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Justiça, Política

O pau e a cobra

No seu pronunciamento de ontem, o presidente Michel Temer anunciou, pela segunda vez em dois dias seguidos, que não renunciará e que procurará se manter à frente do governo federal porque tem um plano de recuperação econômica do Brasil definido e já em execução. Mas foi além: escolheu o empresário Joesley Batista e a Procuradoria Geral da República como alvos imediatos da sua tentativa de sobrevivência no cargo. Atacou-os diretamente,

O desafio é perigoso e temerário, beirando o suicídio. Independentemente de conter ou não manipulações, de ter sido interpretada equivocadamente, a principal prova contra Temer, a gravação da sua conversa noturna (pelo horário e significado) com o principal dono do grupo JBS, o macula definitivamente. No mínimo, já devia ter se licenciado do cargo, para se dedicar integralmente à sua defesa, fazendo-o com a maior rapidez possível, para esclarecer de vez tudo – contra ou a favor dele próprio, mas em benefício da nação. O programa que propôs continuaria a ser executado sem ele, sujeito aos azares da vida.

No entanto, paralelamente à completa apuração de todas as denúncias das delações dos homens da JBS, que integram uma verdadeira e extremamente danosa máfia, é preciso não ser condescendente ou negligente com quem transformou a ofensiva da JBS num escândalo nacional, o maior desde o início da Operação Lava-Jato.

As delações de Joesley, Wesley Batista e seus comandados foi tramada adredemente. Sabe-se agora que todos foram treinados como fazer uma delação da maneira mais proveitosa possível duas semanas antes de estourar o tsunami moral e político, que abalou a base da república brasileira.

Na véspera do vazamento do conteúdo das delações, os dois bilionários brasileiros executaram movimentos orquestrados. Compraram um bilhão de dólares, prevenindo-se contra a súbita e vertiginosa valorização da moeda americana (como proteção à incerteza resultante das denúncias). Venderam ações da sua empresa, que cairiam 18%, prevenindo-se contra a sua queda brutal. Ambos os movimentos lucrativos se basearam em informação – mais do que privilegiada – exclusivíssima, já que se tratou de flutuação artificial, fabricada pelos próprios beneficiários da especulação.

Em seguida, os irmãos embarcaram com suas famílias e aderentes na versão mais luxuosa de jatinhos executivos para os Estados Unidos. Fuga da Operação Bullish, que os tinha por alvo? Não propriamente. Benefício concedido pelo relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin. No mesmo dia o ministro homologara a delação premiada da gangue da JBS, livrando-a do constrangimento da prisão na penitenciária, da prisão domiciliar, da tornozeleira eletrônica e, por fim, como culminância de tantos privilégios extravagantes, da entrega dos seus passaportes, como medida cautelar contra a fuga do país.

A Polícia Federal simplesmente desconhecia esses procedimentos todos. Por isso, em nota divulgada ontem, a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais trata de dar o troco. Ela considerou “inaceitável” que a Procuradoria Geral da República tenha juntado aos autos o áudio da conversa – gravada clandestinamente – por Joesley Batista com Temer sem uma perícia técnica por peritos federais, atitude que classificou de “temerária”.

Afirma a nota ser “inaceitável que, tendo à disposição a perícia oficial da União, que possui os melhores especialistas forenses em evidências multimídia do país, não se tenha solicitado a necessária análise técnica no material divulgado, permitindo que um evento de grande importância criminal para o país venha a ser apresentado sem a qualificada comprovação científica”.

A associação observou que, “ao se ouvir o áudio, percebe-se a presença de eventos acústicos que precisam passar por análise técnica, especializada e aprofundada, sem a qual não é possível emitir qualquer conclusão acerca da autenticidade da gravação”.

A associação recomendou “o envio imediato” do áudio e do equipamento usado na gravação para uma perícia completa no INC (Instituto Nacional de Criminalística). Disse que, antes de anexar o áudio ao pedido de abertura do inquérito no STF o ministro Fachin, não o submeteu a uma perícia técnica completa na Polícia Federal, contentando-se com a perícia do setor técnico da PGR, embora tenham surgido, a partir da revelação da gravação, dúvidas sobre a idoneidade do material, em função de sinais perceptíveis de interrupções na conversa.

Folha de S. Paulo, que contratou sua própria perícia, apurou que Joesley Batista não entregou o equipamento utilizado para a gravação. Segundo a revista Época, o empresário teria utilizado um equipamento não detectável por aparelho de raio-x, com receio de ser flagrado na tentativa de gravar o presidente no palácio do Jaburu.

A PGR não enviou o áudio para a Polícia Federal, segundo a Folha apurou, porque considerava que essa era uma etapa posterior na investigação, depois de aberto o inquérito, e que eventuais dúvidas poderiam dirimidas ao longo da apuração.

Em nota, a PGR informou que foi feita uma avaliação técnica da gravação e concluiu que o áudio revela uma conversa lógica e coerente. E que a gravação anexada ao inquérito do STF “é exatamente a entregue pelo colaborador e que sua autenticidade poderá ser verificada no processo”.

Ou seja: exatamente aquilo que Joesley produziu como prova para a homologação de sua delação premiada. Em linguagem bem popular, matou a cobra, mas não mostrou o pau. É atrás do processo da matança e dos seus instrumentos que o país está agora, enquanto a gangue da JBS se refresca em Nova York.

Discussão

7 comentários sobre “O pau e a cobra

  1. Faltou dizer q outros órgãos de controle imprensa fizerem suas perícias e estas resultaram na autenticidade do material.

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    Publicado por Norman | 21 de maio de 2017, 12:12
  2. Estaríamos diante de um caso passional, envolvendo poderosíssimos capitalistas e prostitutos servidores públicos, ainda que temporários (eleitos)?

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    Publicado por Luiz Mário | 21 de maio de 2017, 15:59
  3. Não sei se as gravações são à prova de perícia. Mas que houve precipitação em homologar e liberar a saída do País dos delatores, isso vai ser o ponto fraco de toda essa trama, ficando-nos a sensação que os gangsteres estão rindo de nós bobos, bebendo champanhes e degustando caviar, em nossa homenagem, custeados pelo lucro das informações privilegiadas em suas ações e dólares.

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    Publicado por JAB Viana | 21 de maio de 2017, 18:08
  4. A fuga dos delatores para os Estados Unidos é um escárnio. A justiça compactuando com bandidos é um duro golpe.

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    Publicado por Ricardo Conduru | 21 de maio de 2017, 18:36
  5. Creio que houve precipitação da justiça na liberação dos delatores. A grande questão é porque de um acordo tão rápido e tão benevolente com este delator em especial? O Marcelo delatou, mas continua na prisão. O que mais me preocupa ainda, novamente, é o Lula e Dilma estarem ainda soltos vociferando lições de honestidade apesar de tudo que se descobriu até agora.

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    Publicado por José Silva | 21 de maio de 2017, 19:18
  6. Alguém já disse que “Justiça é uma conveniência do poder”, o que, infelizmente, é deprimente.

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    Publicado por Luiz Mário | 21 de maio de 2017, 22:09

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