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Cultura

A história na chapa quente (235)

O tesouro da Amazônia

do padre João Daniel

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 316, de janeiro de 2004_

A vida do padre João Daniel (de 1722 a 1776) foi um mistério e uma tragédia. O mistério, que perdura até hoje: como é que uma pessoa absolutamente anônima em seu trajeto de vida deixa como legado, ao morrer, um livro maravilhoso como o Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas, que é um dos mais preciosos conjuntos de informações sobre a região em todos os tempos?

Mas (e aí vem a tragédia) se o padre português não conseguiu se destacar por seus atos, como explicar que tenha sido mantido preso ao longo de 18 anos, morrendo numa das duas masmorras em que o marquês de Pombal mandou confiná-lo?

A biografia de João Daniel é, na verdade, um acúmulo de mistérios e tragédias, para os quais as escassas informações a seu respeito mais complicam do que elucidam. Quem lê o Tesouro não deixa de se impressionar com a riqueza de observações que contém.

Mais estupefato fica ao saber que o missionário escreveu essa obra de mais de mil páginas durante o longo período de prisão nos calabouços de Lisboa, sem fontes de consulta, sem anotações prévias e tendo que se valer de qualquer pedaço de papel que lhe caía às mãos (e imediatamente era confiscado, depois de escrito, pelos guardiões do governo português).

Quase 30 anos depois da primeira edição completa dos manuscritos deixados por João Daniel, publicada em 1976 nos Anais da Biblioteca Nacional, uma nova edição integral do Tesouro Descoberto está disponível para o leitor (Contraponto Editora, volume I, 597 páginas; volume II, 622 páginas), graças ao co-patrocínio da Prefeitura de Belém (administração do “professor e arquiteto” Edmilson Brito Rodrigues, conforme está devidamente assinalado nos créditos).

A nova versão, além de bem cuidada graficamente, é valorizada por uma apresentação de Vicente Salles (no lugar da anterior, de Leandro Tocantins, duramente criticada por José Honório Rodrigues, que chegou a duvidar de que o apresentador houvesse realmente lido o livro apresentado), um índice e correção de grafia (que faltaram à edição da Biblioteca Nacional). É o acontecimento editorial do ano, mesmo 2004 ainda estando a começar (e mal, em muitos sentidos).

Minha paixão pela “bíblia ecológica” do padre João Daniel, como a definiu Leandro Tocantins, foi à primeira vista, em meados da década de 1960, ao contato com a edição parcial que foi publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. O livro se tornou, para mim, uma fonte de conhecimento, de prazer e de revigoramento do entusiasmo pela Amazônia. Um autêntico livro de cabeceira.

Daniel não se limitou a descrever e analisar a região na qual atuou, no curso de 16 anos (entre seus 19 e 35 anos de idade), embora, a rigor, em 10 desses anos praticamente tenha se limitado à formação religiosa, no seminário dos jesuítas, em Belém.

Mesmo as excursões feitas ao interior do Grão-Pará não foram tão extensas e demoradas, o que suscita outra surpresa: como pôde testemunhar sobre quase toda a bacia amazônica dominada pelos portugueses, se sua experiência era restrita?

Certamente uma parte do seu conhecimento tem origem em fontes secundárias. Daniel usufruiu como poucos a preciosa biblioteca dos jesuítas, uma raridade na colônia, proibida de ter acesso a livros. O saber do padre se ressente desse conhecimento livresco.

Só assim se justifica que ele indique o “Estreito ou Istmo de Panamá” como sendo uma das cabeceiras do rio Amazonas e, na página seguinte, chegue bem perto da verdade ao apontar a “Lagoa Lauricoxa” como sendo a fonte “e primeiro berço deste grande gigante”.

Todos os que fizeram referência à vida e obra de João Daniel, tendo como base a monumental história dos jesuítas escrita por Serafim Leite, limitam-se a reproduzir toscas informações como se elas não fossem, além de pobres, contraditórias.

Depois de ler e reler tantas vezes o Tesouro, sou cético em relação às versões que fazem o livro surgir, pronto e acabado, da cabeça de um autor enclausurado por 18 anos, quase como uma obra divina, talvez soprada pelo Espírito Santo.

Em primeiro lugar, acho que os algozes dos jesuítas não privaram o missionário de suas anotações. Ou por terem sido enganados pelo prisioneiro ou por terem percebido a utilidade daquelas notas. Também acredito que o padre pôde ler livros e consultar documentos na prisão.

