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Política

A história na chapa quente (233)

Governo Lula:

auto-iluminado

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 315, de janeiro de 2004)

O PT padece do mal das minorias messiânicas: não interessa o que os excluídos do seu círculo iluminado pensem ou digam, os petistas são os profetas da verdade. O que dizem tem que virar lei, mesmo quando o que dizem se choque ostensivamente com a realidade.

Não importa: se suas palavras ainda não são a verdade, sê-lo-ão daqui a pouco. Porque isso já está escrito – nos códices ou nas estrelas. Limitam-se a dar voz (ou “verbalizar”, como preferem) aos deuses da fatalidade, dos quais são os intérpretes. Predestinados à tarefa. Mocinhos do celuloide.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não cessa de repetir esse comportamento milenarista. Por isso, costuma abandonar textos adredemente escritos por sua assessoria técnica, mesmo quando as circunstâncias recomendam medir e pesar cada palavra que sai da boca da autoridade máxima do país, como nas cerimônias oficiais ou nas missões cumpridas fora do Brasil, vinculadas ao protocolo oficial, com repercussões além-fronteira.

Também faz parte desse rito repetir o discurso à exaustão, mesmo quando os pagãos insistem em mostrar que a autoridade está considerando apenas um aspecto da questão e ignorando outra parte, talvez até mais importante. A repetição criará a verdade quando a verdade, ignorada, maltratada e reprimida por deliberação, se tornar detalhe imperceptível ou irrelevante.

No caso da administração petista, ainda se está muito longe do que fez o nazismo com a “solução final”, mantida fora do foco de interesse do cidadão comum (na Alemanha e fora dela) por mais tempo do que autorizava a noção mais elementar de dignidade humana. Certamente nem se chegará a uma distância que permita tal paralelismo. Mas a escamoteação do presidente da república, que serve de parâmetro para seus companheiros da administração pública, já é preocupante.

A propaganda federal vem insistindo, desde os albores festivos do fim de ano, em estatísticas favoráveis ao governo, alardeadas por ordem do chefe da propaganda, Luís Gushiken, e “toques” de seu Midas, Duda Mendonça.

As façanhas exaltadas

O sacerdote leigo dessa religião civil, Henrique Meirelles, presidente do Banco Central (e ex do BankBoston), recitou o decálogo das “conquistas recentes da economia brasileira” perante o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, auditório de ressonância para o discurso oficial.

Meirelles provocou satisfação e palmas ao apresentar números sobre o resultado primário da economia em 2003 e seu desempenho desde 1995, a relação dívida/PIB, a balança comercial, o superávit em transações correntes, o “risco Brasil”, a taxa de câmbio e outras prebendas de semelhante quilate.

Todos esses indicadores experimentaram melhora no ano passado. Isto quer dizer que o brutal sacrifício dos brasileiros para azeitar e colorir esses números deu resultado. O que os outros sacerdotes, os adoradores do mercado, previam e queriam se concretizou, realizando-se até além das melhores expectativas. Já a corrente dos pessimistas crônicos terá que arder no óleo da inveja e do rancor.

O cidadão brasileiro apertou ainda mais o cinto, deixando de gastar (com algumas despesas supérfluas, é verdade, mas sobretudo com comida, moradia, educação, saúde e coisas outras assemelhadas, excluídas do cardápio internacional do país com glamour) para que sobrasse dinheiro no orçamento fiscal. O plus gordo foi drenado para a amortização da paquidérmica dívida, cobrada tanto por banqueiros nacionais quanto pela plutocracia internacional.

Fizemos a “lição de casa”, como repete aquele tipo de bom – e chatérrimo – aluno que tira nota alta porque decora os ensinamentos e faz-tudo-que-o-professor-mandar. Aulas que vieram prontas lá de fora, trazidas e cobradas pelo mestre FMI.

A fome de trabalho

Tão bem feitas que o doutor Meirelles simplesmente ignorou as duas estatísticas mais importantes, ao menos num receituário honesto, para tratar o doente da casa (em casa) e não o levantino financeiro de ultramar: a evolução da renda e do emprego. Ambas foram negativas. Inquietantemente negativas. Lula prometeu 10 milhões de empregos em quatro anos e já está devendo 400 mil a três anos do final do seu mandato.

Em 2003 o brasileiro ganhou menos e encontrou menos trabalho. Isso quer dizer que, para cumprir os compromissos com seu credor, o brasileiro médio (não aquele 1% de canibais, que abocanham metade da renda nacional) ficou mais pobre no ano passado. Roto, é verdade, mas em dia com o agiota. Recebeu uma agenda personalizada como prêmio para enfrentar 2004. E tapinhas nas costas, como merece o bom menino.

O período abrangido pelas estatísticas do presidente do Banco Central (petista da undécima hora) começa com o primeiro ano do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso – e não por acaso. Meirelles, puxador de samba petista guiado pela partitura da banca mundial, quer mostrar que houve de fato uma má herança a assumir em 2003, mas ela foi mais bem administrada do que podia prever o mais cético dos críticos, à direita ou à esquerda do epicentro petista.

Seria injustiça incluir FHC entre esses pessimistas, ou terá sido falso o abraço caloroso e as referências gentis de Lula ao ex-presidente, no encontro da semana passada, quando ambos receberam prêmio (e mais 10 mil dólares para cada um) da Universidade Notre Dame, americana, em nome da corporação Kellog (uma das usinas ideológicas da livre iniciativa nos Estados Unidos), pelos bons serviços igualmente prestados à causa (declaradamente, a causa democrática, mas ela é apenas o abre-alas, é claro).

