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Justiça, Política

Um país surreal

Que país é este?

Quem saberá a resposta com honestidade, convicção e segurança?

Nos últimos três anos, com a Operação Lava-Jato, o Brasil entrou numa catarse coletiva, num processo de lavagem intestinal. Ninguém, ao início do levantamento da corrupção na Petrobrás, podia imaginar a amplitude dos seus desdobramentos.

A cada mês, semana ou dia, nova surpresa. Não uma surpresa comum, até previsível: uma novidade de arrasar quarteirão.

Quando parecia que a Odebrecht afundara o país num poço profundo de sujeiras, surgiram os cínicos irmãos Batista da JBS com sua cartola de mágicos. Dela puxaram vícios, falcatruas, leviandades, abusos e tudo mais que nenhuma enciclopédia mundial da corrupção conseguiu registrar.

Não há limites para a canalhice com o dinheiro público, o abuso de poder, a promiscuidade entre a burocracia estatal e o topo da iniciativa privada. Tudo porque as riquezas da nação estão sendo exauridas por uma exploração selvagem, sem limites, desavergonhada. Nunca circulou tanto dinheiro no país. Nunca se roubou tanto.

Desde 1985, o melhor que a redemocratização fez foi o Plano Real, vivo até hoje. Mas parece que a criação de uma nova e verdadeira moeda serviu de biombo para um assalto sem igual ao erário, a partir das privatizações negociadas mais nos bastidores do que à luz do dia, como fez o PSDB. A social-democracia brasileira se tornou uma vergonha.

O PT, que a sucedeu, deu à sua clientela, o povo pobre, uma fração do que concedeu aos muito ricos. Todos os indicadores sociais positivos, mesmo quando mais manobra estatística do que realidade concreta, são esmaecidos pelo enriquecimento no alto da pirâmide.

Quando os militares deixaram o poder, havia três bilionários no Brasil: Sebastião Camargo, Antonio Ermírio de Moraes e Roberto Marinho. Com FHC surgiram oito. Com Lula, 48. O mais notável deles, Eike Batista, solto da cadeia por Gilmar Mendes, chegou a ser o sétimo mais rico do planeta. Hoje pede o desbloqueio de bens para pagar a multa e continuar fora das grades.

Quando Lula e Dilma, em atos públicos, apontaram para Eike e o celebraram como o modelo do empresário que queriam criar, não sabiam das falcatruas por trás dos seus negócios? E nas muitas viagens pelo exterior com os “campeões nacionais”, não se apercebeu de que o dinheiro desse enriquecimento vinha de bancos estatais, via dinheiro barato, quando pago?

Roubar o erário virou vício dourado para essa elite. Ela não conseguiu interromper seus procedimentos ilícitos mesmo com a força-tarefa anticorrupção nos seus calcanhares. Propina continuou a ser paga e recebida, falcatruas montadas, contratos superfaturados. A proximidade do perigo não serviu de intimidação ou contenção.

Um exemplo dessa histeria do roubo é a mala dos 500 mil reais da JBS para o deputado federal Rodrigo Loures. Flagrado com a mão na botija, ele devolveu a mala. Faltavam 35 mil reais. Ele não sabe contar? Estava nervoso ao preparar a devolução? Cobrou uma comissão sobre ele mesmo? Ou alguém resolveu partilhar o botim, mesmo à custa de ser descoberto?

Nessa voragem do absurdo, temos hoje os ataques aos prédios dos ministérios em Brasília. Vendo as imagens da destruição é impossível não voltar quatro séculos, até o início da industrialização na Inglaterra. Para se libertar da exploração, os trabalhadores destruíam as máquinas, no nível de consciência que conseguiam ter naquele momento

O Brasil diante de nós parece um animal enfurecido e desnorteado. Tanta sujeira lhe causa indignação e revolta, mas sua consciência do que está vivendo parece primitiva. Pode acabar estourando a boiada.

