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Justiça, Política

Cinzas & cinzas

A entrevista que o empresário Joesley Batista deu à revista Época, divulgada ontem, tem poder destrutivo suficiente para ejetar Michel Temer da cadeira de presidente da república.

Na atual conjuntura, porém, pode não ter esse efeito. Sem dúvida, termina de revelar a melancólica dimensão criminal de um professor de direito constitucional e jurista de nomeada. Mas também abala as instituições brasileiras envolvidas nas denúncias de um dos donos do grupo J&F.

Joesley apimentou ao máximo as declarações que já fizera. O objetivo é óbvio: valorizar o que disse e se prevenir contra os efeitos danosos – para ele, mas não para as pessoas citadas ou por trás das citações, eventualmente ainda no anonimato, mas dele bem conhecidas – do desdobramento da sua iniciativa. Assumiu uma chantagem explícita, radical.

Por isso mesmo, o homem que volta ao palco para uma edição ampliada e agravada da sua peça inicial já não merece a menor consideração. Se Temer é o chefe da maior e mais perigosa quadrilha em atividade no Brasil, o empresário, que sacava dezenas de milhões de reais a cada chamada do chefe, é integrante confesso e destacado da mesma quadrilha.

É o homem do caixa sujo, da consumação das ilicitudes. Passível, portanto, de enquadramento nos crimes de corrupção ativa, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e outros itens mais que uma boa investigação apontar.

O empresário acabou. Resta o bandido – muito perigoso, aliás, porque refratário a qualquer limite ético, moral ou legal. Gângster de alto cacife por sua proximidade com outros chefes, da mesma estirpe, incluindo os ocupantes do mais alto nível do poder público. Um verdadeiro homem bomba.

Joesley Batista já era bandido quando se apresentou, em Brasília, ao chefe do Ministério Público Federal. Não foi limpo à presença de Rodrigo Janot. No momento em que se encontraram, Joesley mantinha com propina um subordinado do procurador geral da república para informa-lo do que lhe interessava junto ao MPF (que precisou ser preso por isso) e atraíra outro procurador, ainda mais próximo, para advogar seus interesses e preparar a delação (a quatro mãos). Minara o centro da principal máquina de combate à corrupção no país.

Joesley negociou com essa cúpula o mais favorável, surpreendente e suspeito acordo de delação de toda história da Operação Lava-Jato. Não só não foi preso nem submetido a controle através de tornozeleira eletrônica como ganhou imunidade penal e pôde transferir seu domicilio para os Estados Unidos, a pretexto de que estava sendo ameaçado de morte, mesmo quando suas acusações ainda estavam sob sigilo.

São muitos os defensores de Janot e de Edson Fachin, relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, que homologou integralmente a delação, em compasso afinado com o planejamento do delator para possibilitar a especulação financeira antes da revelação do que disse (que lhe teria rendido 800 milhões de reais) e sua fuga para os Estados Unidos.

Eles acham que a preciosidade das informações justificou os benefícios concedidos a Joesley. Seria um preço compatível com a qualidade do produto oferecido. É uma tese frágil demais para suportar a incrível coleção de privilégios deferidos ao delator. Afinal, ele mesmo disse que corrompeu 1.800 políticos.

Mas e agora, com a reprise já debochada, na qual Joesley escancarou o que revelara e chegou aos mínimos detalhes, omitidos na primeira delação (a única efetivamente realizada até agora, já que a próxima ainda está por acontecer)? O lógico é que o primeiro acordo seja cancelado.

Não só isso. O réu confesso de integrar uma quadrilha de corrupção, a maior e mais profunda, talvez, da história da humanidade, tem que ser preso, como foram os outros delatores, inclusive de alto coturno, como Marcelo Odebrecht, comandante de outra máquina corruptora, no cárcere até hoje.

Michel Temer tem imunidade. Como ele diz que não renunciará, um processo contra ele terá que passar pela Câmara dos Deputados. Temer estima dispor de votos suficientes para barrar qualquer ação contra si. Tantas vezes quantos forem os pedidos de licença para processá-lo? Duvide-se.

