folha dos Mesquitas não era apenas o mais bem informado jornal do país. Sua preciosa rede de sucursais e correspondentes, montada naquele início da década de 70 (graças, sobretudo, ao tirocínio de Raul Martins Bastos), lhe permitia ser mais bem informado do que o próprio governo.

Infelizmente, boa parte dessas informações não chegava ao grande público. Em época de regime militar ditatorial, o censor na redação era uma extensão do Big Brother a ter acesso privilegiado ao melhor que a máquina informativa do Estadão produzia. Uma parte da história expurgada desse período repousa no arquivo de material censurado do jornal, infelizmente sem merecer a devida atenção dos pesquisadores.

No final de 1974 voltei para Belém com a missão, fortalecida pelo apoio do chefe, de implantar a sucursal da Amazônia. Montamos o escritório central, fizemos um seminário com os contratados e instalamos correspondentes em todas as capitais da região, com o luxo de termos um representante em Marabá e outro em Santarém, quando os jornais da capital ignoravam o interior. Começamos com enorme entusiasmo o que pretendia ser uma nova etapa do jornalismo.

Paramos logo depois. Não só por causa de atritos com a burocracia da empresa e alguns dos donos da opinião do jornal, mas porque a imprensa brasileira entrou num período de crise e descida da ladeira, que explodiria na malfadada greve de 1979.

Ainda esperei que o “doutor Júlio” pudesse retomar o interesse pelo projeto, mas quando vi que a janela aberta para a Amazônia em São Paulo se fechou, peguei o boné e me mandei. Foi então, em 1989, que desisti da possibilidade de uma cobertura decente da Amazônia pela grande imprensa brasileira.

Um sobrinho do “doutor Júlio”, Rodrigo Mesquita, reabriu-me a janela no final de 2000, embora uma abertura bem mais acanhada. Durante dois anos escrevi uma coluna, a “Carta da Amazônia”, no portal da Agência Estado, à qual ele deu vida e envergadura em anos de dedicado trabalho.

Expressei os pontos de vista da região sobre questões que muitas vezes são analisadas e decididas pelos seus tutores, seus gurus, bwanas ou algozes, que costumam se apresentar como porta-vozes amazônicos credenciados. A janela voltou a se fechar, batida por mais uma ventania de crise no grande jornal paulista, no início deste ano. E retornei ao meu posto de outsider neste jornalzinho.

Conto a história como ilustração de gratidão ao pronunciamento solitário da senadora Ana Júlia Carepa sobre a tentativa de fraude de que fui vítima. Faço-o não porque a parlamentar me tenha feito um favor pessoal com essa manifestação.

Na verdade, ela saiu em defesa da Amazônia. Seja através do jornalismo como nos embates mais diretamente relacionados ao poder decisório, a Amazônia é muito citada e em seu nome muita gente tem subido as escadas da notoriedade.

Mas nós, no fundo, nada contamos. Zero depois da vírgula por detrás da retórica e da propaganda, somos ignorados pelo centro do poder, seja no Palácio do Planalto, onde a equipe presidencial produz suas normas à distância da região (mais do que uma distância geográfica, um vácuo intelectual e emocional), seja na redação de uma revista eletrônica.

Chamado a considerar fraude que ameaça um profissional, que também é colaborador da revista, o editor, do alto de sua majestade, pergunta (talvez com um latino quid) pelas credenciais do interpelante. Ah, um jornalista do Norte? Sim, do distante, desconhecido, primitivo e selvagem Norte. Ora, pois: não interessa.

Volta-se então o gênio, que circunstancialmente atende pelo nome de Alberto Dines, a se dedicar ao que interessa: seu artigo semanal para o glamouroso (ainda que arqueologicamente) Jornal do Brasil. E, como no poema de Bertolt Brecht, faz-se de novo o silêncio na floresta. Só não completo porque Ana Júlia falou.

Obrigado, Ana. Em nome de nossa imensa e desvalida Amazônia, da qual sou apenas um instrumento ou uma decorrência. Suas palavras renovam um compromisso que teimamos em cumprir: o de existirmos.

