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Violência

O massacre do jovem negro

Quatro em cada 10 brasileiros com mais de 16 anos de idade já tiveram parentes, amigos ou pessoas próximas assassinados. Em metade desses casos, quem matou foi um agente estatal. Essa violência assusta e preocupa cada vez mais aos brasileiros. Há uma matança determinada, cm vítimas previsíveis. São negros 77% dos jovens assassinados. A tendência é que a morte ameace ainda mais os negros: suas mortes cresceram na mesma proporção (de um terço) da redução da dos brancos.

É preciso tomar consciência da gravidade desse problema. Por isso é que a Anistia Internacional vem realizando uma campanha de alerta em todo país. Na terça-feira promoverá um debate em Belém, às 18,30, no auditório da Uepa, na Djalma Dutra. A diretora executiva da Anistia, Jurema Werneck, escreveu um artigo que serve de motivação para a abordagem de questão de enorme gravidade. Reproduzo o texto, esperando que motive a participação dos leitores.

O Brasil é o país “campeão” de assassinatos no mundo: em números absolutos, mais de 58 mil pessoas morrem assassinadas por ano. A maioria são jovens entre 15 e 29 anos – uma conta que equivale à queda de um avião a cada dois dias. Porém, há algo pior do que esta tragédia: a indiferença da sociedade diante de milhares de vidas perdidas.

Motivada pela urgência deste debate, a Anistia Internacional se somou à luta das organizações negras brasileiras e lançou a campanha Jovem Negro Vivo que chama a atenção para o perfil das principais vítimas destas mortes: jovens, negros, do sexo masculino, moradores de periferias. E mais do que isto: queremos exigir políticas públicas de segurança, educação, saúde, trabalho, cultura, mobilidade urbana, que possam transformar esta realidade.

Nos últimos dois anos e meio, a Anistia Internacional e seus grupos de ativistas realizaram ações de mobilização para engajamento da sociedade em defesa da vida de nossos jovens através da campanha Jovem Negro Vivo nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Maranhão, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Goiás. Agora, chegamos ao Pará.

Os estereótipos negativos associados à juventude e à pobreza e, junto com eles, o racismo, fazem com que não se dê a resposta adequada e necessária ao fato estarrecedor de que cerca de 77% dos jovens assassinados no Brasil sejam negros. Tantas mortes de jovens negros que vivem em favelas e periferias terminam sendo banalizadas e naturalizadas. É como se a vida de um jovem negro valesse menos do que a de um jovem branco, morador de áreas mais nobres da cidade. E os números sustentam esta percepção: enquanto o número de homicídios de jovens brancos caiu 32,3%, de 2002 a 2012, o de jovens negros aumentou 32,4%, de acordo com o Mapa da Violência.

Não há uma só causa para esta tragédia. Mas é importante destacar aqui as políticas de segurança pública marcadas por operações policiais focadas na repressão e no enfrentamento e não na preservação da vida. Não é à toa que as taxas de homicídios cometidos pela polícia no Brasil são muito altas. Trata-se de uma força policial militarizada, que vê os jovens, em especial os negros e os moradores de favelas e periferias, como potenciais inimigos que devem ser combatidos. E de uma política de “guerra às drogas” que vem sendo questionada e abandonada em várias partes do mundo.

A impunidade é um outro fator que alimenta o ciclo da violência. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, apenas 8% dos homicídios vira de fato um processo judicial. A polícia e o Ministério Público têm sido ineficientes quanto se trata de investigação criminal e o Poder Judiciário é moroso. Há falhas na investigação, na perícia, na reunião de provas que possam constituir um inquérito policial que, de fato, vire um processo criminal.   Existe também um descaso generalizado de todas as esferas do sistema de justiça que não cobra maior eficiência dos organismos. É como se o Brasil pudesse desperdiçar tantas vidas e seguir em frente em meio à dor e sofrimento resultante destas perdas, sem tomar qualquer providência.

