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Cidades, Transporte

A história na chapa quente (225)

A vida nas ruas:

bem sem valor

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 310, de outubro de 2003)

A cena me assusta e freio. Uma mulher, em sua bicicleta, desce a avenida Conselheiro Furtado. Na garupa, mal atracada, uma criança, que ainda não tem seis anos. As mãozinhas tentam se grudar às largas costas da mulher. Pode cair a qualquer momento na via de tráfego intenso.

Paro sobre a sarjeta à espera da ciclista insensata, preparando-lhe um sermão. Talvez ela tenha intuído. Atravessa para o outro lado e toma a direção da contra-mão. Pelo retrovisor, acompanho a cena até que a bicicleta some numa transversal. Sobreviverão? Por quanto tempo?

Saio ruminando com a cena na cabeça. Há cada vez mais bicicletas nas ruas de Belém. Solução de emergência: o povão já não tem dinheiro para o ônibus diário. Recorre à bicicleta. É verdade: é necessário ter algum capital para imobilizar na compra.

Mas se você reunir três pessoas que não estejam no top de linha da sociedade, alguém contará de pronto uma história de roubo de bicicleta. Vacilou, lá se vai a bicicleta. Olhos mágicos parecem estar à espreita do menor descuido para agir. Demanda aquecida de mercado, diagnosticará qualquer economista.

Duas ou quatro passagens de ônibus por dia pesam no orçamento. Resvala-se para o mercado informal: uma bicicleta usada pode ficar por 10% do preço original quando oferecida por um – digamos assim – descuidista. Daí a multiplicação do transporte sobre duas rodas não-motorizadas. Já há até estacionamento para trabalhadores que se transportam por bicicleta.

Um deles, numa vila, ao lado do Líder da Doca. Logo cedo as pessoas chegam para o serviço e deixam sua máquina para um rapaz, que vai enfileirando-as dos dois lados da passagem e depois fica cuidando delas com a fidelidade de um pastor de ovelhas. Aquele do sermão bíblico.

Daqui a pouco o ônibus ficará mais caro. Graças à encenação de sempre: as empresas pedem por cima para a prefeitura conceder pelo meio. A taxa de lucro reduz, mas é um bom preço a pagar para o sistema viciado permanecer intocado.

Sai administração e entra administração no município, mas a mecânica permanece inalterada, a despeito dos discursos, à esquerda e à direita. Itinerários irracionais e excesso de veículos para guardar lugar, mantendo o oligopólio, o cartel.

Para quanto irá a tarifa agora? Talvez R$ 1,30? Não é caro, talvez. Mas é insuportável para o povão, o que mais precisa do transporte coletivo. Podia-se reduzir as gratuidades ao mínimo, rigorosamente ao mínimo. Por que os Correios têm essa franquia, que não concedem a ninguém? Pois que acrescentem um plus aos seus carteiros.

O judiciário também pode arcar com as despesas dos oficiais de justiça no cumprimento dos seus mandados. Não é para isso, também, que existe a taxa, um recurso extra-orçamentário de uso (e comprovação) fluido? Por que policiais entram e saem dos ônibus sem-cerimônia? Não recebem vale-transporte? Se não recebem, que passem a receber.

As pessoas bem postadas em seu transporte individual ou numa poltrona do poder costumam se esquecer que o transporte público de massa é uma concessão pública. Ou seja: um serviço em favor do público em geral e não de uns mandarinatos ou grupos de privilegiados. Tem que ser o melhor possível.

Quando conheci Portland, a capital do Oregon, em 1990, me espantei ao descobrir que, na área central da cidade o transporte coletivo é completamente gratuito. Depois de estudos, a prefeitura descobriu que saía mais barato e melhor fazer assim do que tentar qualquer outro sistema. E isso num país como os Estados Unidos, vacinado contra o socialismo.

Por aqui, tomamos sustos quando vemos cenas como a da mãe e sua filhinha na bicicleta. Comprovamos, mais uma vez, a undécima, que a miséria do povo e a pouca-vergonha dos seus representantes e dirigentes estão tornando a vida um bem sem valor.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (225)

  1. “Depois de estudos, a prefeitura descobriu que saía mais barato e melhor fazer assim do que tentar qualquer outro sistema.”. Por que a PMB não possui sua própria frota?

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    Publicado por Luiz Mário | 31 de maio de 2017, 08:13

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