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Economia, Justiça, Política

A roubalheira no BNDES

Já é consenso que o BNDES é uma das principais – se não o principal – de enriquecimento de empresários que se especializaram em pagar propinas para roubar o governo. Na parte do depoimento que concedeu à Procuradoria Geral da República, em 7 de abril, o empresário Joesley Batista conta como conseguiu 13 bilhões de reais do banco para expandir os seus negócios. Comprou o ministro da Fazenda Guido Mantega. Deu dinheiro para Dilma e Lula, informando-os pessoalmente sobre as contas secretas que chegaram a armazenar 150 milhões de dólares para o partido e aliados. E que se tornou interlocutor semanal do ministro durante certo tempo.

Infelizmente, apenas alguns trechos desse depoimento foram divulgados pela imprensa. Para abrir um pouco mais a porta do BNDES, reproduzo-o na íntegra Fiz modificações para que a linguagem forense se tornasse mais agradável e inteligível para o leitor. Afora isso, tudo é de responsabilidade (ou irresponsabilidade) do dono da JBS. Espertamente, ele trata de se safar da sujeira dizendo que ela era apenas para poupar a empesa das complicações burocráticas, não para permitir negócios ilícitos. É o santo Joesley

Joesley Batista foi apresentado, em meados de 2004, por intermédio do advogado Gonçalo Sá, a Victor Garcia Sandri, conhecido como Vic, empresário e amigo íntimo de Guido Mantega, então Ministro do Planejamento. Vic se ofereceu para conseguir para o empresário facilidades com Mantega, cobrando 50 mil mensais para tanto e afirmando que o dinheiro seria dividido com o ministro.

Quando Guido Mantega se tornou presidente do BNDES, Joesley conseguiu, por intermédio de Vic, no início de 2005, marcar reunião, no BNDES, com o próprio Guido e toda a diretoria do banco. A finalidade da reunião era apresentar o plano de expansão da JBS, a fim de iniciar o processo de convencimento do BNDES a apoiar esse plano.

Depois da reunião, a JBS apresentou ao BNDES, em junho e agosto de 2005, duas cartas-consulta que, juntas, pleiteavam financiamento no valor de 80 milhões de dólares para suportar o plano de expansão daquele ano. Vic solicitou, para si e para Guido Mantega, pagamento de 4% do valor do financiamento, em troca de facilidades com Mantega, inclusive a marcação de reuniões e a aprovação da operação financeira. Joesley prometeu realizar o pagamento.

A operação foi aprovada com grande rapidez. O crédito relativo à primeira carta-consulta ficou disponível em agosto de 2005, e o relativo à segunda, dias depois da respectiva apresentação; Joesley pagou, então, a vantagem prometida a Vic por meio de conta de offshore que controlava para conta no exterior indicada por Vic.

BNDES: SÓCIO DA JBS

Mesmo depois de 2006, quando Guido Mantega se tornou ministro da Fazenda, foram fechadas duas operações entre a JBS e o BNDES com intermediação de Vic. A primeira operação foi realizada em junho de 2007 e consistiu na aquisição, pelo BNDES, de 12,94% do capital social da JBS, por 580 milhões de dólares, para apoio ao plano de expansão daquele ano.

A segunda operação foi realizada no primeiro semestre de 2008 e consistiu na aquisição, pelo BNDES, de 12,99% do capital da JBS, por 500 milhões de dólares, em operação conjunta com FUNCEF e PETROS [fundos de pensão da Caixa e da Petrobrás], para apoio ao plano de expansão do ano de 2008.

Ao longo desse período, Joesley percebeu, em seus contatos diretos com Guido Mantega, que a intermediação de Vic era real. Ele efetivamente conseguiu marcar mais de dez reuniões com Mantega. Quando encontrava o empresário, o ministro estava informado dos assuntos que Joesley indicava a Vic que queria discutir. No final de 200S, Vic pediu que o empresário custeasse cesta de Natal no valor de 17 mil reais para Guido Mantega, que, em encontro com Joesley, pouco tempo depois, agradeceu a cesta. Nessas reuniões, o dono da JBS indicava a Guido Mantega com clareza suas demandas junto ao BNDES.