A maioria discorda. Pesquisa recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que 96% das brasileiras e brasileiros consideram necessário os governos se unirem para enfrentar a violência de forma prioritária. O levantamento mostrou que pelo menos 50 milhões de brasileiros com mais de 16 anos perderam um amigo, parente ou alguém próximo assassinado. Neste grupo, cerca de 20 milhões de pessoas perderam alguém em função de intervenções de agentes estatais. O mesmo estudo indica que 64% da população reconhece que as maiores vítimas de violência no Brasil são jovens, negros, do sexo masculino.

Enquanto a redução de homicídios não for uma prioridade do país, em todos os níveis e instâncias, nada vai mudar. Precisamos nos mobilizar para que tantos assassinatos, tantas mortes, em especial de jovens negros, não permaneçam naturalizadas. O destino dos jovens é viver. Você se importa?

Saiba mais sobre a campanha Jovem Negro Vivo: https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/

Discussão

18 comentários sobre “O massacre do jovem negro

  1. Lúcio,

    Você olhou o relatório sobre assassinatos de jovem no país? Tem uma coisa interessante lá que merece reflexão.

    No censo, o IBGE pediu para as pessoas se auto-classificarem em cinco grupos: brancos, preta, parda, amarela ou inldigena. Os resultados mostram 45.5% da população como branca, 45.0% como parda, 8.6% como preta e o resto distribuido entre amarelo e indígena.

    Pois bem. O relatório do mapa da violência disse que usou a classificação do IBGE para classificar os jovens vítimas de homicídios em cores. Entretanto, para a minha surpresa, eles combinaram pardos e pretos como uma categoria só: negro (ver página 28).

    Não há nenhuma explicação técnica para esta classificação, a não ser a necessidade de esquematizar a análise. Os autores deram um pulo no argumento, o que parece ser um comportamento muito estranho em uma análise técnica.

    Do ponto de vista técnico, as análises deveriam ser feitas e apresentadas utilizando as cinco categorias do IBGE. Porque isso não foi feito? A quem interessa divididir a sociedade em dois grupos, quando estes grupos são extremos dentro de uma grande variação na cor da população? Preguiça analítica? Ou os dados não corresponderam as expectativas dos autores?

    A Anistia Internacional faz um grande trabalho, mas neste caso creio que estão querendo transferir uma campanha americana (Black Lives Matter) para o contexto brasileiro. No final das contas o título da campanha brasileira deveria ser Jovem Pobre Vivo, pois tenho quase certeza que se a análise fosse feita levando-se em conta as faixas de renda (coisa que o mapa da violência não fez), descobriria-se que são os pobres, independente da cor, são os que estão mais sujeitos a serem vítimas de homícidio.

    Em resumo: é preciso muito cuidado com essas estatísticas soltas na imprensa sem uma análise cuidadosa de como foram feitas as análises.

    Fonte:http://www.mapadaviolencia.org.br/mapa2015_adolescentes.php

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    Publicado por Jose Silva | 20 de maio de 2017, 16:06
    • José, negros e pobres,por razões históricas já conhecidas, significam a mesma coisa. A maioria dos pobres é negra, esse problema do enegrecimento de pessoas pardas é uma falsa polêmica. As pessoas pardas são assim chamadas, ou se autodeclaram dessa forma, porque no Brasil, desde o século 19 houve uma política de embranquecimento da população e da semântica nacional que impulsionou teorias como, por exemplo, a da democracia racial tão afirmada metodologicamente por Gilberto Freyre na obra Casa Grande e Senzala. Abraços.

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      Publicado por Paloma Franca Amorim | 20 de maio de 2017, 16:55
      • Paloma,

        Obrigado. Entretanto essa interpretação de que pardo é preto com vergonha de assumir a sua cor só funciona nos livros acadêmicos. Na pratica, hoje, muita gente assume-se como mestiço com orgulho, o que faz sentido biológico e cultural. Como a única categoria de mestiço disponível é a parda, então é essa a categoria do IBGE as pessoas optam.

        A pesquisa é tendeciosa, pois agrupa grupos distintos sem nenhum critério explícito. Isso não é ciência seria e estatisticamente muito pobre. Os dados deveriam ter sido apresentados de acordo com as categorias do IBGE para que os leitores pudessem tirar suas próprias conclusões. Esse foi o meu ponto.