O melhor uso

No fundo, o ex-sociólogo e seus aliados (e patronos) sabiam que o ex-líder operário seria muito mais útil e eficiente à causa do que qualquer outro candidato presidencial na disputa de 2002, incluindo José Serra, do PSDB (em cujo ninho os tucanos não se beijam: bicam-se).

Para que a administração FHC pudesse colher em 2003 os resultados celebrados por Lula & coro, alardeando urbi et orbi  as excelências da democracia à brasileira, seria preciso que o PT deixasse de impedir a aprovação das reformas tributária e previdenciária, como vinha fazendo com a competência de oposicionistas a qualquer preço (mesmo que à custa de muita bravata, conforme admitiria, retrospectivamente, Lula-já-lá-presidente).

Como fazer isso? Ora, passando o cetro para Lula & seus petistas (ainda) abstêmios. Dentro do cetro, é claro, iam os mesmos textos da reforma demonizada (e, portanto, adequadamente anatematizada) pelo PT pré-poder.

Solução simples e convincente, como o ovo de Colombo: o novo PT conseguiu fazer o Congresso aprovar os projetos que o velho PT de então, com seus muito úteis Babás, Genros & Heloísas, não deixava descer goela abaixo da nação.

Para não haver reação adversa ou incompatibilidades genéticas, tratou-se de mandar os políticos de programa cantar em outra freguesia, bem abaixo das instâncias decisórias de Brasília. Assim, a crise de credibilidade seria debelada e seus sensores de aferição, como o “risco Brasil”, poderiam dar o sinal verde.

Para o quê? Para o plano B (ou Z, como na época de Collor?), guardado dentro do cofre para quando o controle dos aparelhos de Estado estiver consolidado suficientemente para permitir um golpe de mão? Ou para o choque de realidade, de que só há um enredo sincrônico e que, para enfrentar a diacronia, é preciso mais do que metáforas de Jararaca & Ratinho? Os próximos dias responderão.

O PT tem um sólido programa de poder, que o ministro-secretário-geral José Dirceu vai conduzindo com maestria. Só não tem um programa de governo. Daí o que executa se parecer tanto ao roteiro de FHC. Quem examiná-lo com a devida atenção deve encontrar a marca do carbono no papel. A retórica socialista é o glacê para o conteúdo neoliberal que, um dia (a mitologia do dia-que-há-de-chegar, abundante na música popular brasileira), vai ser negado e revertido.

Passado o réveillon, o presidente Lula talvez tenha descoberto, roladas e evaporadas as águas ardentes, que se tornou FHC amanhã, melhor na reprodução do que a matriz não assumida. Exatamente por ser o outro lado da mesma moeda, o lado até então mantido à parte, como a face oculta da Lua. E não, como ele próprio imaginava, quando ainda era apenas um grande sujeito fazendo política como a arte da bravata, a outra moeda, aquela capaz de financiar o Brasil dos sonhos. Dos sonhos brasileiros que se estão a evolar.

Por ora ou para sempre? Desfazendo-se mesmo no ar?

Discussão

8 comentários sobre “A história na chapa quente (233)

  1. “o presidente Lula talvez tenha descoberto, roladas e evaporadas as águas ardentes, que se tornou FHC amanhã, melhor na reprodução do que a matriz não assumida.”…S. R.

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    Publicado por Luiz Mário. | 16 de junho de 2017, 09:33
  2. É sempre bom rever a história. Lula não aprendeu e continua sendo messiânico. Ele foi o presidente mais neoliberal do Brasil, transferindo bilhões da sociedade para os bolsos dos campeões nacionais. Lúcio, tal como você diagnosticou claramente, o PT tinha somente um projeto de poder. Nunca teve um projeto de governo e nem uma visão clara para o país. O resultado de tanta lorota está ai para a felicidade dos incrédulos seguidores do Messias de Garanhuns.

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    Publicado por Jose Silva | 16 de junho de 2017, 15:48
  3. “A História se repete como farsa”, tendo acontecido antes como….

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    Publicado por Luiz Mário. | 16 de junho de 2017, 18:06
  4. Para alguns, a história é sempre uma farsa, principalmente quando se trata de justificar o injusticável.

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    Publicado por Jose Silva | 17 de junho de 2017, 11:05
  5. O que dizer da corrupta elite?!

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    Publicado por Luiz Mário | 17 de junho de 2017, 21:36
  6. Boa! Se confirmada a somatória, talvez haja um novo país.

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    Publicado por Luiz Mário | 18 de junho de 2017, 09:55
  7. O tempo passou a renda e o emprego depois subiram, deu toda aquela euforia, o aumento do consumo e do endividamento. Os números por si só podiam indicar um uma boa posição, mas era temporário, não era um crescimento tão sustentável. E na euforia as pessoas esqueceram de guardar e fazer as reformas estruturantes e necessárias. Os magos econômicos se autoelogiavam mostrando seus resultados. O engraçado que é que o tempo passa, mais e dez anos, e o mesmo personagem, Henrique Meireles, está de novo em uma posição importante do comando da economia nacional.
    Mas depois da euforia vieram os tempos difíceis e as coisas desandaram. Vieram as soluções piores de segurar o preço do gasolina, desoneração de empresas, entre outras coisas. A economia simplesmente desandou e andamos para trás perdendo muito mais do que ganhamos em toda aquela euforia. E no pior das reformas o governo economiza na parte mais fraca tirando os direitos de quem menos tem em vez da burocracia.
    Como na outra postagem as pessoas falando do que se poderia fazer com o dinheiro que foi gasto em Brasilia. Não adianta rever o que foi feito. E assim se vai o Brasil. Como foi dito, é difícil colocar esse paquiderme para andar.

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    Publicado por Fabrício | 5 de setembro de 2017, 17:47

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