A PROPINA DO MINISTRO

Mantega ressalvava que Luciano Coutinho, então presidente do Banco, era pessoa difícil, mas que ouvia as demandas, e ao final, o BNDES as atendia. Ao chegar o ano de 2009, Joesley entendeu já ter proximidade suficiente com Mantega para prescindir da intermediação de Vic, passando a marcar reunião diretamente com o ministro [aquele que por mais tempo permaneceu à frente da pasta da Fazenda em todos os tempos], tendo explicado, na reunião, que, por motivos pessoais, preferia não mais utilizar a intermediação de Vic.

Na mesma reunião, ocorreu, ainda, diálogo que Joesley se recorda de ter perguntado a Guido Mantega como deveria acertar o valor da propina, ao que ele teria respondido: “fica com você; confio em você”.

Em seguida indagou qual seria o percentual, ressaltando que, quando as tratativas eram realizadas por intermédio de Vic, era combinado um “valor certo”, ao que Guido Mantega respondeu que deveriam ver “caso a caso”. Joesley entendeu que deveria discutir valores de propina por cada negócio em que Guido Mantega interviesse em seu favor e que custodiaria, ele próprio, os valores. Àquela altura, o empresário entendia que estava pagando propina para o próprio Guido Mantega.

Esse formato foi aplicado a duas operações realizadas no âmbito do BNDES. A primeira foi a aquisição, em dezembro de 2009, pelo BNDES, de debêntures da JBS, convertidas em ações, no valor de 2 bilhões de dólares, para apoio do plano de expansão do ano de 2009. Nesse negócio, Guido Mantega interveio junto a Luciano Coutinho, inclusive em reuniões a que o empresário estava presente, para que o negócio saísse, sempre contornando as objeções do presidente do Banco.

No entanto, embora a negociação das operações tenha sido bastante dura, acabaram sendo realizadas sem que fossem praticadas irregularidades e sem que a instituição financeira tenha tido prejuízo; Em várias ocasiões, Joesley percebeu, inclusive, a surpresa e o desconforto de Luciano Coutinho com sua presença.

CONTAS DE LULA E DILMA

O depoente escriturou em favor de Guida Mantega, por conta desse negócio, crédito de 50 milhões de dólares e abriu conta no exterior, em nome de offshore que controlava, na qual depositou o valor. Em reunião com Mantega ocorrida no final de 2010, este pediu ao empresário que abrisse uma nova conta, que se destinaria a Dilma. Joesley perguntou se a conta já existente não seria suficiente para os depósitos dos valores a serem provisionados, ao que Guido respondeu que esta era de Lula, fato que só então passou a ser do conhecimento do depoente. Joesley indagou se Lula e Dilma sabiam do esquema, e Guido confirmou que sim.

O negócio subsequente foi o financiamento de 2 bilhões de reais, em maio de 2011, para a construção da planta de celulose da Eldorado [negócio que está sendo investigado pela Polícia Federal]. Também nesse negócio, Guido Mantega interveio junto a Luciano Coutinho para que o negócio saísse.

A operação foi realizada após cumpridas as exigências legais. Joesley sempre percebeu que os pagamentos de propina não se destinavam a garantir a realização de operações ilegais, mas sim de evitar que se criassem dificuldades injustificadas para a realização de operações legai.

Ele depositou, a pedido de Guido Mantega, por conta desse negócio, crédito de 30 milhões de dólares em nova conta no exterior. Nesse momento, já sabia que esse valor se destinava a Dilma. Os saldos das contas vinculadas a Lula e Dilma eram formados pelos ajustes sucessivos de propina do esquema BNDES e do esquema-gêmeo, que funcionava no âmbito dos fundos PETROS e FUNCEF. Esses saldos somavam, em 2014, cerca de 150 milhões de dólares.

