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Militares, Política

A história na chapa quente (224)

O valor dos ideais

(Arigo publicado no Jornal Pessoal 310, de outubro de 2003)

Sou contra a indenização de anistiado, uma espécie de seguro político. Se alguém foi prejudicado em seu trabalho pela ação do Estado, deve pedir na justiça reparação. Há uma ação própria para o caso. O governo podia intervir tornando o rito sumário. E só.

Quem se opõe a um governo ou a um regime está consciente de que não vai para um piquenique. Se a litigância derrapou para a perseguição aberta, em todos os níveis, prejudicando parentes e agregados da vítima, à justiça compete averiguar o problema e dar um destino favorável ao prejudicado. Pagar-lhe uma indenização me parece uma distorção.

No entanto, três mil oposicionistas do regime militar já receberam, recebem ou aguardam para receber indenização já deferida, entre eles os dois últimos presidentes da república, o professor Fernando Henrique Cardoso e o operário Luiz Inácio Lula da Silva, de um total de 20 mil que pleitearam do governo o benefício.

Há uma lei amparando-os, mas o Ministério da Justiça é quem faz a triagem, caso a caso. Pode acertar muito, mas errará muito também. Pode errar de boa fé, mas também pode acertar com fins escusos ou fisiológicos.

Essa bacia das almas faz mal à história do país e até mesmo à sua corrente de oposicionistas e divergentes dos regimes políticos. É uma tristeza constatar que o Brasil é um país dado a perseguir ideias e reprimir ideais. Mas essa história não ficará melhor apenas porque um grupo de injustiçados (e certamente a menor parcela deles) levou para casa uma grana para compensar o que sofreu. A monetarização de conceitos éticos, morais e políticos envilece sentimentos de outra estatura.

O caso dos guerrilheiros mortos no Araguaia é um exemplo. O governo Lula está protelando, e protelando de forma vergonhosa, um direito das famílias desses jovens: encontrar seus corpos e enterrá-los com dignidade. Não precisa ir à letra da lei para fundamentar esse direito.

Qualquer psicanalista amador sabe que sem o luto o morto permanece fantasma e os que ficaram não desfazem o nó que os atrela além da vida. É elementar solidariedade humana dizer onde foram enterrados esses guerrilheiros e entregar seus corpos aos parentes. E ponto final.

Mas aí entra a questão da indenização. As famílias terão que ser ressarcidas? Quais as consequências da entrega dos corpos, como compromisso do Estado para com essas pessoas?

É aí que esse mal-entendido mais se torna um despropósito. A guerrilha do Araguaia já devia ter-se tornado matéria de história. A anistia, concedida em 1979, devia ter-lhe tirado o sentido de libelo, reparação, ajuste de contas.

O Brasil precisa lançar-se objetivamente sobre um acontecimento que padece, notoriamente, de superdimensionamento, tanto do lado dos vencedores (de Pirro) quanto dos derrotados (já derrotados em seus erros antes de serem liquidados numa generalizada queima de arquivo).

Para isso, é preciso partir de dois pressupostos: os corpos devolvidos a quem de direito para arrematar o luto e cumprir o rito de passagem, e a indenização cancelada, dando aos fatos que passaram o selo de coisa histórica. Aí, talvez, de novo, o Brasil se surpreenda por ver, num suposto momento de drama e tragédia, mais uma comédia de erros de sua elite.

Tanto os jovens idealistas de esquerda, que se transportaram de suas cidades para o teatro de operações, no “sertão”, onde montariam o foco da revolução, como os comandantes militares de direita, à frente dos seus jovens soldados, igualmente urbanos, não sabiam o que iam enfrentar e o que sabiam era, no mais das vezes, pura fantasia.

O Brasil continua a ser um desconhecido – ou uma incógnita – para o Brasil. Seja em Canudos, na Coluna Prestes, no Contestado como no Araguaia, terra da bandeira verde e não da bandeira vermelha.

Discussão

3 comentários sobre “A história na chapa quente (224)

  1. Pois é. Mais um caso da famosa luta por privilégios de acesso ao bolso da viúva. Cada um quer o seu. Argumentos são os mais variados. Neste caso específico, teve até gente que não disse um “ai” contra a ditadura, mas que embolsou uma boa grana mensal.

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    Publicado por Jose Silva | 26 de maio de 2017, 18:40
  2. Viva as redes sociais que revelaram a zona de conforto de uma classe média forjada no saco escrotal dos bandidos políticos profissionais….

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    Publicado por Luiz Mário | 27 de maio de 2017, 19:20

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