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Cultura, Política

A história na chapa quente (236)

Cuba by Miller

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 316, de janeiro de 2004)

Em quase meio século de Fidel Castro, milhares de pessoas foram ver o segredo dessa longevidade em Cuba, uma bela e pobre ilha que durante esse tempo todo tem desafiado o poder dos Estados Unidos, o maior do planeta, bem à ilharga do império bélico. O dramaturgo americano Arthur Miller seria apenas mais um visitante se, ao voltar, não nos tivesse brindado com um texto primoroso e original sobre tema tão batido.

As impressões de Miller couberam em uma única página da Folha de S. Paulo, edição do dia 18. Texto curto, enxuto. Mas que a verve e a acuidade de Miller, no alto dos seus 88 anos, tornam mais valioso do que muita verborragia crítica e outros tantos tratados hagiográficos já publicados. Um grande escritor é insubstituível. Avaliamos seu valor quando ele nos traz o novo mesmo ao trilhar caminhos já exaustivamente percorridos por mortais comuns, como nós.

Não há positivismo na avaliação de Miller. A rigor, ele nada julga. Mas a cada narrativa de acontecimentos da excursão, integrada por outros intelectuais americanos de idade avançada, como William Styron, e as respectivas mulheres, ele acrescenta uma observação pessoal definidora, provocativa.

O modo de ser de Fidel se ilumina quando Miller, remexendo nas origens mais remotas da cultura nacional, chega à “eterna melancolia espanhola”, da qual o Dom Quixote, de Cervantes, é o modelo e Cuba a distante reprodução. Touché!

Há como explicar racionalmente o ditador, sem reduzir sua tirania a um ato impositivo unilateral. O embargo imposto pelos Estados Unidos a Cuba, por exemplo, não “proporciona a Fidel uma apólice de seguro contra as mudanças necessárias, injetando na população a energia do desafio justo?”

Aí entra em ação um processo de causação circular semelhante à relação entre o ovo e a galinha. Por permanecer no poder há tanto tempo, Fidel se credencia a ficar mais tempo ainda, escorando-se no inimigo implacável, que pode ser visto a olho nu, de um ponto avançado da ilha, e vice-versa.

Afinal, ressalta Miller, Fidel é el jefe há quase meio século, “muito mais tempo do que qualquer rei ou presidente dos tempos modernos, com a possível exceção do imperador Francisco José, da Áustria”. Um efeito ampliado sobre a população porque a maioria dos cubanos “nem tinha nascido quando ele chegou ao poder”.

À custa dos seus intermináveis discursos e massiva propaganda, o comandante devassou o universo mental dos seus súditos, fazendo-os viver em função de ficções utilitárias, mas convincentes. Se os EUA são o catalisador de união, a antiga União Soviética serve de refrigério. Arthur Miller observa que até hoje Fidel fala da dissolução da URSS como sendo desnecessária, “um erro”:

– Em suma, não existia nenhuma contradição inerente ao sistema soviético que tivesse provocado sua queda, e, portanto, não existe nada no sistema criado por Fidel Castro que esteja gerando a pobreza dolorosa da ilha.

O ponto alto do texto nem são essas pequenas e precisas análises, mas os apostos das narrativas. Aquele toque sutil de genialidade que transmite ao leitor não só o que o narrador está sentindo e vendo, mas a qualidade do personagem tratado. É assim que, no meio das refeições partilhadas pelo comandante, Miller informa que Fidel só comeu verduras, “já que pretende viver para sempre”.

No almoço que se seguiu a um jantar, jantar esse que deveria ter varado a madrugada se o ditador não tivesse sido brecado por seus assustados convidados (Fidel “gostava de passar a noite em claro, já que dormia a maior parte do dia”), Miller é ainda mais preciso: “ele comeu duas folhas de alface”.

Lembre-se que Adolf Hitler também era vegetariano radical. Nesse caso, porém, o gosto pelos paralelismos inadequados deve ser freado: Fidel Castro é um ditador incomparavelmente menos nocivo e mais atraente (além de mais duradouro do que o arquiteto do Reich dos mil anos).

Não é à toa que tem, entre seus fiéis acompanhantes, o escritor colombiano Gabriel García Márquez, especialista nesse pathos (que a tradutora, Clara Allaind, infelizmente optou por patos mesmo, reduzindo a doença à ave).

É de lamentar que, no lugar de “Gabo”, para efeito de nos apresentar melhor essa figura única chamada Fidel Castro Ruiz, não tenha estado alguém melhor qualificado a interpretar o gênero humano, o próprio Arthur Miller.

Dica

Para quem estiver interessado em conhecer melhor Arthur Miller, recomendo a leitura de suas memórias, Uma vida. No gênero, um dos melhores livros que já li. Tão interessante que mesmo uma das maiores façanhas do escritor (ao menos aquela que mais invejamos), ter dormido ao lado de Marilyn Monroe (junto com o Channel número 5, claro), vira um detalhe.

Discussão

6 comentários sobre “A história na chapa quente (236)

  1. A figura de Fidel Castro pode contrastar com a figura de Michel Temer, sob a ditadura da corrupção.

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    Publicado por Luiz Mário | 24 de junho de 2017, 18:02
  2. Morte a Cuba e ao comunismo,Bolsonaro 2018, pelo capitalismo no Brasil.

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    Publicado por senador | 24 de junho de 2017, 18:56
  3. Penso que Cuba é semelhante a uma cidade pequena do Brasil, com as respectivas qualidades e defeitos. Uma democracia liberal exige um certo distanciamento, uma burocracia muito “fria”. Para fazer essa transição vai ser necessário muito jeito, muita paciência e habilidade política. Espero que Cuba encontre os líderes necessários para este trabalho. Parece bobo o que eu disse, mas é que tem gente que acha que em meio semestre da para fazer tudo isso em Cuba.

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    Publicado por Aldrin Iglesias | 25 de junho de 2017, 22:18

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