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Justiça, Política

Circo e pão: o Brasil surtou

Nenhum autor de romances de espionagem conseguiria criar um enredo tão complicado e intrigante quanto os brasileiros, que produziram a maior crise de sua tão crítica história. Quem se der ao trabalho de reconstituir cada capítulo dessa rocambolesca trama, que já descambou definitivamente para o absurdo e o surrealismo, haverá de concluir que nela agem apenas bandidos. O mocinho ainda não se apresentou. Talvez nem exista.

A crise é de homens (e mulheres, naturalmente) desde os comuns, na base da pirâmide demográfica, até a cúpula, a mais alta nessa Sodoma de concreto que atende pelo nome de Brasília. Que lideranças serão capazes de se livrar do fogo da corrupção para conduzir o país a um novo patamar de decência e dignidade, ao menos mínimas?

O presidiário Eduardo Cunha, que foi presidente da Câmara dos Deputados e, por isso, o segundo na linha sucessória do presidente da república, ajuizou da sua cela, em Curitiba, um inédito recurso ao Supremo Tribunal Federal, O ex-deputado quer anular  a “delação bilionariamente premiada” do empresário Joesley Batista, acertada a quatro mãos por Edson Fachin, ministro do mesmo STF, e o procurador geral da república, Rodrigo Janot. Com enfase e ironia, o cidadão processado por corrupção quer mais ou menos o que a vovó Zulmira, criação ficcional de Stanislaw Ponte Preta, reivindicava: ou restaure-se a moral ou todos nos locupletemos. Não há inocentes no Leblon.

Se os principais implicados em ilícitos pela Operação Lava-Jato estão na cadeia, em prisão aberta ou domiciliar, envergando vistosas tornozeleiras eletrônicas e outras – digamos assim – punições, por que os bandidos da JBS desfrutam “dos seus bilionários bens à vista”, graças à mais insólita – e mesmo inacreditável – delação de toda a Lava-Jato, ainda uma caixa de Pandora a desafuar quem a devasse?

Com evidente conhecimento de causa, Cunha indica os objetivos escusos de Joesley Batista ao montar a sua delação e vê-la endossada principalmente por Janot, de cuja companhia tirou o mais próximo dos procuradores em Brasília, contratando-o para preparar tecnicamente a delação do empresário da carne. Mas também traz para a ribalta o ex-presidente Lula, argumentando ser ele – e não Michel Temer – o principal parceiro de Joesley na organização criminosa por ele descrita.

Cunha diz que num encontro com Joesley e Lula, a pedido do ex-presidente, na residência do dono da JBS, realizado no dia 26 de março de 2016 (omitido pelo empresário na sua delação e na sua recente entrevista à revista Época), pôde constatar “a relação entre eles e os constantes encontros que mantinham”. Como consequência desse entendimento, surgiram os supostos benefícios concedidos pelo governo à JBS, como a medida provisória de refinanciamento de dívidas, que possibilitou à empresa pagar bilhões de reais devidos à previdência em 15 anos, com descontos e o uso de moedas podres. E um acordo de leniência privilegiado com o Banco Central.

Eduardo Cunha faz o jogo de Temer, agora em desatada ofensiva, quase louca? Pode ser. Mas sua incrível ação já está na mais alta corte do país, em busca de explicação. É melhor assim. Com tanto circo montado no Brasil, um pouco e pão é bem melhor.

Discussão

16 comentários sobre “Circo e pão: o Brasil surtou

  1. ainda existe muito lixo debaixo do tapete.
    limpar tudo e todos é preciso.

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    Publicado por valdemiro | 20 de junho de 2017, 19:15
  2. Não entendi porque o juiz que recebeu a peça do Presidente processando por calunia e difamação o JB, sentenciou sumariamente a falta de fundamentos para se processar o denunciante, sem ouvir as partes sobre as questões jogadas à imprensa em entrevista à revista Época. Errou o advogado?