Como justificar de outra forma que ele se refira à antiga missão de Gurupatuba, “hoje afamada Vila de Monte Alegre”, se Gurupatuba só foi elevada à condição de vila, com o novo nome português, em 1758, um ano depois de João Daniel ser enviado, preso, para Lisboa?

O padre cita os Anais, de Berredo, que só foram publicados em Lisboa, em 1749, e o relato feito pelo naturalista francês Charles de la Condamine, um pouco antes de Pombal determinar a expulsão da ordem jesuíta do território brasileiro. Estaria tão atualizado assim na pobre colônia?

Também acredito que o déspota esclarecido que era Pombal usou de um ardil na relação com o cativo: controlava a entrega de papéis para que escrevesse e os tomava logo após as anotações terem sido produzidas

Seja assim ou de qualquer outra maneira, que talvez já não se consiga mais esclarecer, o Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas sobreviveu aos mistérios e tragédias do padre João Daniel e nos chega, vivo e fresco, como o maior tratado produzido sobre a Amazônia até o ingresso em cena, logo em seguida, do sábio baiano Alexandre Rodrigues Ferreira.

E ainda que a Viagem Filosófica se imponha como referência científica, o Tesouro a sobrepuja como uma declaração de fé e de amor na riqueza e no futuro da Amazônia. Sem igual – antes, durante e depois. Daí devermos saudar seu renascimento, por meio dessa parceria entre a Prefeitura de Belém e a Editora Contraponto, e aproveitar sua energia vivificante.

Parabéns, professor e arquiteto Edmilson Rodrigues. Para comemorar o feito verdadeiro, que tal ler a obra? É o convite que se faz a todos os que amam a Amazônia, ou pretendem vir a amá-la. E a entendê-la também.

Discussão

9 comentários sobre “A história na chapa quente (235)

  1. Fazer sucesso com chapéu alheio sempre foi prática corriqueira dos oportunistas, ainda que tal atitude possa suscitar alguma investigação. Em tempos de Ditadura da corrupção, o oportunismo vira virtude…

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    Publicado por Luiz Mário | 19 de junho de 2017, 12:18
  2. É uma preciosidade imensa em dois livros editados dos cinco livros organizados pelo padre Daniel. Que destes cinco, os dois últimos geraram uma curioso caso para encontrar e recuperar estas todos os escritos e juntar a então obra completa.
    Também não conhecia e vejo poucas pessoas citando o trabalho tão rico sobre a Amazônia, ainda que este trabalhasse mais nas áreas mais orientais nas confluências do hoje estado do Amazonas, como diz o titulo a desvendar os tesouros do rio Amazonas. Não que faça muita diferença para desvendar a Amazônia de ontem quando ainda muito se discutia da politica e ainda iam se definindo as fronteiras da região entre modificação de governança entre Grão Pará e Rio Negro e Grão Pará e Maranhão. Detalhes esses só de quem pesquisa coisas especificas e tenta encontrar as regiões de hoje nos escritos de ontem. Amazônia é bem maior que nossas rixas, nossas diferenças, que deveriam ligar pelas nossas proximidades todos dessas bandas daqui onde passa e perpassa o Amazonas próprio ou seus afluentes.
    Mas voltando a falar da obra é rica sim em muitos aspectos de quem deseja ver aquela Amazônia antiga em cada detalhe e nuance da Amazônia Colonial. Como a de diferentes viajantes tão conhecidos e citados por falar deste espaço de nossas origens. É um rico livro sim que merece os parabéns pelo edição.
    A seguir cito alguns trabalhos feitos sobre a obra de João Daniel.
    O Maximo do Rio Amazonas: as joias da Coroa, de Vera de Almeida e Val e Nazaré Ferreira fez um apanhado geral sobre o trabalho e destaca capítulos importantes e problemas antigos que se repetem hoje como pesca redatoria e poluição.
    O Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas (1741-1757) de João Daniel e a História da Alimentação, de Tainá Paschoal aborda bem os aspectos geográficos e divisões politicas do tempo e aborda um pouco da importância de conhecimento da cultura alimentar.
    O Tesouro da Alteridade Amazônica na Obra de João Daniel, de Henryk Siewierski aborda novamente sore a obra e o a descrição e o conhecimento da região Amazônica.
    O Tesouro redescoberto: os capítulos inéditos de João Daniel, de Antonio Porro fala sobre os dois últimos capítulos encontrados na biblioteca de Évora.
    E o livro disponível digital pelo UFPA 2.0.

