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Cidades, Sem categoria

Isto é Belém

Meio dia e meia. A canícula é de derreter os ossos. Sol a pino. O ônibus NSL 9160 da linha Eduardo Angelim-Ver-o-Peso está no prego bem no alto do viaduto do Entroncamento. Os passageiros não podem descer: o viaduto não tem acostamento. Descer significa expor a vida ao perigo, que pode ser letal. Vão ter que esperar pela chegada de um outro veículo da mesma empresa para serem retirados daquela câmara ardente. O ônibus é velho, sambado, anunciando o que acontece todos os dias com a precária frota do transporte coletivo em Belém: entrar em pane. Circulam incólumes. Ninguém sabe, ninguém vê. Belém é isso.

E a refrigeração?

O tema foi debatido, mas, com perdão da abusiva expressão, esfriou. Estuda-se se a introdução da refrigeração nos ônibus ordinários (ou ordinaríssimos) de Belém deverá avalizar um aumento no valor da tarifa. Pela linha do BRT, os (quatro) ônibus são confortáveis, espaçosos, novinhos, têm ar condicionado, circulam em faixa exclusiva, saem de uma grande estação e custam R$ 3,10.

Qual a dúvida?

Corredor polonês

A avenida Almirante Barroso tinha seis pistas. Uma de cada lado foi abocanhada pelo BRT, deixando apenas duas para o fluxo que antes congestionava tudo nos momentos de pico do trânsito. A partir de hoje à noite, mais uma pista será bloqueada por um tapume, deixando uma única pista, ao longo de 70 metros, na direção Belém-Ananindeua.

Os BRTs e os (supostamente) expressos são obrigados a disputar as duas pistas que restaram em cada sentido da avenida quando tapumes metálicos avançam sobre a via paralela à especial. No espaço que eles protegem deveriam as obras do BRT estar em andamento, se não acelerado (o que seria pedir demais à prefeitura), pelo menos constante. Mas há meses nada há por detrás do tapume. À frete dele, um caos sobre rodas atormentando os motoristas e agravando o sofrimento dos passageiros de ônibus.

E ninguém toma uma providência.

O BRT é o retrato de uma cidade incompetente, acomodada, irracional, caótica e entregue à própria sorte.

Discussão

6 comentários sobre “Isto é Belém

  1. Lúcio, além de visibilizar em tempo real o contexto do flagelo da engenharia urbana de Belém, em muitos textos que produz e publica neste blog, é surreal a capacidade do texto em trasportar o leitor ao cenário.

    Neste exemplo, cabe com toda certeza a possibilidade de ser transportado essa realidade para os meios televisivos e mesmo cinematográfico.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 7 de junho de 2017, 17:39
    • Exatamente, Thirson. Se a televisão seguisse uma pauta mais realista (ou surrealista) podia tirar governantes e governados de um torpor que parece antecipar a nossa condenação e danação. Ninguém reage diante dos absurdos diários de Belém, que a colocam no rabo da fila das grandes cidades brasileiras.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 7 de junho de 2017, 17:46
  2. E já existem várias tapumes que está lá a quase um ano.

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    Publicado por Everaldo | 8 de junho de 2017, 09:02
  3. Essas empresas que colocam ônibus velhos e sem nenhuma
    manutenção nas ruas deveriam ser severamente punidas, com aplicação de multas elevadíssimas. Afinal, elas são concessionárias de serviço público e, nessa condição, tem o dever de prestar um serviço de qualidade à população. Mas neste faroeste caboclo, nada acontece. Os usuários são retirados dos ônibus e que se danem para esperar um outro, lotado, sujo e velho. Problema deles se o sol
    está escaldante ou se perderão seus compromissos. Quanto aos “privilegiados”, que possuem um carro para se locomover nesse inferno chamado Belém, amargarão horas de congestionamento, perderão seus compromissos, atrasarão suas agendas, porque um infeliz, que se beneficia de explorar o serviço público há décadas, sem nenhum retorno à população que lhe paga caro, não está preocupado com a manutenção da frota; ele não utiliza o transporte coletivo, tampouco seus familiares. Ademais, alguém vai afiançar toda essa irresponsabilidade. Não é sempre assim? E a conta, deixa que o povo paga. Sinceramente, viver em Belém está se tornando insuportável!

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    Publicado por Marilene Pantoja | 8 de junho de 2017, 14:01
  4. O belenense não cessa de apertar 45 e confirmar. Que arquem com as consequências. Estranho a ausência do nome de Zenaldo no texto, mas tudo bem.

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    Publicado por Jonathan | 9 de junho de 2017, 01:04

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