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Justiça, Política

O crime compensa

Joesley Batista é o maior corruptor da história do Brasil.

Suas façanhas são surpreendentes, chocantes, inacreditáveis. Sua contabilidade mafiosa registra o pagamento de 600 milhões de reais a 1.829 candidatos que disputaram eleições no país por 28 partidos políticos. Menos de 3% desse total saíram legalmente.

Com esse investimento, o grupo JBS elegeu 179 deputados estaduais em 23 Estados, 167 deputados federais (dentre 530) de 19 partidos, 28 senadores (em 81 cargos), 16 governadores de seis partidos, incluindo quatro do PMDB e do PSDB, e três do PT.

A JBS se tornou, assim, o maior grupo de poder do Brasil, maior do que todos os partidos políticos, sem precisar ser um partido. Muito pelo contrário: por ser informal e clandestina, a JBS desenvolveu a mais devastadora organização criminosa nacional, de colarinho branco, que causou mais prejuízo material do que o PCC, o bando criminoso lato senso, de assalto à mão armada, sangrenta – menos sofisticada, portanto.

Até 2005, a trajetória da JBS podia ser incorporada aos casos comuns de sucesso de empreendedores. Em 2006, ela faturou 4 bilhões de reais. Em 2007 passou para 14,1 bilhões. No ano passado chegou a R$ 170 bilhões, como a maior produtora de proteína animal do mundo. Em 10 anos, 3.400% de crescimento da receita operacional líquida. Façanha sem igual no planeta nesse período.

Se o crescimento até 2005 se deveu ao trabalho da família e um pequeno comerciante, que começou seu negócio com um frigorífico no interior de Goiás e enriqueceu vendendo carne aos candangos que construíam Brasília nos anos 1950/60, sob a batuta do padrinho dos empreiteiros, o presidente Juscelino Kubitscheck, a partir de 2006 a expansão inacreditável teve por explicação um banco estatal, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

O BNDES concedeu empréstimo à JBS, mas não foi sua principal ação. O banco subscreveu todas as debêntures que o grupo de Joesley Batista emitia, passando a possuir 21% do capital da corporação. O pretexto era alavancar os “campeões nacionais”, seleto grupo de empresas que teriam tutano suficiente para enfrentar competidores e se estabelecer com solidez no mercado internacional, fazendo tremular a gloriosa bandeira verde-amarela, como um portentoso time de futebol.

O aporte do BNDES chegou a R$ 11 bilhões. Esse dinheiro saiu nas horas certas: sempre que os Batistas compravam novas fábricas no exterior. Foi um processo de transferência de capital (estatal) nacional de ta monta que no ano passado a JBS só não conseguiu transferir a sede da companhia para a Irlanda e o domicílio para o Reino Unido porque o BNDES não concordou.

Nova presidente do banco, Maria Silva Bastos Marques impôs o cumprimento da prática anterior do estranho arranjo entre uma instituição estatal e uma empresa privada (dai as notícias plantadas de que ela ia ser demitida por quem a nomeara, o presidente Temer, ainda afinado então com a JBS?). Essa promiscuidade aconteceu na gestão do economista Luciano Coutinho, até então respeitado economista de esquerda. Um bom pensador, mas um administrador débil. Segundo o depoimento de Joesley, Coutinho tentava impedir o assalto ao caixa do banco, mas seu superior, o ministro Guido Mantega o dobrava, impondo-lhe as liberações de dinheiro.

O empresário garantiu que pagava propina ao ministro da Fazenda mais duradouro de toda república, com ele se reunindo semanalmente durante certo período. Primeiro para acertar as comissões pessoais. Depois, para bancar os pagamentos para o PT, partidos aliados e as campanhas eleitorais de Lula e Dilma.

A sujeira acumulada no subterrâneo do prédio imponente da JB começou a transbordar, ameaçando chegar ao hall. O que fez Joesley? Deu o golpe da delação premiada (par ele e os seus), combinada com a leniência (para a empresa). Tudo indica que o poder de iniciativa foi todo dele, contando com uma benevolência inusitada da Procuradoria Geral da República e do Supremo Tribunal Federal, em Brasília.