Discussão

13 comentários sobre “Um país surreal

  1. Réquiem dos bons costumes da tradicional família brasileira, revelada pela Sociologia da Reeleição?

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    Publicado por Luiz Mário | 24 de maio de 2017, 18:40
  2. Lucio,

    Excelente síntese histórica em poucos parágrafos. Quem sabe assim, de forma bem simples, os membros de certos partidos que gostam de quebrar coisas ao invés de debater ideias, possam entender um pouco a história recente do Brasil. Tentar é preciso.

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    Publicado por José Silva | 24 de maio de 2017, 20:12
  3. Síntese precisa e necessária meu caro.

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    Publicado por Antonio Carlos Teles | 25 de maio de 2017, 14:22
  4. Está difícil de se fazer entender, Lucio. Nas mídias sociais, pessoas a quem reputamos inteligência e discernimento estão apopléticas, defendendo o indefensável, quase como uma negação para não dar o braço a torcer após ter suas crenças derrubadas pelos fatos. Ninguém é Remo por criticar o Paysandu. Temo que isso resulte em algo pior. Não há equilíbrio.

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    Publicado por Edyr Augusto | 25 de maio de 2017, 15:48
    • Edyr,

      Tivemos por 13 anos um partido martelando na cabeça das pessoas que éramos nós versus eles: a dualidade infernal usada por todos os ditadores bestiais que a Terra já conheceu. Tem muita gente que acreditou nessa balela e não consegue sair dela, pois ter somente duas opções é sempre mais fácil de entender (remo vs paysandu, preto vs branco, rico vs pobre, etc.). Desta forma, em época de crise, dado que “eles” na política é sempre um sujeito oculto, o resultado é esse que estamos vendo: todos contra todos. O resultado não será nada bom.

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      Publicado por Jose Silva | 25 de maio de 2017, 17:28
    • É verdade, Edyr. Um sintoma novo, porém, é o silêncio em que alguns desses fanáticos mergulharam, além dos facciosos. Vão defender agora qual bandeira, que lhes permita beneficiar seus ídolos ou chefes de partido? O cenário ficou confuso, cheio de armadilhas e surpresas. Isso porque não há herói sem mácula. Todos são culpados de seguir uma prática viciada.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 26 de maio de 2017, 09:49
      • Um torcedor do Remo ou do Paysandu, por mais fanático que seja, chega uma hora em que até ele reconhece que o time não vai bem e pede a saída de um técnico ou de um jogador. O que os petistas fazem é o contrário. Quanto mais Lula se afunda, mais eles defendem.

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        Publicado por Jonathan | 26 de maio de 2017, 10:41
      • Jonathan,

        Não estão defendendo o Lula. Estão defendendo a esperança de retomar a boquinha que tiveram durante 13 anos. Era boquinha para tudo que era lado. É isso que os move.

        Por isso tal comportamente é diferente do torcedor. No final das contas, o treinador or jogador ruim não consegue distribuir tantos ingressos grátis para calar a torcida desesperada com suas performances.

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        Publicado por Jose Silva | 26 de maio de 2017, 18:57
  5. Enquanto isso um juiz de Curitiba…absorve Claudia Cruz…esposa de Eduardo Cunha…ela apesar de ser jornalista não consegui pelo entendimento do juiz percebe que os dólares com os quais ela fazia suas compras não tinham origem ilegal!!!!

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    Publicado por Norman | 26 de maio de 2017, 00:33
  6. Enquanto isso um juiz de Curitiba…absorve Claudia Cruz…esposa de Eduardo Cunha…ela apesar de ser jornalista não conseguiu pelo entendimento do juiz perceber que os dólares com os quais ela fazia suas compras tinham origem ilegal!!!! Ela é apenas uma rodovia!!!

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    Publicado por Norman | 26 de maio de 2017, 00:35
  7. Boa: entre as marteladas e o Torquemada de Curitiba.

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    Publicado por Luiz Mário | 27 de maio de 2017, 07:34
  8. Falamos muito e fazemos pouco?

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    Publicado por Rafael | 28 de maio de 2017, 03:26

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