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Segurança pública, Sem categoria, Violência

A história na chapa quente (223)

Campo em chamas

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 310, de outubro de 2003. Gostaria que oe leitor o comparasse ao massacre de Pau d’Arco, que aconteceu anteontem.)

Um dos exercícios intelectuais a que frequentemente me dedico é imaginar como teria evoluído a Rússia czarista se os nobres tivessem dado crédito de confiança ao Conde Stolypin. Convencido de que a razão da letargia de seu poderoso país estava amarrada ao imobilismo no campo, o conde quis fazer uma reforma agrária para valer, capaz de modernizar a agricultura russa.

Mas foi sabotado pelos seus pares. Eles certamente perderiam os anéis com Stolypin, mas perderam muito mais com os bolcheviques (sinceramente preocupados com os camponeses, é verdade, mas incapazes de entendê-los no seu projeto autoritário de reforma agrária, que resultaria na destruição dos mujiques e no malogro das fazendas coletivas).

O conde russo me veio à memória enquanto lia as estatísticas divulgadas pela Comissão Pastoral da Terra duas semanas atrás. Há quem questione o rigor dos números e dos conceitos usados pela CPT, sempre sujeitos a inconsistência metodológica. Mas não me darei a esse trabalho: vou aceitá-los como estão.

O que eles sugerem? Indicam que papá Lula recebe de braços abertos os sem-terra, enverga-lhes o boné, promete-lhes cumprir a reforma agrária incluída como item de programa eleitoral, mas o governo do PT limita-se, no básico, a não reprimir essa energia liberada.

Isto não é pouco se lembrarmos da ferocidade de outros governos, flagrantemente parciais a favor dos proprietários rurais. Mas isso é também brincar com o fogo – dos outros, naturalmente. Não muito propensos a metáforas, os donos da terra interpretam a simpatia presidencial como cumplicidade maliciosa.

Tratam, então, de colocar os cachorros na rua, a maioria deles portando pistolas ou espingardas. A ampliação do confronto e seu crescente saldo de sangue são previsíveis. Já estão ocorrendo.

Segundo a CPT, até setembro, as ocupações cresceram quase 75% e o número de acampamentos quase triplicou. Em compensação, houve 84% mais despejos, 41% mais prisões e 100% mais assassinatos, sendo o Pará o campeão, com quase dois terços dos casos registrados, 80% a mais do que em 2002.

Vai voltar a lei da selva, com o mocinho homisiado em Brasília, ou sabe-se lá onde?

Discussão

3 comentários sobre “A história na chapa quente (223)

  1. Pois é!! O Lulo-dilmismo de um lado fortaleceu o MST e de outro lado fazia proprinagem com a JSB, um típico empreendimento baseado no latifundio. Ficou dançando com os dois lados e não resolveu problema. Na verdade, criou mais problemas ao assentar pessoas em áreas de floresta, o que gerou mais desmatamento. Reforma agrária na Amazônia tem que ser feita em área de pastagem abandonada, perto de estrada e do apoio técnico, e nunca em área de floresta. Deu no que deu.

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    Publicado por Jose Silva | 26 de maio de 2017, 19:18
  2. É mais que deprimente olhar o horizonte a ver confirmada as duas faces da moeda que há muito era escamoteada pela Casa-Grande, com a cultura da corrupção. Sociologia da reeleição….

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    Publicado por Luiz Mário | 27 de maio de 2017, 07:49
  3. A meia-verdade é sempre uma absoluta mentira….

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    Publicado por Luiz Mário | 27 de maio de 2017, 19:06

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