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        Publicado por José Silva | 20 de maio de 2017, 18:24
    • É realmente uma questão complexa. Há tentativas de esquematizá-la e moldá-la a teorias revisionistas a partir da rejeição do homem cordial e do Brasil moreno, teoria culminada, na sua matriz, com Gilberto Freyre. O revisionismo, como quase sempre, levou a desdobramentos que se isolaram numa camisa de força teórica, que se pretende universal. Muita coisa mudou no Brasil. Uma revisão completa se faz necessária em consideração a essas mudanças. A atitude inicial saudável é mergulhar nas fontes primárias, esquecendo as cercaduras teóricas, para limpar o campo visual do observador e forçá-lo a ver a realidade concreta. Um desafio enorme.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 20 de maio de 2017, 18:09
      • Isso é verdade. Agora qual o intelectual que tem a coragem de mexer em um vespeiro como esse e ir contra, caso os dados assim demonstrem, o politicamente correto estabelecido por alguns intelectuais do centro-sul do Brasil cuja experiência de campo resume-se aos limites dos seu escritório?

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        Publicado por José Silva | 20 de maio de 2017, 18:31
      • Há publicações interessantes que venho estudando por curiosidade. O livro do cubano Carlos Moore sugere uma epistemologia outra para a reflexão sobre o racismo, chama-se A Origem do Racismo, prefaciado pelo professor Kabengele Munanga.
        Também gosto dos artigos da Djamila Ribeiro, hoje professora da faculdade de sociologia e política de SP, que trata sobre o tema da assunção do negro como referencial de raça e social da maioria brasileira. Ela especificamente tem relação forte com o projeto Jovem Negro Vivo.
        Em Belém, a professora Zélia Amador da Universidade é uma Master referência de reflexão teórica sobre as bases raciais históricas do país.
        Abraços.

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        Publicado por Paloma Franca Amorim | 20 de maio de 2017, 19:56
  2. O IBGE, de fato, distribui a população por cor ou raça em cinco categorias, mas ao divulgar indicadores sociais agrupa os auto-declarados pretos com os pardos. Procede assim porque os índices sociais se mostram convergentes para esses dois grupos. Portanto, o trabalho da Anistia Internacional acompanha o procedimento adotado pelo IBGE. A esse respeito, sugiro a leitura de um curto trabalho intitulado “Considerações sobre o comportamento dos indicadores sociais da população auto-declarada preta e parda: análise de evidências preliminares” de autoria de Marcelo Paixão e Luiz Marcelo Carvano.

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    Publicado por Angela Gemaque Álvaro | 20 de maio de 2017, 21:20
    • Angela,

      Muito Obrigado. Li o trabalho.

      Em síntese, os autores encontraram que pardos e pretos brasileiros divergem em alguns indicadores sociais e convergem em outros. O trabalho não apresenta números para justificar suas conclusões.

      Assumindo que o trabalho está correto nas análises, juntar pardos e negros em uma análise estatística não faz sentido algum, pois os dois grupos apresentam várias diferenças. Do ponto de vista estatístico, eles deveriam ser tratados separadamente.

      Mais sem sentido ainda é chamar o grupo formado por pardos e pretos como negros, pois os auto-intitulados pardos são muito mais numerosos.

      Creio que seria o equivalente a juntar os torcedores de Remo e Tuna em um grupo só para fazer contraposição a torcida do Paysandu e chamar o grupo composto por Remo & Tuna como Tunantes.

      Com base em tudo o que vi aré agora, acredito que as estatisticas relacionadas a cores estão sendo manipuladas para apoiar uma mensagem em particular, possivelmente forjada por ideologias divisionistas.

      O que eu não entendo bem é o que está por trás desse processo de tentar uniformizar a nossa diversidade de cores para criar falsas dicotomias que não fazem sentido social, cultural ou biológico. Deixo isso para o Lúcio investigar. Na verdade ele poderia explicar o que ele, um arigó de origem nordestina, tem em comum com um gaúcho descendente de alemães, além da cor “branca”.