COMPRA DE POLÍTICOS

A partir de julho de 2014, Mantega passou a chamar o depoente quase semanalmente ao Ministério da Fazenda, em Brasília, ou na sede do Banco do Brasil em São Paulo, para reuniões a que só estavam presentes os dois, nas quais lhe apresentou múltiplas listas de políticos e partidos políticos que deveriam receber doações de campanha a partir dos saldos das contas.

A primeira lista foi apresentada em 04.07.2014 por Guido, no gabinete do Ministro da Fazenda no 15º andar da sede do Banco do Brasil em São Paulo, e se destinava a pagamentos para políticos do PMDB. A interlocução com políticos e partidos políticos para organizar a distribuição de dinheiro coube a Ricardo Saud, Diretor de Relações Institucionais da J&F, exceção feita a duas ocasiões.

O OLHAR E O SILÊNCIO DE LULA

Em uma delas, ocorrida em outubro de 2014 no Instituto Lula, Joesley encontrou-se com Lula e relatou a ele que as doações oficiais da IBS já tinham ultrapassado 300 milhões de reais e indagou se ele percebia o risco de exposição que isso atraía, com base na premissa implícita de que não havia plataforma ideológica que explicasse tamanho montante. O ex-presidente olhou nos olhos do depoente, mas nada disse,

Na outra, ocorrida também em novembro de 2014, depois de receber solicitações insistentes para o pagamento de 30 milhões de reais para Fernando Pimentel, governador eleito de Minas Gerais, veiculadas por Edinho Silva, e de receber de Guido Mantega a informação de que “isso é com ela”, solicitou audiência com Dilma.

Recebido no Palácio do Planalto, Joesley relatou a Dilma que o governador eleito de MG, Fernando Pimentel, estava solicitando, por intermédio de Edinho Silva, 30 milhões de reais, mas que, atendida essa solicitação, o saldo das duas contas se esgotaria.

Dilma confirmou a necessidade e pediu que o depoente procurasse Pimentel. No mesmo dia, Joesley encontrou Pimentel no aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, disse que havia conversado com Dilma e que ela havia indicado que os 30 milhões deveriam ser pagos. Pimentel orientou o empresário a fazer o pagamento por meio da compra de participação de 3% na empresa que detém a concessão do Estádio Mineirão.

Fora essas duas ocasiões, Edinho Silva, então tesoureiro da campanha do PT, encontrava-se, no período da campanha de 2014, semanalmente com Ricardo Saud e apresentava as demandas de distribuição de dinheiro. Ricardo Saud submetia essas demandas ao chefe, que, depois de verificá-las com Guido Mantega, autorizava o que efetivamente estivesse ajustado com o então ministro da Fazenda.

Ricardo Saud então procurava Edinho e lhe dava o aceno positivo. Saud era, logo depois, procurado por Manoel, então chefe de gabinete de Edinho, que lhe apresentava escritos com os pedidos. O ajuste mais amplo consistia em direcionar grande parte do dinheiro para a campanha de Dilma Rousseff, tanto para o PT nacional quanto para os diretórios estaduais do PT.

Joesley deveria custear a compra dos partidos da coligação, conforme o PT fosse fechando os negócios e orientando o depoente e Ricardo Saud. Esse ajuste mais amplo abrangeu não só o esquema do BNDES aqui descrito, como também outro esquema de formato semelhante – intervenção para a liberação de financiamentos em troca de propinas, calculadas como porcentagens das liberações – em que o depoente teve participação, e que envolveu Guida Mantega e os presidentes dos fundos fechados de previdência complementar PETROS e FUNCEF.

Guido Mantega determinava, para os dois esquemas, em interlocução com Joesley, a destinação das propinas, embora o esquema dos fundos envolvesse também parte das propinas para os respectivos presidentes. No ano de 2012, Mantega solicitou ao empresário um empréstimo, conversível em participação societária, na empresa Pedala Equipamentos Esportivos Ltda. Joesley aceitou conceder o empréstimo, no valor de cinco milhões de dólares, depositado por meio de sua empresa Antígua Investments LLC.. QUE o empreendimento da Pedala não resultou frutífero, mas o empresário perdoou a dívida e a empresa encerrou suas atividades.

Em outra oportunidade, Mantega solicitou um investimento de 20 milhões de dólares, debitado da “conta-corrente” do PT, em uma conta no exterior. Joesley consentiu e determinou fosse realizada a transferência. Após um ano, o investimento foi devolvido para a “conta-corrente” do PT, em igual valor, não sabendo este qual o destino ou a finalidade do investimento.

Discussão

8 comentários sobre “A roubalheira no BNDES

  1. Por que Moro pareceu desdenhar Palocci?

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    Publicado por Luiz Mário | 21 de maio de 2017, 17:50
  2. Segundo alguns blogs, Palocci citaria a GLOBO e um “famoso” banqueiro em outra audiência com Moro. O link abaixo talvez sugira algo sobre o tal “famoso”.

    http://www.viomundo.com.br/politica/em-retrospectiva-quanto-meirelles-custou-aos-donos-da-jbs.html

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    Publicado por Luiz Mário | 21 de maio de 2017, 18:06
  3. Bem, está mais do que claro que Dilma, Lula, Mantega, Palocci, etc, estavam falcatruando e enganando o povo brasileiro por décadas. Prisão já. Imediata! Essas pessoas deveriam ser passar o resto das vidas vendo o sol nascer quadrado por liderar tamanha campanha contra o país. Espero que nas próximas semanas isso se resolva de forma adequada para o bem de todos e a felicidade geral da nação.

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    Publicado por José Silva | 21 de maio de 2017, 19:24
  4. Quanta pressa, meu caro José! A corrupção da elite política profissional, da engenharia civil, do agronegócio foi revelada. Ainda faltam outras. Sobretudo dos poderosíssimos capitalistas….

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    Publicado por Luiz Mário | 21 de maio de 2017, 19:44
  5. Concordo plenamente quanto à punição. Luís XVI é um excelente exemplo.

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    Publicado por Luiz Mário | 21 de maio de 2017, 21:56
  6. A turma que defende o Lula e a Dilma deveriam ler esta matéria e criarem juízo não defendendo mais que o Lula volte em 2018.

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    Publicado por Cliff Puget Eulálio | 22 de maio de 2017, 14:03
  7. E não é , Eulálio ?
    Eu já desisti do PT desde de quando a senadora alagoana Heloísa Helena declarou com todas as letras que o ex-presidente Lula ” comprou os movimentos sociais ” , em entrevista concedida à revista Isto É; denúncia gravíssima sobretudo em se tratando de um partido nascido no seio do movimento operário , até hoje não contestada , pelo menos que eu saiba . O que sabemos agora é a fonte do dinheiro que instituiu de forma sistemática , o mercado de compras politico-eleitorais envolvendo o partido dos trabalhadores. Sempre é muito triste e revoltante lembrar-relembrar essa realidade , sobretudo para a minha geração que cresceu sob a mordaça da ditadura militar , lutou pela redemocratização do pais e sonhou com a utopia da transformação social , da igualdade e da emancipação humana .E sobretudo para mim que sempre militei em movimentos sociais ,nunca em partidos, por acreditar que a força da sociedade civil vem da sua organização politica , solidária e autônoma , e que essa força é a espinha dorsal da politica e a estratégia de controle externo do campo de representação politico-partidário .
    Sempre tive claro que o PT não era um partido socialista , que dele não podíamos esperar um socialismo democrático , então não foi muito difícil para mim ter um distanciamento critico . Mas muitos da minha geração eles viveram nessa ambiguidade . Acho que a teoria critica me salvou !

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    Publicado por Marly Silva | 23 de maio de 2017, 10:17

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