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Justiça, Política

Boi na linha

Na delação premiada, os dirigentes da JBS apresentaram provas de que o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, não só recolhia dinheiro de caixa 2 para distribuir a petistas como fazia as vezes de advogado administrativo do grupo econômico junto ao BNDES.

O presidente do banco, Luciano Coutinho, atrapalhava as transações na muito conhecida operação de criar dificuldades para vender facilidades. Quando Mantega estava ao lado dele, Coutinho era solícito.

Chamados a comentar, ontem, as revelações de ontem de O Globo sobre as declarações feitas confidencialmente pelos donos da empresa, os irmãos Joesley e Wesley Batista, porta-vozes da JBS declararam que todos os financiamentos obtidos junto ao Banco de Desenvolvimento Econômico e Social seguiram as regras legais, sem favorecimento.

A contradição explícita leva a uma perplexidade. Quem realmente fala a verdade: a banda podre da corporação, que entregou Mantega (e também Temer, mas numa relação mais indireta nesse caso), ou a suposta banda saudável, que, mesmo diante das informações divulgadas pelos seus donos, afirma o contrário?

Nos últimos 10 anos, entre 2007 e 2016, o patrimônio da JBS se multiplicou 17 vezes. Dobrou, portanto, a cada sete meses, em média. Pela capacidade empreendedora dos seus dirigentes? Por uma eficiente aplicação do dinheiro de empréstimos, especialmente os do BNDES, com juros inferiores aos mais baixos do mercado?

Se os irmãos Batista seguiram o exemplo do pai, que era um notável trabalhador, adicionaram a essa herança um dos mais predadores comportamentos empresariais, um dos piores padrões pessoais de ação. Não surpreende que estejam envolvidos em tantas histórias de corrupção e em processos judiciais.

Com a excepcional delação premiada que negociaram diretamente com a Procuradoria Geral da República e o ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, abriram portas páginas para escapar da difícil situação em que estavam. Receavam ser presos a qualquer momento. Agora quase se tornaram heróis.

Segundo as informações sobre o acordo feito, pagarão multa de 225 milhões de reais, o suficiente para não serem submetidos a prisão, nem a domiciliar, e sequer usarem tornozeleiras eletrônicas. A liberdade mais barata de toda Lava-Jato.

A pretexto de que foram ameaçados de morte, receberam autorização  do ministro Fachin para viajar para Nova York, onde Joesley, o principal dos irmãos, tem apartamento, na caríssima 5ª Avenida. Talvez o objetivo tenha sido manter a negociação com a justiça americana para um acordo de leniência, protegendo-se do abalo das revelações, e manter o lançamento de novas ações na bolsa de valores de NY.

Acostumados a pagar propinas a autoridades públicas para conseguir favores especiais, com os quais puderam se tornar um dos maiores produtores de alimentos do mundo, os irmãos se tornaram mafiosos de primeira linha.

Para eles, não há limites, como ficou claro nas gravações secretas que realizaram e na acumulação de provas contra os corruptos, por enquanto privilégio de um único jornal, da Polícia Federal, da Procuradoria Geral da República e de um ministro do STF.

Agora chegou a vez de a sociedade ficar ao par de tudo. Certamente, ao fim, haverá de saudar o serviço prestado pela JBS. Mas não a ponto de livrar os seus donos do mesmo castigo que deve ser aplicado a todos, corruptos e, principalmente, corruptores.

Sem isso, a história será de péssima moral.

Discussão

6 comentários sobre “Boi na linha

  1. Padrão Nacional: S. R.

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    Publicado por Luiz Mário | 18 de maio de 2017, 09:21
  2. Lucio,

    Muito bem explicado. É por isso que a caixa-preta do BNDES precisa ser aberta. Somente assim descobriremos de verdade a magnitude dos problemas que a Liga Unida dos Ladrões Amigos causou nesses últimos anos.

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    Publicado por José Silva | 18 de maio de 2017, 10:03
  3. “Alvorada Voraz”

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    Publicado por Luiz Mário | 18 de maio de 2017, 10:34
  4. Lúcio , ainda terás que ler/escrever muito . Ainda existe muita sujeira debaixo do tapete. Temos lido sobre Eva (a corruptora) , muito sobre Adão ( o corruptor) e as maçãs (dinheiro). Onde está a serpente? Levantar todo o tapete é preciso… Paz e saúde.

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    Publicado por valdemiro | 18 de maio de 2017, 10:43
  5. Sociologia da reeleição: apesar dos pesares, é inegável que a chegada do PT ao governo – e não ao poder -, traduziu o que é a cultura da corrupção.

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    Publicado por Luiz Mário | 18 de maio de 2017, 10:47

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