Quanto a Joesley, espero que ele já esteja sendo procurado pela Polícia Federal, a pedido de Janot, deferido por Fachin, quando meu caro leitor estiver lendo este artigo. Do contrário, o que restará da república?

Discussão

23 comentários sobre “Cinzas & cinzas

  1. “Sem dúvida, termina de revelar a melancólica dimensão criminal de um professor de direito constitucional e jurista de nomeada.” : a ciência a serviço do crime? A S. R. explica

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    Publicado por Luiz Mário. | 17 de junho de 2017, 09:56
  2. E pensar que estudei Diteito Constitucional nos seus manuais, durante e depois da graduação. Isso gera uma sensação de desalento, sobretudo quando lembro de seus ensinamentos acerca do “controle de constitucionalidade”. Quanta ironia!

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    Publicado por Marilene Pantoja | 17 de junho de 2017, 10:04
  3. O Direito Constitucional não seria uma das bases da Ciência Jurídica?

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    Publicado por Luiz Mário | 17 de junho de 2017, 21:47
  4. Ou seria a Ciência Jurídica a base do Direito Constitucional?

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    Publicado por Luiz Mário | 17 de junho de 2017, 23:09
  5. A razão está com o Funk carioca , quando diz , ” tá tudo dominado” no Brasil , pelos bandidos.
    A favela e os subúrbios pobres pelos quadrilhas do tráfico e pelas milicias , as penitenciárias pelo crime organizado , e Brasilia & Cia pela bandidagem dos homens de colarinho branco .Nunca o branco esteve tão sujo , encardido , fedorento , asqueroso , repugnante … nem a Bombril dá jeito …

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    Publicado por Marly Silva | 17 de junho de 2017, 23:50
  6. Lucio,

    Razão tinha você e a Marina quando chamaram por eleição direta logo após a saída da Dilma. O Brasil estaria certamente melhor a esta altura do campeonato.

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    Publicado por Jose Silva | 18 de junho de 2017, 07:48
  7. “informações científicas para gerar normas esperadas de comportamento”, ou seja, seria a ciência a serviço do crime?

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    Publicado por Luiz Mário | 18 de junho de 2017, 09:50
    • Olha…os comportamentos esperados normatizados pelo direito são geralmente aqueles que trazem benefícios para a sociedade. Os comportamentos negativos são proibidos ou punidos. Ao longo do tempo, os comportamentos incentivados e proibidos mudam, por isso as leis precisam ser atualizadas. Um exemplo recentes são os direitos da comunidade LBTG.

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      Publicado por Jose Silva | 19 de junho de 2017, 00:36
  8. Bandidos-profissionais e altamente qualificados , diga-se , bilingues , trilingues, com MBA em Ge$tão da Coi$a Pública em universidades dos EUA , Europa, Reino Unido , Japão ….

    E por falar em competência e talento para o crime , vamos ver o que nos diz José Murilo de Carvalho , um grande historiador brasileiro sobre Brasilia , e mais exatamente sobre a relação entre Poder & Arquitetura , uma arquitetura politica , anti-povo chamada de modernista .

    ” Brasilia teve grande importância geopolítica ao incentivar o desbravamento do interior do País. Mas teve efeito deletério para os costumes políticos .Afastou os três Poderes do contato com o povo .Um mensaleiro no Rio de Janeiro , por exemplo, seria vaiado na Câmara e nas ruas. Em Brasilia , pelo distanciamento e pelas proprias dimensões da Praça dos Três Poderes , esse contato é limitado .Tenho também dúvidas se um distrito federal deva ter o mesmo status politico que um Estado. Uma prefeitura seria mais adequada , e mais economica .
    Brasilia , por seu isolamento geografico , não por culpa das pessoas , se transformou em uma corte que cria um cinturão de proteção em torno dos políticos , livrando-os da pressão direta do povo . Lá só vão grupos organizados que podem pagar o transporte de militantates …”.( entrevista concedida a Ivan Magalhaes , intitulada ” Uma nova velha hostória, dezembro, 2009 , “O estado de SP )

    Faz sentido , não ?

