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Política

A história na chapa quente (222)

O suicídio dos dois presidentes:

Brasil de Vargas, Chile de Allende

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 309, de outubro de 2003)

Quando Getúlio Vargas se suicidou, em 24 de agosto de 1954, eu ainda não havia completado cinco anos e morava em Santarém, a mais de três mil quilômetros do “teatro de operações”, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, ainda a capital da república. Mas minhas retinas e minha memória retiveram para sempre aquelas cenas de luto na minha casa, que se abriu para todos os órfãos do “pai dos pobres”.

Papai mandou um telegrama de condolências à família do homem com o qual se reunira por duas vezes, no mesmo Catete, mal chegado aos 25 anos de idade, para tratar com o presidente da instalação da maior indústria de Santarém, a Tecejuta, que beneficiaria a fibra introduzida na região por imigrantes japoneses, a juta.

Getúlio honrou a palavra, dada quando passou pela cidade, na campanha de 1950: autorizou a importação das máquinas e liberou financiamento para a fiação e tecelagem. Mas não pôde voltar para a comemoração da façanha: a crise política nacional o sugou antes.

De volta da viagem “ao sul”, papai trouxe um pequeno disco com a gravação, por Silvino Neto (pai do humorista Paulo Silvino), da carta-testamento de Getúlio. Foi amor à primeira audição.

Decorei a carta. Imitando o sotaque gaúcho, imitado àperfeição, por sua vez, por Silvino, me tornei a atração dos encontros nos quais papai era o centro. Coadjuvado pela declamação do seu filho cabeçudo, é claro. Fazia-o feliz repetindo – sem erro ou vacilação – a leitura daquele documento, de dramaticidade ímpar na história política de um país de falsos líderes e mesquinhos estadistas.

Desde então, Getúlio se tornou uma das minhas obsessões. Logo que pude, aos 12 anos, percorri o soturno palácio que lhe servira de morada final. Li tudo de relevante que se escreveu sobre ele. E me concentrei no ato final da tragédia, até hoje a desafiar a capacidade de reconstituição dos jornalistas e de interpretação dos historiadores e demais doutores. Bibliografia, de todo modo, ainda raquítica diante de ato tão solitário nos anais da quase sempre vergonhosa crônica política brasileira.

Afinal, por que Getúlio se suicidou?

Continuo atrás de uma resposta satisfatória. Sem o rito convincente da passagem, sem a consumação do luto, o cadáver ainda está simbolicamente insepulto. Bate, como um esqueleto incômodo, em algum armário indevidamente fechado da história nacional. Quer sair para a cerimônia do adeus devido.

Conspirariam os fados, porém, para que, duas décadas depois, em outro país, eu pudesse testemunhar outro suicídio político no continente. Como acontecera com Getúlio, eram os militares que, no Chile, queriam a cabeça de Salvador Allende Gossens.

Só que à maneira do país, andino por fatalidade geográfica, germânico na inspiração (ou, dizendo melhor: prussiano). Só que queriam a cabeça literalmente e não de forma alegórica, como nossos militares.

Getúlio teria saído incólume do Catete se tivesse concordado com a segunda deposição manu militari em menos de uma década. A primeira fora em 1945, quando o marechal Dutra, um dos avalistas do Estado Novo, se tornou um dos pais da democracia do pós-guerra (e da guerra fria que se seguiria).

Getúlio concordou em apear da máquina estatal e se confinar no seu Rio Grande até ganhar mandato de senador por mais de um Estado (conforme franqueava a legislação eleitoral da época), ser um bisonho senador para evitar provocações e voltar para a consagradora vitória de 1950.

Suicídio: obra política

Com uma segunda humilhação, desta vez, o velho não concordaria. Talvez não tenha sido apenas por insubmissão de quase-ancião (seus 71 anos pesavam, então, muito mais do que agora), mas também – e sobretudo – pela sagacidade do político, antegozando o prazer de deixar uma bomba de efeito retardado no colo dos golpistas civis e militares, liderados pelo hamletiano Carlos Lacerda. Eles tiveram uma vitória de Pirro. A derrota mortal de Vargas foi sua consagração, uma obra-prima de humor negro salpicada de grandeza humana.

A Salvador Allende, nos seus 65 anos, não foi dada alternativa: ele nunca sairia do Palácio La Moneda naquele 11 de setembro de 1973. Metralhadora em riste, ele foi lá fora olhar e viu o que o esperava. Voltou ao palácio, onde uma semana antes eu tinha ido entrevistá-lo, organizou a resistência local e quando ela se tornou nada mais do que um lance de dados, matou-se a bala.