Senadora fala sobre a fraude

 A senadora Ana Júlia Carepa, do PT do Pará, quebrou o silêncio geral ao se manifestar, na sessão do Senado do dia 6, sobre a tentativa de fraude de que fui vítima (ver, a propósito, Jornal Pessoal 305 e 306). O pronunciamento da senadora foi o seguinte:

Gostaria de fazer um breve registro em desagravo ao jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto, em razão do constrangimento que lhe foi imposto pelo site Observatório a Imprensa, que chegou a atribuir ao jornalista a autoria de uma matéria que foi criminosamente enviada à publicação em seu nome, mesmo após este ter enfaticamente comunicado ao site que não era o autor do escrito, tendo na verdade, sido vítima de uma falsificação de seu e-mail.

O jornalista Lúcio Flávio Pinto é um dos mais proeminentes profissionais da imprensa brasileira, em particular da Amazônia. Editor de uma experiência singular no jornalismo local, quinzenalmente há dezesseis anos publica o Jornal Pessoal, espaço de debate e informação sobre temas candentes que surgem na maior região do Brasil, tendo sido já por diversas vezes premiado, inclusive internacionalmente.

No início de julho de 2003, o Observatório da Imprensa recebeu um e-mail em nome do jornalista, no qual o remetente prometia fazer denúncias sobre a conduta de jornalistas atuantes na grande imprensa nacional, os quais supostamente agiriam como o malfadado repórter do  New York Times, Jayson Blair, recentemente desmascarado por fraudar o conteúdo de diversas matérias.

Ao tomar conhecimento do fato, o jornalista Lúcio Flávio Pinto imediatamente comunicou a fraude ao editor de plantão do Observatório da Imprensa, declarando peremptoriamente não ser o autor da reportagem. Para sua surpresa, recebeu a seguinte  resposta do editor–assistente Luiz Antônio Magalhães, a qual reproduzo sua parte principal :

“O caso do artigo enviado na semana passada será tema de debate na próxima edição do Observatório. Nós investigamos o caso – inclusive rastreando o e-mail do Yahoo que foi usado para passar a matéria – e temos evidências suficiente para concluir que o texto é realmente de sua autoria. O Klester e o Cláudio Ângelo deverão escrever a respeito, o Dines comentará o episódio e Marinilda e eu escreveremos um texto contando a história da investigação posterior. Pretendemos dar conhecimento a você do material produzido por nós e abrir espaço para sua defesa.”

Pode-se imaginar a situação kafkaneana e inédita na qual se encontrou o jornalista, acusado de produzir uma matéria onde, por sua vez, acusaria diversos profissionais da imprensa de fraudarem suas reportagens e, mesmo diante de sua veemente negativa, alertando inclusive que o e-mail enviado ao Observatório não era o que usualmente utilizava, mas sim um criado no site  Yahoo, via-se diante da possibilidade da malfada falsificação ser publicada com sua assinatura.

Felizmente, a matéria não foi ao ar, tendo sido descoberto a tempo que o e-mail de onde provira fora criado em São Paulo, configurando claramente a fraude perpetrada contra o jornalista Lúcio Flávio Pinto.

Apesar disso, não é admissível a postura inicial do Observatório da Imprensa, admitindo como verídica uma reportagem, mesmo diante da negativa veemente de seu suposto autor, e ameaçando veiculá-la contra a vontade deste.

Há sempre de se lembrar, especialmente em um momento como o atual, onde têm surgido no Brasil e no mundo evidentes sinais de intimidação à liberdade de imprensa que, um dos principais esteios desta garantia constitucional é a credibilidade e responsabilidade dos meios de comunicação, em praticar um jornalismo plural e sustentado em fatos e dados sólidos, evitando a todo custo o sensacionalismo fácil.

Era o que tinha a dizer.

Discussão

4 comentários sobre “A história na chapa quente (219)

  1. E aí Lucio? Descobriram o autor da fraude? Acho que parece ser óbvio quem é o principal suspeito, não?

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    Publicado por José Silva | 17 de maio de 2017, 09:26
  2. Avante, Lúcio! Mal sabe o Plangloss ao tucupi que o mesmo é o combustível para tua caminhada.

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    Publicado por Luiz Mário | 17 de maio de 2017, 09:45

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