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    Publicado por Marly Silva | 18 de junho de 2017, 12:27
    • Marly,

      Pode ter fundamento, mas precisamos lembrar que a cidade foi planejada pelo Niemeyer, que sempre foi comunista. Será que no fundo ele queria afastar o povo dos políticos?

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      Publicado por Jose Silva | 19 de junho de 2017, 00:33
      • Uma arquitetura plástica, bonita, audaciosa, inovadora, nada funcional, que maltrata o indivíduo e esmaga a massa. Um patamar acima do socialismo realista, mas na mesma escada. Um stalinismo à brasileira.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 19 de junho de 2017, 14:49
      • Isso é verdade, a funcionalidade foi prejudicada em nome da beleza. Basta ver a UNB e suas catacumbas. Então a hipótese agora é que Brasília foi planejada por uma das mais renomadas mentes da esquerda para servir a um regime totalitário.

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        Publicado por Jose Silva | 19 de junho de 2017, 22:27
  9. Brasília foi o início do fim do Brasil que poderia ser grande e forte. Optando por um modelo de desenvolvimento montado em endividamento externo, opção de logística rodoviária e indústria automobilística fazendo carroças no Brasil, abriu-se as portas para a falência, para a promiscuidade com as empreiteiras e e com esse quadro de crises que não vejo acabar desde a inauguração da Capital Federal.
    Quando JK optou por traçar o desenvolvimento do Brasil, integrando o Centro-Oeste com a criação megalômana de um nova Capital, preparou o caminho para todas as crises que estamos vivendo, passando por uma ditadura militar. Não sou cientista político, mas pelo que vi desde criança, é o que sinto.
    Os recursos empregados na construção e para dar vida e funcionalidade em uma capital planejada para ser o centro de decisões do País, se fosse empregado em um projeto de desenvolvimento, com uma montagem de infraestrutura logística, envolvendo trens, hidrovias, rodovias por segmentos, aeroportos e portos, com projetos paralelos de energia e comunicações, certamente, em meu entender, traria resultados e mais equilíbrio nas relações da federação.
    O que se gastou com a construção de Brasília, talvez tenha sido menos do que se gastou para levar toda a corte e o aparato burocrático instalado no Rio de 1806, com a vinda do Rei de Portugal e entourage ao Brasil, fugindo de Napoleão, que também nos saiu muito caro. Essa experiência de mudança de Capital, de Lisboa ao Rio, não serviu de lição.
    Agora, temos que engolir o erro e não deixar que os problemas se eternizem.
    Sugiro uma nova discussão e revolução no pacto federativo, dando independência aos Estados e, consequentemente, menos poder ao Governo Nacional, que poderia funcionar mais como moderador das relações, normatizador de procedimentos e relações entre Estados, segurança nacional e harmonia dos assuntos que merecem ser tratados de forma uniforme em seu tronco, como a educação, funcionando como uma comunidade tal a europeia.
    Parlamentarismo nacional e sistema presidencialista nos Estados. Seria um bom começo para se pensar e agir!

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    Publicado por JAB Viana | 19 de junho de 2017, 11:00
    • Estive na inauguração de Brasília, em 1960 (com 9 anos), ao lado do meu pai, que era da SPVEA, abrigo da Rodobrás, que construiu a Belém-Brasília. Voltei muitas vezes, mas nunca gostei de Brasília. Acho a cidade a mais discriminatória que já conheci. O povo entra no plano piloto como garçom, motorista, servente, porteiro, etc., invisível. Acho que seu custo superou o da transferência da corte portuguesa para o Brasil. Até pelo menos uns poucos anos atrás o país ainda pagava pela obra.
      O distrito federal tem a maior renda per capita do país, sendo a burocracia o seu principal produto. Permitiu a penetração mais acelerada ao interior do Brasil, sobretudo à Amazônia. Numa relação custo-benefício de maior espectro qualitativo, desconfio que perdemos muito mais do que ganhamos. E JK, um verdadeiro estadista e um homem notável, abriu as porteiras para as empreiteiras, Hoje sabemos o que isso significou.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 19 de junho de 2017, 15:00
  10. A Sociologia da Reeleição explica a ditadura da corrupção…..

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    Publicado por Luiz Mário | 19 de junho de 2017, 12:27
  11. Lucio, Brasília seria um imenso Kremlin?

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    Publicado por Edyr Augusto | 19 de junho de 2017, 15:00
  12. Algo belo, o sonho de um apaixonado ilógico, um visionário sem freios, que amava fazer e queria fazer um Brasil maior, movido pela fé das paixões, sem buscar a razão, pesar os custos e os benefícios.
    A integração poderia ser pela expansão da fronteira agrícola, incentivos ao investimento privado em infraestrutura e indústrias viáveis; hidrelétricas, ferrovias do sul ao centro, portos e aeroportos e rodovias menores ligando pontos estratégicos, modernização da cabotagem.
    Não estávamos preparados para essa louca bandeira, ou melhor, estrada, pois oficial. Não havíamos atingido ainda o nível tecnológico adequado para o agronegócio e nem para empreendimentos locais aceleradores de atividades em cadeias produtivas tecnologia ainda, adquirida com os investimentos em pesquisa agrícola nos anos 70, mas tínhamos negócios que sumiram com a “modernização” do modelo trazido com os sonhos de JK.
    Empreendimentos locais não suportaram a competição com o Centro de investimento, São Paulo, Minas e Rio e, para complicar, as rodovias trouxeram mais problemas e impactos que o isolamento nos defendia.

    Acho que falar depois é mais fácil, porém, se houvesse um pouco de sensatez e menos sonhos, o caminho seria outro e deveria consagrar o óbvio, como investir em educação, preparar cientistas nas atividades que pudessem alavancar desenvolvimento dentro de nossas vantagens comparativas, para gerar vantagens competitivas, incentivar atividades em nível primário e secundário, modernizando todos os setores da economia, apoiando-se em informação, comunicação, energia farta e barata e desenvolvimento de outras atividades em que somos bons.

    Descentralizar os investimentos por eixos de difusão de efeitos multiplicadores por todo o País, e não apenas concentrá-los no Sudeste, algumas Capitais do Sul e Nordeste e Brasília, como era a visão da época, resumida depois por Delfin, que dizia ser necessário crescer o bolo para depois dividir.

    O custo financeiro, social e ambiental com rodovias tipo a Belém/Brasílio e Brasília/Porto Velho, foi um custo astronômico que daria para investir em educação, ciência, tecnologia e infraestrutura estrategicamente posicionada, que traria muito mais resultados que esperados naqueles 5 anos de JK, gerando para as gerações como a nossa e posteriores, mais de 50 anos de problemas que caminham para o insanável.

    Logicamente que o equívoco partiu de uma má avaliação de nossa intelligentsia da época, que não soube conter o arroubos de um visionário, não sendo no entanto a única causa de nosso destino ao fundo do poço que já vinha sendo cavado desde o Estado Novo por outro tatu patriota.

    JK era sim um estadista à moda antiga, como Roosevelt nos EUA e outros que se destacam na história, e longe de mim colocá-lo como o culpado por nossos problemas. Apenas não encontrou os referenciais para contê-lo em seus projetos e sonhos, que se confundiam e que não podíamos arcar.

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    Publicado por JAB Viana | 19 de junho de 2017, 17:48
    • Mesmo um estadista, como JK foi, dos poucos que ocuparam o poder máximo no Brasil, pode cometer erros – e monumentais. Adstritos à realidade histórica de cada época, temos que atenuar um pouco esses erros porque fazer andar esse paquiderme chamado Brasil é uma epopeia – não realizada até hoje.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 19 de junho de 2017, 19:06
  13. AVANTE!

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    Publicado por Luiz Mário | 19 de junho de 2017, 18:33

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