Quando embarcou no mais luxuoso jato executivo para os Estados Unidos com a sua corte mais próxima, Joesley tinha certeza de deixar uma poderosa bomba de efeito retardado. Ela explodiria no início da noite, quando o conteúdo das suas acusações à PGR e ao STF seria vazado pelo colunista Lauro Jardim, recebendo a dimensão de um escândalo em O Globo.

Com autorização judicial para viajar, imunidade e impunidade pessoal, e acordo de leniência em discussão, Joesley pode ter dado uma terrível lição para os brasileiros: que o crime compensa.

Discussão

10 comentários sobre “O crime compensa

  1. Procure os laços matrimoniais e as afinidades com a antiga corte, quem são o sogro e os padrinhos.

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    Publicado por JAB Viana | 22 de maio de 2017, 11:03
  2. A realidade crua e nua dos jovens empresários da familia Batista , saindo pela porta da frente com aval judicial , superou a ficção global de Odete Roitman .
    Fomos todos humulhados, violentados , estuprados como povo e nação.
    Quando cairá a ficha ?

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    Publicado por Marly Silva | 22 de maio de 2017, 11:47
  3. Lúcio: o crime sempre compensou no Brasil. Há milhares de exemplos onde criminosos se deram bem no final. O mais recente deles é o caso do Lula e Dilma, os criadores do ambiente no qual pessoas como os Batistas prosperaram. Os dois ex-presidentes continuam livres e soltos por ai. Você quer um maior insulto do que este ao país?

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    Publicado por Jose Silva | 22 de maio de 2017, 12:47
  4. A corrupta elite política, a corrupta elite da engenharia civil, a corrupta elite do agronegócio foram desnudadas. Parece seguir na mesma linha sucessória a elite (corrupta?) do judiciário até chegar à corrupta elite banqueira? Será? O honesto e verdadeiro combate à corrupção chegará a esse patamar ou os asseclas, rabos-presos, batedores de panelas de tudo farão para impedir essa caminhada?

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    Publicado por Luiz Mário | 22 de maio de 2017, 18:11
  5. Meu amigo Lúcio que país é esse como já dizia a música acreditar em quem um presidente que não tem aquilo roxo um supremo tribunal que não teve peito de prender os donos da JBS aí vem uns dúbios mentais pedir diretas já para levar novamente o Lula ao poder há que saudade dos velhos generais

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    Publicado por Carlos lobo | 24 de maio de 2017, 06:23
    • Da minha parte, Carlos, me dá vontade de tentar utopias. Vivi na íntegra o regime militar e considero positiva apenas a administração do Castelo Branco. Ele fez tudo para impedir que Costa e Silva o sucedesse. Sabia da sua desqualificação. Mas não conseguiu. Médici, justiça se lhe faça, tentou não ser presidente, mas uma estranha conjugação de omissões lhe jogou o cargo no colo. Geisel era admirado como um general preparado, mas quase todas as suas políticas, principalmente a energética, deram errado. Já Figueiredo foi, literalmente, o fim. Ele podia dizer, com toda razão: d’après moi, le déluge. Saiu pela porta dos fundos do Palácio do Planalto – e da história.
      Acho que precisamos olhar para frente, esperançosos de que ainda possamos encontrar homens à altura da grandeza do Brasil. Isso, se não é ilusão, é utopia. Ao menos, viva a utopia.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 24 de maio de 2017, 10:08
  6. Hoje , Ato Público ás 17 horas na Praça do mercado de São Brás . Compareçam todos .

    Só a multidão nas ruas é capaz de conter as ameças de retrocesso e os conchavos de bastidores que já estão sendo costurados …no jogo macabro da hipocrisia e do cinismo politico.

    Precisamos mostrar ao mundo , de olho no Brasil , que somos muito mais do que ” meia duzia de gatos pingados a gritar ” contra o ataque à democracia.

    Somos capazes de reagir é só agir !

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    Publicado por Marly Silva | 24 de maio de 2017, 15:34
  7. Viva as redes sociais!

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    Publicado por Luiz Mário | 24 de maio de 2017, 18:19

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