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Justiça, Política

Ação parcial do ministro

O ministro Luis Edson Fachin recebeu o pedido da Procuradoria Geral da República e mandou submeter o presidente da república a inquérito judicial. Supostamente por dois crimes: obstrução à justiça e corrupção ativa.

É um remédio amargo, mas sua prescrição está correta. É preciso iniciar imediatamente a instrução de um processo que pode vir a resultar na denúncia do presidente e na instauração de uma ação criminal contra ele.

Estranhamente, porém, o relator da Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal não quebrou o sigilo do material que os irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, entregaram para obter a delação premiada (ao que parece, não em Curitiba, mas em Brasília). O segredo de justiça já não se sustenta. O jornalista Lauro Jardim, de O Globo, vazou o conteúdo das gravações que Joesley fez de suas conversas com Michel Temer e Aécio Neves.

O jornalista já admitiu que não teve acesso a áudios e vídeos da delação. Recebeu transcrições – evidentemente, de quem teve acesso ao material primário, mas não o leiberou. A fonte é de tal confiabilidade que o próprio jornal O Globo endossou o que poderia ser apenas nota de coluna, a especialidade de Jardim, e se tornou uma das reportagens de maior impacto da imprensa brasileira nos últimos tempos.

O tanto de lacunas, falhas e vácuos na história da delação literalmente a jato dos irmãos Batista exige muito cuidado, ponderação, rigor e honestidade por parte – principalmente – da imprensa para não se transformar em instrumento do que já se desenha no cenário do planalto como um jogo de poder. Jogo sem regras sancionadas, no qual vale tudo.

A quebra do sigilo imposto às gravações seria até uma exigência da consciência nacional. Se o que foi anunciado se comprovar, daqui a pouco Miguel Temer falará à nação. Talvez só fale se tiver acesso a todo material que o incrimina letalmente.

Se fizer isso, porém, perderá naquilo que ele é mais destro: o jogo político. Político astuto que é, os observadores o acusarão de esperar ver as provas para tentar criar uma versão protetora, um álibi. Com esse discurso podia sair chamuscado, mas não torrado pelo fogo que foi disparado contra ele.

Se o relator da Lava-Jato agisse em relação às gravações com a mesma rapidez com que respondeu ao pedido de Rodrigo Janot (apontado por alguns como o possível autor do vazamento para Lauro Jardim), talvez, ao invés de se defender junto à nação, Michel Temer já apresentasse sua renúncia, abreviando e aliviando a hemorragia em que o país se acha neste momento.

Por que uma das mãos do ministro agiu de um modo e a outra de forma divergente? É uma das perguntas que se pode fazer num dia em que não faltaram e continuarão a não faltar as perguntas – junto com suspeitas e temores.

Discussão

7 comentários sobre “Ação parcial do ministro

  1. Seria algo como os bons costumes?

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    Publicado por Luiz Mário | 18 de maio de 2017, 18:44
  2. Bom. Dilma também foi pega em um tal áudio ao ter Lula como investigado. Nessa ouve grande discussão sobre a ilegalidade da divulgação de uma conversa presidencial e o tal direito a ‘segurança nacional’.
    Desta vez tudo foi feito sem divulgação, sendo remetido diretamente ao Supremo, como manda a lei. Mas as acusações são graves e o povo tem fome. Teria Cunha ainda grande importância, peça chave, na politica que valeria tanto o silencio? Dizia uma vez um acusado no mensalão que o silencio valia muito mais que a declaração de qualquer segredo, se tanto esconde é por que o que não se quer vir a tona deve ser muito grave mesmo. O silencio foi só meio. Não sabemos nem da metade de tudo que se passa entre os segredos políticos ainda. Essa é a realidade.
    Gravações, tropeços e espionagens parecem ser a regra politica aqui e lá fora. Anos atras Nixon caia por espionagem e as gravações dele vinham a público. o sistema de comunicação News of the World sofreu acusações de espionagem e derrubou o empresario da comunicação Rupert Murdoch por espionagem. Hillary acusada de usar e-mail pessoal para assuntos secretos. Agora Trump com acusações varias e até a gravação dos encontros os russos prometem revelar.

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    Publicado por Fabrício | 19 de maio de 2017, 01:30
  3. Acho mais engraçado quando as pessoas, a partir de uma delação de Emílio Odebrecht, falou que a tal mídia é hipócrita, sempre soube de tudo. Isso serve mais pra teoria da conspiração. Algum jornalista próximo de tudo isso devia saber de tudo e se calado, como muitos que participavam da sangria aos cofres públicos. O que não é correto, e honesto, dizer que todos sabiam. Quem seriam esses? Teria sido algum jornalista censurado ao tentar falar sobre isso? Claro que muito do que se diz precisam de provas, o que as vezes é difícil. Mas muito se dá através de blogs, que muitos jornalistas tem mais uma atuação independente hoje. Acho difícil toda essa culpabilização da grande mídia. Mas vale o registro. Uma vez que muitos utilizam desse argumento. Até o Paulo Henrique Amorim faz um vídeo dizendo que é impossível a tal democracia com a presença de uma ‘Globo’.

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    Publicado por Fabrício | 19 de maio de 2017, 01:42
  4. Viva as redes sociais!

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    Publicado por Luiz Mário | 19 de maio de 2017, 08:58

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