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Justiça, Política

O novo partido

Michel Temer acaba de informar ao povo brasileiro que solicitou – formal e oficialmente – ao Supremo Tribunal Federal acesso à delação premiada dos irmãos Joelsey e Wesley Batista, da JBS, para ter conhecimento completo do que é acusado. Até 20 minutos atrás, quando começou o seu pronunciamento no Palácio do Planalto, em Brasília, não tivera resposta alguma.

Para poder dimensionar adequadamente a gravidade dessa informação ainda faltam alguns dados. Como: a que horas Temer enviou o seu pedido? Mandou-o à presidente da corte, Cármen Lúcia, ou ao relator da Lava-Jato, Edson Fachin? Qual a forma que usou para fazê-lo chegar à corte? Houve protocolo? Temer fez algum contato telefônico com o destinatário da mensagem? Recebeu algum comprovante da entrega do documento?

Mesmo sem estes dados, não se pode minimizar a importância da revelação feita pelo presidente. Respeitado jurista de direito constitucional, professor da principal faculdade de direito do país, Temer sabia da gravidade da situação. Por isso abriu com ela o seu discurso, o melhor que fez em um ano de mandato.

É impossível não lhe dar razão. Afinal, o STF deixou de respeitar a boa convivência entre os poderes da república? Não se sensibiliza pelo dano causado ao país pela divulgação de uma conversa na qual a principal autoridade pública autoriza a compra do silêncio de um dos maiores réus de corrupção no Brasil, o ex-deputado federal Eduardo Cunha, para se proteger, ao seu esquema e ao seu partido de uma delação que prometia ser arrasadora?

Por enquanto, os donos da opinião pública são os que, autorizados pelo domínio desse vazamento, dizem que o presidente obstruiu a justiça, mandou pagar um cala-boca pela segunda maior empresa de alimentos do mundo, a brasileira JBS (que se tornou multinacional sob os governos do PT), e mandou favorecê-la nos escaninhos da administração federal, endossand0 um esquema de corrupção mais amplo.

Na curta explicação que deu, Temer garantiu que não patrocinou o silêncio de Cunha, nada tem a temer da parte dele se ele fizer delação premiada, recebeu Joesley num encontro privado para tratar de uma questão pessoal que ele o empresário apresentaria, a pedido dele mesmo, Joelsen, que requereu a audiência, e foi gravado clandestinamente de tal maneira a servir aos propósitos do empresário.

O presidente teria que renunciar ao mandato se a divulgação da íntegra do áudio da gravação fosse feita antes do seu pronunciamento. E cairá daqui a pouco se, logo depois de voltar a se recolher à reclusão no Palácio do Planalto, o material for entregue à imprensa e mostrar que Temer simplesmente mentiu.

Nem uma solução de composição foi tentada: o presidente renunciaria e a investigação seguiria um curso mais lento, a fim de poupar o país de tanto desgaste. O silêncio do Supremo ao pedido do chefe do poder executivo federal é um absurdo. Será porque a corte já tem o seu veredito pronto contra Temer, sabendo-o um corrupto vulgar?

Ou pode ser que o STF, Temer com culpa provada ou não, o quer fora do Palácio do Planalto, para que o desacreditado Congresso Nacional, no turbilhão de um sinistro em processo, que atingirá a todos, escolha um presidente biônico para o Brasil. Por ser escolhido pela via indireta, dos senadores e deputados federais, sobre dois terços deles pesando suspeitas ou provas de corrupção, pode ser uma pessoa ao gosto da elite, da cúpula da elite brasileira, sem precisar disputar os votos do povo?

Tudo é possível. Ator convincente ou não, raposa felpuda ou cidadão ferido na sua dignidade pessoal, Temer saiu de cena, hoje, garantindo que não renunciará, é inocente, vai continuar a executar seu programa de recuperação da economia e quer um esclarecimento amplo, profundo e imediato da acusação que os empresários lhe fizeram.

Deixou no ar uma mensagem de advertência: o novo partido no poder é o STF.

Discussão

10 comentários sobre “O novo partido

  1. Lúcio, quando foi que o PMDB saiu de cena para que esse novo partido tomasse o protagonismo?
    Um homem com a moral ferida? Feridos estão os brasileiros e brasileiras tratados como joguetes nesse circo de bastidores do congresso. Temer diz que não vai renunciar e é aplaudido por meia dúzia de gatos pingados que certamente alimentam interesses personalistas em relação ao mandato deste que é um vampiro do poder, como todos os outros que se julgam aptos a remontar sob o seu ponto de vista, erudito, burguês, oligárquico, uma nação popular arruinada ao longo de séculos e séculos.
    Não renunciar só atesta a sua covardia política e humana. Assim como foram tantos os atos covardes de Lula, Dilma, FHC e dessa mídia nefasta que pauta a verdade pelo lucro e pelo capital.

