//
você está lendo...
Política

A história na chapa quente (221)

O coronel ataca outra vez

(Arigo publicado no Jornal Pessoal 309, de outubro de 2003)

A grande imprensa nacional costuma conceder ao senador Antônio Carlos Magalhães o título de “o maior coronel do Brasil”. É um título de inspiração e utilidade ambíguas. Ou, avaliando melhor: título sutilmente enaltecedor. ACM é o campeão do coronelismo porque manda e desmanda na Bahia como nenhum outro, antes ou depois dele na curul baiana, ou mesmo em qualquer satrapia brasileira.

O cabresto, porém, foi muito além: ACM manipulou ministros e até mesmo presidentes da república para que fizessem seu jogo, sagazmente jogado nos bastidores do poder nacional. Graças ao seu faro apurado para detectar as mudanças nos gabinetes mais poderosos do país, trocou de lugar e de camisa conforme suas conveniências, saltando da nau que afundava para embarcar na que passava ao largo.

Em algumas das situações arriscou o pescoço, mas saiu-se bem na grande maioria das vezes. A luxúria e o excesso de autoconfiança o fizeram cometer um erro quase fatal, quando quis se antecipar e identificar os votos dos seus colegas de Senado na sua sucessão na presidência da casa. Foi dado como politicamente morto. Mas renasceu das cinzas.

Quando se trata de compor o perfil do coronel todo-poderoso, a grande imprensa prefere destacar o lado folclórico e cordial de ACM do que sua selvageria, só bem conhecida pelos mais íntimos. O objetivo, se não explícito, subentendido, é aproximá-lo da figura de um coronel boa-praça e simpático, como o que Paulo Gracindo interpretou na famosa novela de Dias Gomes para a televisão, O Bem-Amado. Ou seja: transformá-lo em ídolo. Malvadeza, sim; mas, sobretudo, Toninho.

O maior dos coronéis

ACM fez e desfez como raros políticos em toda história brasileira. Foi um dos mais bem-sucedidos no desempenho do papel de eminência parda. Mas nunca conseguiu ser presidente da república – e nem fazer um todo seu. Isto foi alcançado por outro coronel, a meu ver, por isso mesmo, maior do que ACM: o maranhense José Sarney.

Talvez, sem reivindicar o título, ele tenha sido até mais convincente no quesito no qual seu eventual concorrente mais se orgulhava de desempenhar: o das relações públicas, a arte de fazer amigos & influenciar pessoas cinzelada por Dale Carnegie.

A competência de ACM em atrair, agrupar e favorecer uma miríade de estrelas baianas e constelações aderentes levou à fundação (por existência real ou atribuída) da chamada máfia do dendê. Dessa Cosa Nostra são apontados como inquilinos de esquerdistas (mortos ou vivos), como Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, a pop-stars do figurino de Caetano Veloso.

À ilharga de José Sarney (ademais de tudo, um codinome) nunca houve tantos artistas como os que gravitaram ou gravitam em torno de ACM, mas ele sempre teve pessoas inteligentes e sagazes ao seu lado. É bom nunca esquecer que o nosso José de Ribamar de Araújo Costa (o nome de batismo) era da ala esquerda da UDN (a dita Bossa Nova) quando os militares depuseram o presidente João Goulart, em 1964.

Já deputado federal, relata a crônica que Sarney serviu de motorista para levar o perseguido deputado paraense (e igualmente udenista-bossanovista) Clóvis Ferro Costa à sede de uma embaixada, ainda no Rio de Janeiro, onde o parlamentar se exilou e escapou da prisão.

Mutatis mutandi duas décadas depois, Sarney tornado presidente pelos caprichos dos deuses da Antiguidade (mais caprichosos na tessitura dos destinos humanos do que o monoteísmo vigente), o sempre correligionário Ferro Costa ganhou um dos melhores empregos da república: o de procurador da Itaipu Binacional.

A fidelidade canina sempre foi o passaporte exigido por Sarney dos que pretenderam ingressar no reduto do seu compadrio e fisiologismo. Retribuía aos iniciados com todos os favores dos esquemas de poder, independentemente de lugar ou objeto. O versejador Bandeira Tribuzzi, por exemplo, apesar da iconoclastia, foi erigido à condição de maldito sancionado. Sua obra completa (e irregular) foi publicada pós-morte como uma prova do lado intelectual, altruísta e democrático do seu mecenas.