A princípio, acreditou-se que tivesse sido assassinado, um opróbrio a mais para a ditadura de Pinochet. Mas logo ficou evidenciado o suicídio, a saída de honra que as circunstâncias do cerco ao La Moneda tornaram mais dramática do que a de Vargas.

Aguardei atento que, na enxurrada de produção da imprensa sobre os 30 anos do sangrento golpe chileno, viesse alguma análise comparativa dos dois suicídios, mas nada. Li o que pude para reviver aqueles dias traumatizantes, mas a sensação que me ficou foi de insatisfação.

O que saiu sobre o triste acontecimento do Chile ficou bem aquém da sua importância e significado para os povos deste continente, quase sufocado pela repercussão dos dois anos do atentado de 11 de setembro em Nova York. Ambos os episódios, por sinal, mal contados.

O terrível Mr. K

Significativamente, há um fio condutor entre eles. Esse elo tem nome e sobrenome: Henry Kissinger. Mr. K. era o chanceler do presidente Richard Nixon naquele início da década de 70. Um dos itens mais constantes na sua agenda daqueles dias, a segunda mais poderosa na Casa Branca, era o Chile, centro nervoso de interesse de multinacionais americanas, donas das jazidas de cobre daquele país, minério que respondia por mais de dois terços da pauta de exportações chilena.

Em 5 de dezembro do ano passado, o presidente George W. Bush indicou Kissinger, agora à frente de um dos mais caros escritórios de consultoria estratégica dos Estados Unidos, para comandar as investigações sobre os atentados às duas torres de Nova York. Honrado, o alemão naturalizado americano aceitou. Pouco mais de uma semana depois renunciou à honraria, sem dar explicações.

Kissinger é outro personagem hamletiano. A feroz autoconfiança de anteontem, que o fazia causar estragos entre as mulheres e os homens, circulando com desenvoltura pelo jet-set e os gabinetes oficiais, esfumou-se. Ele sabe que uma prazerosa estadia em Paris, um de seus melhores programas, pode terminar na cadeia.

Mesmo que não seja trancafiado fisicamente como criminoso de guerra (depois de ter sido Prêmio Nobel da Paz: atenção, Mr. Lula!), ele é prisioneiro da sua memória e do resto daquilo que algum dia ele próprio soube chamar de moral ou ética.

Eleito Allende, Kissinger traçou planos para evitar que o candidato socialista fosse empossado presidente. A tramoia começaria com a desastrada operação da CIA (mais uma) de sequestrar o general René Schneider. O bravo militar resistiu e acabou sendo assassinado. A indignação nacional teve efeito oposto ao planejado, garantindo a confirmação de Allende.

A comoção provocada pela morte de Schneider pode ter afetado a capacidade de entendimento do que naquele momento acontecia no Chile. O candidato da Frente Popular teve menos de 2% de votos sobre seu oponente mais próximo, o conservador Jorge Alessandri (36,2% contra 34,9%).

Influía no ineditismo da vitória (e também na sua escassa vantagem, que comprometia a capacidade do presidente de governar numa democracia parlamentar, que ele se comprometera a respeitar) o reconhecimento à carreira de um médico íntegro, que se tornara político aos 29 anos, permanecera por 40 anos no mesmo partido.

Ele ajudara a fundar, o PS, manteve-se por três décadas como senador atuante e disputava a eleição presidencial pela quarta vez em 18 anos, começando com magros 3% dos votos até superar um terço do total, distante de uma votação consagradora, ainda que em trajetória bem parecida, como a de Lula.

Mas havia um outro componente, em geral negligenciado pelos analistas. O candidato democrata-cristão tivera 27,8% dos votos. O problema é que Radomiro Tomic estava mais próximo de Allende do que de Frei, a esfinge do PDC. Em algumas questões, Tomic estava além de Allende.

No meu entendimento, a votação, vista pelo prisma das propostas de programas, muito mais do que de siglas partidárias, indicava que os 64% dos eleitores que votaram em Allende e Tomic queriam mudanças para valer, mas num rumo que tangenciasse um ponto médio entre os dois.

Mudança para valer

Allende não pediu carência nem fez firulas como apresentador de um onírico espetáculo de crescimento: entrou mudando. Mas mudou num esquema ortodoxo, soviético demais, bolchevique demais para o perfil social do Chile. A ineficácia do seu modelo não estava em ser radical (o que era, mas apenas na retórica), mas em não ser adequado. Fazia muita fumaça, mas tinha pouco fogo.