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    Publicado por Paloma Franca Amorim | 18 de maio de 2017, 16:53
    • Não se deixe levar apenas pela emoção e o sentimento de indignação, Paloma. Desfaça o argumento. Qual a sua explicação para a atitude do STF? Meu texto admite que tudo pode ser uma encenação. Mas o Supremo a evitaria quebrando o sigilo de uma delação premiada que deixou de ser sigilosa. A corte está servindo de coadjuvante ao ator principal neste momento: o jornal O Globo, agora incensado por pessoas que até ontem o denegriam. Aos fatos, oponha fatos. À interpretação dos fatos que faço, justaponha a sua. E assim o debate caminhará para iluminar esse fosso negro cavado desde ontem.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 18 de maio de 2017, 16:58
      • Não estou emocionada, minha indignação é totalmente racional. Independente do que leva o STF a forçar um contexto sigiloso sobre o fato, não se pode negar que todo esse processo de impeachment da Dilma, desde antes da divulgação daquela carta romântica e melodramática que Temer escreveu para ela “se afastando” como vice-presidente, tem revelado muito mais um enorme tabuleiro parlamentar onde todos, incluindo Temer, são jogadores ao contrário do que deveriam ser: nossos representantes.
        Tens alguma dúvida de que não houve conchavos em relação ao Cunha? Ele mesmo disparou antes de ser preso que se caísse, levaria todos, expondo o contexto de ameaça e de disputa de poder dentro do próprio PMDB. Eu estou atenta aos fatos, mas há um pano de fundo ético aí que precisa ser considerado.

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        Publicado por Paloma Franca Amorim | 18 de maio de 2017, 17:16
      • Até agora você não considerou o estranho silêncio do STF. A quem favorece? Não é ao povo brasileiro.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 18 de maio de 2017, 17:39
      • Sim, Lúcio, persiste a estranheza em todos os casos. E isso não é estranho?
        É importante sim que o STF quebre o sigilo, uma vez que a informação já foi vazada, mas mais esse fato não está isolado de toda a trama que o envolve e vem se arrastando há pelo menos um ano e meio. E olhando para esse quadro de persistência do que é estranho e alheio ao proceder ético, eu não posso dimensionar o Temer fora dele, como se as situações fossem isoladas. O processo de cura econômica do país jamais vai se consolidar se as bases éticas no congresso não forem revistas, porque agora mais do que nunca a sociedade desconfia de tudo e de todos, porque não vamos deixar de ir pras ruas para defender nossas pautas – e falo da esquerda, mas também do povo de verde e amarelo ou do MBL. A população está convulsionada e isso é ruim para todos… Mas não é a população que precisa se acalmar, as coisas têm que mudar do ponto de vista estrutural.
        Sim o Supremo tem que abrir as portas, mas o Temer também precisa abrir o jogo e ouvir as ruas, admitir suas posições, enfrentar os altos números de rejeição popular. Afinal, com a Dilma o procedimento de análise foi esse, não foi? Ela era incompetente e não vivia a adesão massiva da população.
        Como a sorte está lançada, só posso torcer mais uma vez para que a verdade venha à tona e que as raposas felpudas paguem pelos conluios construídos às custas da saúde de nossa vida pública.

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        Publicado por Paloma Franca Amorim | 18 de maio de 2017, 18:03
      • Paloma, independentemente do desdobramento político e do contexto explicativo, há características estranhas na delação dos irmãos, que procurarei analisar daqui a pouco, se me sobrar fôlego. Cada caso é um caso. Só depois de examinado com lupa, ele é conectado à sucessão, que lhe dá significado histórico, sequencial.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 18 de maio de 2017, 18:09
  2. Bem, se o STF é um partido, é um partido partido literalmente falando, pois há vários grupinhos com posições irreconciliáveis dentro da instituição. Imagine o caos que seria.

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    Publicado por Jose Silva | 18 de maio de 2017, 17:04
  3. Liceu JP, já!

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    Publicado por Luiz Mário | 18 de maio de 2017, 18:15
  4. Lúcio, me permite uma correção: a principal faculdade de direito do país é da USP e lá o Temer nunca lecionou. Lecionou na PUC-SP e em outra faculdade do interior que não lembro. Seu principal livro “Elementos de Direito Constitucional” é uma obra ligeira, longe da produção acadêmica de José Afonso da Silva, Roberto Barroso, Manoel Gonçalves Ferreira Filho, Alexandre de Moraes, entre outros.

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    Publicado por ALCIDES | 18 de maio de 2017, 20:21

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