Imortal em vida

Uma no cravo, outra – mais forte ainda – na ferradura. Com a gazua do seu arquivo de ex-presidente, Sarney edificou um memorial, encontrou um lugar privilegiado para tomá-lo como sede, mandou a conta de investimento e custeio para a viúva e nomeou-se o administrador desse legado até a morte, sem deixar de beneficiar sua obra dos favores do incentivo à cultura. Equiparou-se aos marajás da Índia. Tanto que muitos prédios públicos foram construídos no Maranhão para homenagear a família Sarney.

O exemplo mais edificante (digamos assim) dessa construção oligárquica é a Unidade Integrada Fernanda Sarney, no município de Bom Jardim.  Fernanda, bisneta do senador, é como se fosse a infanta de uma família real, aos 6 anos de idade. Antes de poder conceber qualquer ideia de glória, já a conquistou. Qual oligarca pode declarar que chegou a tanto?

Fiel ao velho lema udenista que consagrou a eterna vigilância, porém, José Sarney não dorme sobre os louros conquistados. Trata de ampliá-los cada vez mais. Depois de nomear presidente e um diretor da Eletronorte, a empresa pública mais importante da Amazônia, agora se lança sobre um outro cargo estratégico na região: a superintendência da Receita Federal.

Disso, pelo menos, é o que nos dá conta o diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Brasília, Josias de Souza, em artigo publicado recentemente. O alvo do torpedo maranhense é o técnico José Tostes Neto, no cargo, em função de carreira, desde o começo do governo anterior.

A razão da sua longevidade é o seu desempenho num cargo que tem jurisdição sobre favores e incentivos fiscais, tanto da extinta (e ressuscitada) Sudam quanto da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus).

Na defesa dos interesses do erário, Tostes & equipe têm mantido uma atitude vigilante e incisiva. Foi ele o único dos conselheiros da Sudam, aliás, que se insurgiu, na reunião do Conselho Deliberativo da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (já extinta, mas à espera da “Nova Sudam” petista, de parto difícil), realizada em São Luís do Maranhão, contra a aprovação do projeto da Usimar, apoiado pela então governadora Roseana Sarney e seu marido (vice-cônsul maranhense, ou vice-rei, conforme a circunstância), Jorge Murad.

A aprovação do projeto da Usimar, como agora se sabe, foi o maior dos escândalos na história recente da Sudam, pondo-a a pique. Mas todos os convidados do transatlântico dos incentivos fiscais saíram a tempo, avisados por quem podia avisá-los. E ilesos. Com os bens salvados do naufrágio devidamente em caixa.

Em relação a esse assunto, parecem estar de acordo Sarney e o ainda morubixaba paraense, o deputado federal Jader Barbalho, apontado como o principal responsável pela onda final de irregularidades da Sudam, por abonar tanto o superintendente quanto alguns dos principais beneficiários das fraudes. Afastar Tostes da Receita Federal seria o ato II, a vingança.

Afinal, Roseana casou com alguém com quem o pai também casaria, se tal fosse possível, conforme o ex-presidente já disse e repetiu, dando uma ideia da sua afeição por Jorge Murad, apontado como o articulador de bastidores da aprovação do projeto milionário da Usimar.

A propósito: os 44 milhões de reais liberados efetivamente pela Sudam evaporaram mesmo? Bem que seria interessante a imprensa dar a esse enredo a atenção provocada pela descoberta dos milhares de notas de reais encontrados em um dos redutos dos Sarney, em São Luís, no quase-ex-escândalo da Lunus [que envolveu a filha, Roseana].

Já está na hora, de todo modo, de escrever uma história menos cor-de-rosa dos coronéis brasileiros. Mesmo que ainda falte para tal, já seria algum avanço mantê-los em seus redutos. Ao invés de deixar que espraiem sua sanha de poder.

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (221)

  1. Inspirador este artigo. Trazendo-o para a atualidade colabora enormemente para montar o continental quebra-cabeça da História nacional, sobretudo se, para a montagem, houver a companhia de uma CERPA geladíssima.

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário | 23 de maio de 2017, 10:31
  2. Excelente flashback, para mostrar que perto do Sarney o ACM era uma ternurinha. Lembre-se que ele ainda colonizou um outro estado (Amapa) e se elegeu senador por lá até não querer mais.

    Curtir

    Publicado por José Silva | 23 de maio de 2017, 15:12

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: