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Imprensa, Política

Cego em tiroteio

Ás 15:06 de quinta-feira, 18, o jornalista Ricardo Noblat, dono de um dos principais blogs do site do jornal O Globo, anunciou que Michel Temer já decidiria renunciar à presidência da república. A informação teve grande impacto.

Menos de 24 horas antes o jornal da família de Roberto Marinho dera um dos maiores “furos” da história do jornalismo brasileiro, ao vazar as delações premiadas dos donos da JBS, que ameaçavam – e ainda ameaçam – Temer e boa parte da república brasileira, enlameada pela corrupção denunciada por Joesley, Wesley e cinco outros integrantes da corporação.

Parecia que Noblat prosseguia o “furo” (notícia exclusiva”) de outro colunista da casa, Lauro Jardim, com a participação de Guilherme Amado. O impacto foi ainda maior porque quase toda imprensa vinha anunciando que Temer estudava fazer seu primeiro pronunciamento público sobre o assunto.

Uma hora depois da nota de Noblat, o presidente (como já vinha sendo antecipado) falou à nação. E negou que quisesse renunciar. Garantiu que procurará se manter à frente do governo. Ontem, no segundo comunicado pessoal, no Palácio do Planalto, reafirmou a sua decisão.

Desmentido pelos fatos, Ricardo Noblat recorreu ao Twitter para explicar que não cometeu nenhuma “barriga”, (erro grave de informação). Insistiu que a “permanência de Temer é temporária”. Logo, a cada novo dia de Temer na presidência, mais o jornalista será desmentido.

O desejável seria que Noblat, com uma longa e destacada carreira na profissão, simplesmente admitisse: sim, errei. Todos erramos. Não devia, porém, se restringir a esse ato de coragem e humildade. Devia ir atrás da fonte que o levou (ou induziu) ao erro.

Se a fonte demonstrasse sua boa fé e reconhecesse que também errou, ele a manteria. Mas procuraria dar alguma boa explicação ao leitor sobre a origem da informação falsa, defeituosa ou equivocada em função de alguma circunstância plausível, mas sempre garantindo proteção à identidade da fonte. Se foi manipulado, a fonte deve ser descartada.

Quando não agem assim, os jornalistas desservem aos seus leitores e se atam cada vez mais a fontes inconfiáveis. A multiplicação de erro como o de Noblat deixam a sociedade órfã das informações necessárias para entender o que acontece diante dos seus olhos. Brasília falha mais uma vez na sua missão de não deixar que os poderosos enganem o povo, sonegando-lhe informações vitais ou manobrando-os com balões de ensaio.

O Brasil de hoje está como cego em tiroteio. Não só sente-se incapaz de sair da linha de tiro como de escapar à cada vez mais presente bala perdida.

 

Discussão

12 comentários sobre “Cego em tiroteio

  1. Será que não foi um “experimento” (boato) para dar a saída do Temer como um fato consolidado e assim adicionar mais confusão a um país já confuso? Afinal de contas, qual a função de um boato? Noblat aprendeu bem com a coligação do mal durante as campanhas eleitorais e se tornou um mestre dos boatos.

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    Publicado por Jose Silva | 21 de maio de 2017, 10:42
  2. Dificilmente os jornalistas admitem seus erros.

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    Publicado por Bernardo | 21 de maio de 2017, 11:06
  3. A fonte de Noblat é o próprio Temer. Eles são íntimos, Noblat até tece elogios pessoais a Temer.Ja o chamou de bonito e sabe inclusive q Temer está escrevendo um Romance. Temer foi um dos convidados do aniversário de Noblat. Aniversário é pra amigos. A fora q não há caminho a ser seguido
    Que seja o pedido de renúncia. Hj, amanhã ou depois….

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    Publicado por Norman | 21 de maio de 2017, 12:21
  4. Lúcio, prefiro acreditar que a “barrigada” do Noblat foi por excesso de vaidade. Ele queria compensar o “furo” do colega de O Globo com um “furo” ainda maior, a renúncia de Temer. E caiu na própria armadilha, por superestimar a própria intuição jornalística. Se alguma fonte o abasteceu, o que não acredito, ele derrapou feio. Um abraço, Lúcio.

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    Publicado por Carlos Mendes | 21 de maio de 2017, 14:23
  5. “Credibilidade” ? Entre os vassalos da Casa-Grande, em plena ditadura da corrupção? Quanta Sociologia da Reeleição!

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    Publicado por Luiz Mário | 21 de maio de 2017, 15:51
  6. Caro Lúcio, adortando o mesmo raciocínio de reconhecer erros: você votou no Aécio?

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    Publicado por Antonio Carlos Teles | 21 de maio de 2017, 16:57
  7. Sociologia da Reeleição:

    “A elite paulista quer a continuidade do governo Temer e quer, de alguma forma, preservar o status quo, provavelmente com um candidato que una PMDB e PSDB em 2018.

    Os irmãos Marinho claramente buscam detonar Temer já, em aliança com o MPF.”

    (http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/comportamento-da-midia-revela-racha-na-elite-que-promoveu-o-golpe-paulistas-apostam-em-salvar-o-psdb-e-o-status-quo-globo-quer-governar-com-o-mpf-e-a-justica.html#at_pco=smlwn-1.0&at_si=591e66dbd6769cd5&at_ab=per-2&at_pos=0&at_tot=1)

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    Publicado por Luiz Mário | 21 de maio de 2017, 16:59
    • Teorias conspiratórias são propostas na mesma velocidade que evidências são neglicenciadas. Foi assim que o Congo entrou em guerra civil, da qual não saiu até hoje. Há necessidade de espírito crítico aqui para separar o joio do trigo.

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      Publicado por José Silva | 21 de maio de 2017, 21:03
  8. “O Brasil de hoje está como cego em tiroteio. Não só sente-se incapaz de sair da linha de tiro como de escapar à cada vez mais presente bala perdida.”

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    Publicado por Luiz Mário | 21 de maio de 2017, 21:41

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