    http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1371345882_ARQUIVO_anpuh2013.pdf
    http://www.scielo.br/pdf/asoc/v8n1/a10v08n1.pdf
    https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=12&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwjHtOzMpcrUAhVCeCYKHVRTD_Q4ChAWCE8wAQ&url=http%3A%2F%2Fwww.periodicos.usp.br%2Frieb%2Farticle%2Fdownload%2F34546%2F37284&usg=AFQjCNHy91IfJDMZGshUlZhkeAvukClfLQ
    https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=14&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwjHtOzMpcrUAhVCeCYKHVRTD_Q4ChAWCFswAw&url=https%3A%2F%2Fpaginas.uepa.br%2Fseer%2Findex.php%2Fsentidos%2Farticle%2Fdownload%2F357%2F334&usg=AFQjCNGeZwa8PnG7dPcQue-R7oAtCmIGNg
    https://ufpadoispontozero.wordpress.com/2013/11/06/tesouro-descoberto-no-maximo-rio-amazonas-vol-i-ii/

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    Publicado por Fabrício | 19 de junho de 2017, 13:47
    • Maravilhoso, caro Fabrício. Muito obrigado.
      Aproveito para lhe perguntar, já que não conheço os trabalhos: o que eles dizem sobre o padre escrever esse colosso segregado na prisão de Lisboa?

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 19 de junho de 2017, 15:13
    • Bom, quando remontam o histórico sobre como os escritos foram feitos a maioria deles demonstra surpresa justamente pelo fato de o padre mesmo estando preso guardar tantas informações sobre a região. Falam do Colosso de informações, tanto em quantidade quanto em qualidade delas. Muitos ficam estupefatos e tentam passar no escrito o pasmo do modo como foi produzido. Não só, mas falam sobre a importância ao descrever a natureza, a fauna, a flora, a ocupação, a educação, estudando cada fato especifico. Mas quando falam em geral de Amazônia tentam retratar a importância do escrito com texto base. Acabam não indo além fazendo proposições sobre sua pesquisa, bibliografia do padre, material a que possivelmente teve acesso ou algum contato. Mas é uma boa pesquisa.
      Para falar a verdade li o livro bem pouco, alguns capítulos específicos. Dos artigos li a metade deles aqui, a que encontrei depois de ler seu artigo e descobri um pouco mais sobre a obra. Todos são muito elogiosos, como de quem lê com cuidado tem lá seu encantamento.

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      Publicado por Fabrício | 19 de junho de 2017, 15:42
      • Desde a primeira leitura do livro do padre me intriguei por esse detalhe de escrever esse monumento em palavras dentro da cadeia. Depois de muito pesquisar, cheguei a esses dados, que desmentem essa versão corrente, sustentada em todos os textos que abordaram a questão que eu li. Passei a me interessar pelo tratamento que Pombal dava a João Daniel. Mas o jornalismo do dia a dia, que me fez adoecer, não me deu a trégua necessária para seguir essa nova trilha. Em tese, ela me parecer ser assemelhada à relação de Mussolini no poder e Gramsci na prisão.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 19 de junho de 2017, 19:03
      • Fabrício,

        Qual o link para a versão digital deste livro histórico e importante?

        Obrigado.

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        Publicado por Jose Silva | 21 de junho de 2017, 20:05
      • https://ufpadoispontozero.wordpress.com/2013/11/06/tesouro-descoberto-no-maximo-rio-amazonas-vol-i-ii/
        Nesse do ufpa 2.0 da fau-ufpa.
        Também não deve ser difícil de procurar. Esse projeto é um belo projeto que tens muitos livros raros digitalizados com a temática Amazônia.
        Veio lá do Fórum Landi em frente a igreja do Carmo.
        Ainda me falta um tempo pra apreciar essa extensa obra, mas já tive boas referencias. Espero que gostemos.
        Abraços.

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        Publicado por Fabricio | 21 de junho de 2017, 23:11
      • Obrigado Fabrício.

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        Publicado por Jose Silva | 22 de junho de 2017, 21:20
  3. AVANTE!

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    Publicado por Luiz Mário | 19 de junho de 2017, 18:27

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