No entanto, Allende acreditava nesse modelo, empenhou-se em realizá-lo numa moldura democrática, que o limitava bastante, e pagou com sua vida para levar a mudança até o fim. Não merece, depois de morto, ser ironizado por essa triste figura que atende pelo nome de Augusto Pinochet (em sua senilidade proveitosa, aproveitando para gozar cinicamente seu papel de duplicidade naqueles idos de setembro de 1973, servindo com uma cara a Allende e com outra comandando os golpistas).

Doutrinário, o presidente regulamentou os três setores como se pudesse dividir a sofisticada economia chilena em departamentos, separando com clareza a área estatal, a privada e a mista, impondo-lhes um planejamento centralizado que regulamentaria, até os limites da reação de interesses contrariados, e profundamente contrariados.

Um locaute de patrões, seguido pela subsidiada paralisação de caminhoneiros, feriu de morte o modelo de mudança de Allende. Um país tão extenso era completamente vulnerável ao colapso dos transportes.

Lembro-me, nas minhas três semanas chilenas, de uma caminhada de hora e meia em Santiago atrás de um restaurante suburbano que fornecia carne de carneiro, com a qual interromperia dias seguidos a comer – à exaustão – apenas frutos do mar. Já uma indisposição só foi tratada por um médico graças à gentileza de meus anfitriões do jornal El Mercúrio, um dos baluartes do golpe.

A conspiração para a derrubada de Allende se armava diante dos meus olhos, no Sheraton, o hotel da ITT que servia de quartel-general para os homens da CIA. Dias antes do golpe fui a Valparaíso, levado por um informante para ver os ensaios que a Marinha fazia (inclusive com bombardeios) para o dia fatal, já assinalado na agenda bifronte de Pinochet.

Ironia das ironias: o presidente ignorava que o golpe começaria exatamente na sua terra natal, comandado por seu general de confiança (algo como Assis Brasil, o general do metafísico esquema militar de Jango, aparecer a 1º de abril no lugar de Olympio Mourão Filho Ou Luiz Carlos Guedes). A desatenção cobraria um preço caro demais do cordial, simpático e decidido cidadão Salvador Allende.

Estava ao seu alcance criar sovietes no Chile a partir de um golpe de mão, subvertendo o regime que lhe possibilitou a vitória eleitoral? Hoje, mais do que nunca, estou convencido de que não havia essa possibilidade, nem na realidade nem na cabeça de Allende. Mas ele, querendo mudar para o futuro, tinha como referência o passado. Levaria seu amado país ao impasse.

Duvido que viesse a propor uma solução de força para esse impasse, embora tentasse, à maneira do pai, que lhe deu lições de firmeza e determinação numa família saudável e vanguardista, levar o impasse aos seus extremos de ruptura, resguardando a via democrática, na qual vinha trilhando havia quase meio século, exemplarmente.

O risco do golpe

Só que a elite chilena não lhe deu essa oportunidade. Como tem acontecido invariavelmente no continente, as regras do jogo democrático, quando chegam a encarar a mudança para valer, são mudadas com a partida ainda em andamento. O dono da bola leva-a para casa e os outros que curtam a frustração, quando não a experimentam amargamente na própria pele.

Num continente no qual a revolução costuma ser palavra de ordem vazia de conteúdo nas mãos dos que se dizem seus parteiros ou um espantalho para os que querem espantar a reforma, mudar é pecado. Daí o nosso Lula ter-se penitenciado antes de cometer esse pecado. E Allende ter honrado com sua vida os erros cometidos.

Quando cheguei ao aeroporto do Rio de Janeiro, vindo da fumegante Santiago, tive ímpeto de nojo ao deparar o jeito brasileiro de então, entre a tropicália que se apagara e a pilantragem estabelecida antes de entrar em vigor a lei de Gerson. A readaptação aos tempos do general Médici, num momento em que o general Pinochet ainda não sentara no seu trono manchado de sangue, foi difícil.

Talvez por isso, nunca mais tenha conseguido voltar ao Chile. Mas, quem sabe, agora que a estátua de Allende foi colocada diante da porta principal do Palácio La Moneda e a rua Morandé foi reaberta, eu consiga voltar à bela e trágica Santiago?

Tomara. Voltar, nesse caso, será ir. Tomara que sim. Colocarei flores e certamente deixarei algumas lágrimas tímidas em homenagem àquele homem merecedor dos nossos respeitos, não de bala.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (222)

  1. Belo texto. Os políticos de hoje não teriam a coragem de morrer por seus ideais. Eles não possuem as duas coisas: coragem e ideais.

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    Publicado por José Silva | 25 de maio de 2017, 23:54

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