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Cultura

A Cracolândia por um paraense

Paulo Roberto de Faria Pinto é o último dos sete filhos (seis homens, um deles já falecido) de Elias e Iraci (de Faria) Pinto. É também o artista da família. Desde cedo se interessou por literatura, em particular, por teatro. Começou a carreira em Belém. Há mais de 20 anos atua em São Paulo, onde criou um grupo teatral.

O Pessoal do Faroeste não é apenas uma companhia teatral: é uma proposta cultural e política para São Paulo e o Brasil. Paulo se estabeleceu numa das áreas outrora mais lindas e hoje mais deterioradas da capital paulista. Acompanhou desde o seu início a formação de um gueto social incrível, a Cracolândia. O desafio da vizinhança, seguida da convivência, era enorme, mas Paulo o enfrentou. Seu teatro é voltado para os excluídos, os de hoje e os do passado: negros, mulheres, vítimas da sociedade massacrante.

A militância pioneira e audaciosa de Paulo lhe valeu o reconhecimento de quem também atua nessa área de São Paulo ou se interessa pelos excluídos e invisíveis sociais da cidade, uma das maiores e mais problemáticas do mundo. Paulo fincou uma bandeira e conquistou o lugar de porta-estandarte.

Não foi uma trajetória fácil. Continua não sendo. Mas ele já não pode mais ser ignorado, ainda que na contramão do teatro bem estabelecido na ex-capital da garoa (até ela está sendo destruída). Não é sem merecimento. Paulo Faria é ator, autor, diretor, cenógrafo, produtor teatral. Mas exerce todas as funções por trás de uma encenação. Numa posição única nas artes paulistanas (e nacionais).

Graças a essa já extensa obra, sua última peça foi tema de uma matéria de Leandro Nunes, publicada em O Estado de S. Paulo. Reproduzo-a a seguir, sem constrangimento por divulgar o trabalho do meu irmão e afilhado. Com o texto, vai o convite para que quem for a São Paulo vá ver o Curare.

A fumaça das bombas que penetrava pelas portas e janelas do teatro interrompeu, mais uma vez, os ensaios da nova peça do Pessoal do Faroeste, na Luz. Desde o domingo da Virada Cultural, a região da Cracolândia tem sido palco da intervenção policial e da gestão que afirmava que iria acabar com a venda e o tráfico de drogas na região.

O gás lacrimogêneo que incomodava quem estava nas ruas não foi a única coisa que atingiu o elenco de Curare, espetáculo em cartaz na sede da companhia que completa 19 anos. Inspirado no conto de O Alienista, de Machado de Assis, o diretor Paulo Faria criou uma ficção científica cuja figura do médico Simão Bacamarte ganha versão feminina e negra, a dra. Joana. “A peça acontece no ano de 2084, momento em que o Brasil é o maior exportador de canabis e petróleo e lidera o ramo de medicina fitoterápica”, explica Faria.

Entre os estudos com plantas medicinais, a médica é acompanhada por quatro cavaleiras do Apocalipse – Fome, Peste, Guerra e Morte – que vêm anunciar o fim da dor para mulheres vítimas do machismo.

A despeito da narrativa fantástica, o diretor afirma que existem coisas bem reais como a atuação da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, entidade que questiona a política de internação compulsória para viciados em crack na região da Cracolândia. Na noite em que foi entrevistado, Faria participava de uma mesa de debates no Largo General Osório, centro da cidade, sobre o tema. “A peça foi construída nessa vivência na qual a polícia jogava bombas e prendia pessoas, enquanto tentávamos pensar em outras soluções para nós e para eles.”

Quem vai assistir à peça precisa, antes, se dirigir ao Largo General Osório, onde um grupo de atores faz um prólogo inspirado em Romeu e Julieta. “Sempre fiquei me perguntando a razão de tanto ódio entre as duas famílias”, diz Faria. “A explicação não importa para a história, só que se trata de um ódio histórico, que atravessa o tempo. Queremos alcançar essas origens aqui e entender os desdobramentos na sociedade.”

Em seguida, o público escolhe uma das quatro cavaleiras para acompanhar pelo teatro e pelo Amarelinho, prédio mantido pela companhia que serve de ocupação cultural para artistas. “É uma forma de denunciar que essa violência não é solução para as pessoas que estão na Cracolândia”, acrescenta.

CURARE. Pessoal do Faroeste. Rua do Triunfo, 301. Tel.: 3362-8883. Sáb., 20h, 22h30, dom., 19h. Pague quanto puder. Até 8/10.

Discussão

5 comentários sobre “A Cracolândia por um paraense

  1. Caso seja possível da uma olhadinha nesse meu artigo sobre o mesmo tema.
    https://elciaslustosa.com/2017/06/01/franquias-da-cracolandia-vidas-em-derrapagem/

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    Publicado por elciaslustosa | 21 de junho de 2017, 11:35
  2. Observar o contexto da intervenção na cracolândia paulista sobre a ótica da opinião pública, sugere captar o significado do gueto social sobre a lente do morador da cracolândia.

    Oportunidade para transformar a impressão veiculada pela mídia, que, mesmo com todo esforço de imparcialidade jornalística, estampa os estereótipos sobre a situação do racismo e higienização social deflagrado pela gestão do municipio de São Paulo.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 21 de junho de 2017, 11:50
  3. THIRSON
    Ser comentarista, ser espectador dos problemas sociais é fácil, resolver é que são elas. Chega de pessoas que ficam propondo soluções, sem nunca realizarem nenhuma e quando alguém tem ativismo, mudam de posição. Como nós sabemos é preferível: O erro à omisso; 0 fracasso, ao tédio; O escândalo, ao vazio.
    Como disse Leibniz: Por que alguma coisa existe em vez do nada? Pois o “nada” e mais simples que “alguma coisa”. Daí concluía Ele tínhamos uma razão suficiente para existência do universo.

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    Publicado por Valdenor Brito | 21 de junho de 2017, 23:14

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