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      Publicado por Jose Silva | 21 de maio de 2017, 02:02
    • Obrigado, Angela. Você poderia fornecer o link para consulta de quem se interessar?

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 21 de maio de 2017, 09:50
  3. O Jose Silva já postou acima. Aproveito para sugerir a leitura da publicação “Características Étnico-Raciais da População: classificações e identidades disponível em biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv63405.pdf. É um material que ajuda a entender o diálogo estabelecido entre o IBGE e a sociedade através de sua participação ativa numa agenda de debates nacionais e internacionais.

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    Publicado por Angela Gemaque Álvaro | 21 de maio de 2017, 11:31
    • Obrigado.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 21 de maio de 2017, 15:38
      • Li rapidamente alguns dos artigos princiopais do livro. A conclusão é a seguinte, segundo um dos autores: “De qualquer forma, antes de pensar em alterações, é preciso considerar que
        o atual sistema classificatório do IBGE continua a ser adequado, portanto, não há
        razão para decisões apressadas, que de resto não combinariam com a tradicional
        ponderação do Instituto”.

        Desta forma, qualquer análise estatistica adequada deve usar as cinco categorias usadas no censo. Juntá-las da forma como foi feito não é uma prática correta do ponto de vista técnico.

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        Publicado por Jose Silva | 22 de maio de 2017, 13:14
  4. Com exceção do Censo Demográfico, as demais pesquisas domiciliares do IBGE são amostrais, o que traz algumas restrições com respeito à desagregação dos resultados. Enquanto as informações do Censo podem ser desagregadas até o nível de setor censitário – para alguns dados -, uma pesquisa como a Pnad Contínua, que tem a amostra mais robusta da instituição, tem seus resultados divulgados até o nível territorial das regiões metropolitanas e municípios das capitais.
    Mas as limitações à desagregação não são apenas espaciais, alcançam também o cruzamento de informações e a possibilidade de construir indicadores. A decisão de juntar num mesmo grupo os auto declarados pretos e os pardos tem por objetivo alcançar maior precisão estatística e detalhamento no cruzamento de dados para indicadores onde esses dois grupos sociais têm valores mais próximos. Essa soma também encontra respaldo dentro da tradição sociológica.
    Tomemos como exemplo, a divulgação da Pnad Contínua. Em vista do percentual de pessoas autodeclaradas pretas ser relativamente pequeno na população, este fato dificulta a desagregação de resultados com os múltiplos temas da pesquisa. Como a população de pretos e pardos apresentam características próximas, o IBGE as une para possibilitar maior número de desagregações.
    Além disso, a Pnad Contínua não divulga separadamente informações sobre as categorias de Amarelo e Indígena, pois são rarefeitas na população. Nesse caso, por possuírem características bastante distintas, não podem ser nem agregadas para divulgação.
    Por fim, gostaria de fazer uma ressalva. O IBGE constrói indicadores para um grupo que reúne os autodeclarados pretos e pardos, mas não adjetiva esse grupo como negro. Isso é feito por outras instituições, a exemplo do IPEA.

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    Publicado por Angela Gemaque Álvaro | 23 de maio de 2017, 20:42
  5. De nada, Lúcio Flávio. Um abraço.

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    Publicado por Angela Gemaque Álvaro | 24 de maio de 2017, 10:05
  6. Alguns números para embasar o debate.
    O primeiro, em especial, é uma pesquisa do Ipea com as cidade por 100 mil habitantes, não surpreendente a mais violenta é Altamira com seus 105,2 casos por 100 mil habitantes. Lembrando aqueles textos que falam sobre Belo Monte e a violência na região.
    http://www.diarioonline.com.br/noticias/policia/noticia-421064-.html
    De um outro lado o Fórum Brasileiro e Segurança Pública registra um número de assassinato de negros em relação aos branco que vem crescendo muito nos últimos anos em diferentes estados.
    http://www.diarioonline.com.br/noticias/policia/noticia-421075-.html

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    Publicado por Fabrício | 5 de junho de 2017, 16:02

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