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    Publicado por JAB VIANA | 21 de junho de 2017, 00:02
    • Os irmãos Maioranas entraram com uma ação penal e outra cível me acusando de tê-los ofendido e pedindo indenização por eu ter dito que fui espancado por Ronaldo Maiorana. O argumento para as ações foi de que eu não sofrera espancamento: fora “apenas” agredido. Ainda assim, o juiz recebeu – tanto a queixa-crime como a ação cível. Um contraste brutal com a decisão do juiz sobre a ação criminal do Temer. Por envolver as três formas de ofensa codificadas, inclusive a de calúnia, que envolve fat objetivo, a de difamação, já de conotação subjetiva, e a de injuria, a mais pessoal delas, o juiz devia ter pelo menos ouvido o Ministério Público. Ainda não li a íntegra da decisão (o que farei logo), mas confesso que fiquei surpreso. Ainda mais pela segurança do juiz quanto ao equilíbrio entre os crimes de natureza subjetiva. Ele deu ao Joesley Batista um tratamento acolhedor e generoso que falta aos jornalistas quando exercem o direito de crítica. No caso deles, pesa mais a suscetibilidade exagerada dos criticados, ainda mais quando autoridades públicas.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 21 de junho de 2017, 11:00
  3. Realmente é o País dos paradoxos.
    Talvez a frase da ministra Carmen Lúcia nos faça entender um pouco, como chegamos até aqui: “houve um momento em que a maioria de nós brasileiros acreditou no mote de que a esperança tinha vencido o medo. Depois, nos deparamos com a ação penal 470 e descobrimos que o cinismo venceu a esperança. E agora parece se constatar que o escárnio venceu o cinismo”.
    Mas quem tinha razão mesmo era Roberto Campos quando disse, em se tratando de escolhas do povo “A burrice tem um passado glorioso e ainda terá um futuro promissor”
    Vivemos um momento símbolo da desfaçatez, enquanto o povo vive na miséria.
    Mas cada povo tem o governo que merece
    O Povo Brasileiro vota com base na definição de sofisma: É uma mentira, propositalmente maquiada por argumentos verdadeiros, para que possa parecer real.

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    Publicado por Valdenor Brito | 21 de junho de 2017, 00:13
  4. Ninguém se tornou campeão nacional sem a benção do presidente. A relação entre JBS e Lula sempre foi muito próxima e forte. Da mesma forma como foi a relação entre Lula com Eike e Esteves. Estes três formavam o grupo de “meninos de ouro” do Lula cuja missão era conquistar o mundo a partir do Brasil.

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    Publicado por Jose Silva | 21 de junho de 2017, 00:30
    • Em 21 de dezembro de 2009 Lula foi a Nova York receber um prêmio concedido por empresários e líderes cívicos americanos, no suntuoso hotel Waldorf Astoria. O salão estava cheio. No seu discurso, Lula só cumprimentou e citou três pessoas: Luiz Dulci, Rex Tiller e “o nosso companheiro Eike Batista”, símbolo do capitalista à moda do PT no poder. O que aconteceu oito anos depois?

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 21 de junho de 2017, 11:05
  5. Eu queria entender o editor desse blog….analisando todas às postagens fica nítido sempre argumentos muito críticos a Lula e um olhar permissivo a Michael Temer. Nesse caso específico aki….há um questionamento só ouvir o parquet …Mas o próprio MT evitou essa Via…..devem está achando o exemplo incipientes. Tá bom… nos reuníamos aki em 12 pessoas Vamos fazer um catalogação dos posts de janeiro de 2016 e junho de 2017 e em breve vamos demostrar estatísticamente..seja pra comprovar ou rejeitar a hipótese levantada!

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    Publicado por Norman | 21 de junho de 2017, 12:59
    • Já pedi várias vezes a renúncia do Temer. Quer que eu peça que ele se suicide?
      Por que nao fazer esse levantamento a partir de 2016, quando, na crise da Dilma, pedi eleição geral para superar o momento? Na época, ninguém do poder, incluindo o PT, queria a eleição geral.
      Como presidente da república (servidor público, portanto), Temer podia representar ao Ministério Público para que promovesse a ação. De caso pensado, não quis. Teria a vantagem de não precisar contratar advogado. Como está em conflito com o MP, seria um risco. Preferiu ser o autor da ação. Logo, seu paralelismo é improcedente.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 21 de junho de 2017, 14:38
  6. Ainda vem mais bomba por aí. Querem meter a mão nos cofres públicos para financiar campanhas: 3,5 bilhões.

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    Publicado por Jonathan | 21 de junho de 2017, 23:46
    • É um absurdo. A pretexto de democratizar a política, vai-se atrelar ainda mais os partidos ao Estado e favorecer uma burocracia de intermediação e controle.Está mais para a unidimensionalidade do que para a pluralidade.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 22 de junho de 2017, 10:29
      • E ainda vêm com a desculpa de “combate à corrupção”. Ora, a maioria deles são corruptos. Gente suja querendo “combater” a corrupção. É só para rir mesmo. O problema não está no sistema, mas no caráter.

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        Publicado por Jonathan | 22 de junho de 2017, 16:57
      • Por isso os militares estavam corretos :). A propaganda deveria ser somente uma fotinho com uma leitura corrida do currículo do candidato. Simples assim. Não precisa mais do que isso para separar o joio do trigo.

        Esqueci: voto precisa ser distrital. Somente assim haverá responsabilidade do parlamentar para com os seus eleitores.

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        Publicado por Jose Silva | 22 de junho de 2017, 23:32
  7. Há mais de três anos a Lava-Jato vem provando e comprovando que o sistema é controlado pela corrupta elite. Ou seja: está mais que comprovado a origem de todos os crimes de lesa-humanidade neste país.

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    Publicado por Luiz Mário | 22 de junho de 2017, 17:27

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